o dedo fino, cuja unha roída o tabaco amarelara ao longo dos últimos meses, deslizava na tela do celular em busca de mais algum tuíte com potencial manifesto.
Enfeitiçada pela leitura do romance 'Nome falso', de Ricardo Piglia, ela não percebeu o tempo passar. De repente, as luzes se apagaram. ‘Tem gente aqui!’, gritou, e ouviu os passos do vigia que caminhava em direção a sala onde ela estava.
'Fique no salão onde está agora', gritou ele, depois de me dizer que até tolerava pontas duplas: mas não minhas pontas promíscuas e poligâmicas. 'Achei que o senhor fosse hetero', respondi, surpreso. 'Sou um barbeiro que corta para os dois lados', disse ele, rindo entre lágrimas.
'Quem te disse?', perguntei, e a depiladora falou que o crescimento irregular dos meus pêlos era sinal de confusão. 'E vejo que você encontrou alguém especial', continuou ela. 'Quem te...', hesitei - ao notar que ela retirava um preservativo dos meus grandes e fofoqueiros lábios.
'Quando eu era solteiro eu pegava', brincou nosso chefe, gerando um clima desagradável no amigo oculto - afinal, sua esposa estava presente. 'Você prometeu que não ia contar!', gritou um funcionário, sem saber que ele havia tirado a própria esposa e, agora, lhe tiraria o emprego.
'Moço feio do teto!', gritaram os pequenos - apontando para o sótão. 'Se depender das crianças nós teremos que nos mudar', comentei com minha esposa. 'Que crianças?', perguntou ela, franzindo o cenho. Flutuando, e de mãos dadas com o moço feio do teto, ambos infantes riam de mim.
No bar, analisando o casal que se conhecera recentemente, passava em minha cabeça o mesmo filme de sempre. No sorriso felino dela, e na cara abobada dele, era evidente que um feitiço acontecia. Ele sabia que daria trabalho, ela sabia que daria frutos - e eu sabia que daria merda.
Contra minha vontade, atendi às cafonices do cliente - trabalhando pelo meu sustento e em detrimento da beleza estética. 'Tá fazendo tudo do jeito que eu pedi?', perguntou ele, com um tom autoritário. 'Sim, e tá ficando sua cara!', respondi, observando o projeto tosco e disforme.
'Você não é halter de 5kg', disse ele, enquanto ajeitava meu quadril, 'mas eu te pegaria fácil', concluiu, fazendo movimentos ritmados com seu peitoral definido. Carente, aceitei treinar com ele pelo restante da tarde; e, durante a noite, fiz agachamentos em seu pequeno aparelho.
Na saída da escola foi sempre fácil encontrá-lo: ele era o único pai que, de calças arriadas, estaria fazendo seu famoso pirocóptero. 'Pai, isso me envergonha', falei. 'Filha, pra ser pai tem que ter pênis', respondeu triunfante. De noite, com minha tesoura de artes, lhe castrei.
Quando senti o dedo viril e aveludado pelo látex em meu faminto oritimbó, não pude me conter. 'Eu não sou seu paciente', sussurrei, empinando as ancas e rebolando sensualmente. 'Tudo bem, também não sou médico', respondeu ele, tirando a roupa e o jaleco, ficando apenas de jaleco.
Ao ouvir essa frase, nos entreolhamos - afinal, todos os funcionários passaram pelo teste do sofá. 'Agora que casei, continuo pegando!', concluiu ele, e todos rimos. Ele entregou o presente para Astolfo, o segurança, e se separou da esposa. Hoje os dois vivem felizes para sempre.
'Por que veio quatro a mais desse?', perguntou a cliente, após insinuar que eu trouxera menos de cem doces, mas constatar que foram cento e quatro. 'Porque esse é o preferido do seu marido, e ele gosta de quatro', inventei, indo embora plena e sorrindente - enquanto ela chorava.
'Nunca vou esquecer quando você me entregou o canudo', escreveu meu ex-aluno, dois anos depois da formatura. 'E você nunca vai esquecer quando eu te entregar o meu', concluiu, engenhoso. Pela criatividade, aprovei sua prova escrita - e, em seguida, o convoquei para a prova oral.
'Ele não é lindo, amiga?', escrevi, mandando uma foto dele me beijando. 'E beija bem', disse ela, enviando a mesma foto, porém com ela em meu lugar. De súbito, outras fotos foram chegando; e eu não aguentei. Em vez de assumir o que tinha com ele, peguei uma faca - e sumi com ele.