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“Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia de cada um”, diz Márcio Ferreira, do Cecafé
Márcio Cândido Ferreira, presidente do Cecafé, defende que o produto não tenha bandeiras ideológicas, mas se aproxime da cultura para expandir fronteiras, principalmente para a Ásia
Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e diretor-superintendente da Tristão, é pequeno em estatura, mas gigante na diplomacia. Em ano eleitoral, ele defende que não só o café, mas todo o agro, “tenha mais praticidade e menos ideologia” e se aproxime da cultura, que comunica o que fala alto ao ser humano independentemente da nacionalidade.
Brasiliense de nascimento e capixaba de coração, Ferreira se autointitula “alguém sem inimigos” e aproveita sua facilidade de relacionar-se para fazer pontes e abrir portas para o café brasileiro com a ajuda de sua equipe no Cecafé, “enxuta, mas de primeiríssima linha”.
Há quatro anos à frente da instituição, ele lidou com as quebras de safra, consequência da geada que afetou lavouras cafeeiras em 2021; as exportações recordes de canéfora em 2024 e o tarifaço imposto pelos EUA ao café brasileiro em 2025, que acabou dando um “empurrãozinho” para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia neste ano.
Nos últimos meses, visitou várias vezes a Ásia, continente em que o café tem conquistado mais adeptos a cada dia e que responderá pelo crescimento futuro da demanda pelo grão no mundo. Prova disso é a China, que já alcançou consumo de 6 milhões de sacas e superou a Itália, cujo volume está na casa de 5,5 milhões de sacas/ano. A seguir, a íntegra da entrevista.
Espresso: Você está prestes a completar meio século de carreira no setor de café. Como ingressou na área?
Márcio Ferreira: Comecei em 1977 no Grupo Tristão, empresa em que trabalho até hoje e que, no ano passado, completou 90 anos. Entrei como office boy, depois fui para área de exportação fazer serviços de desembaraço no porto. Em 1987, ingressei na área comercial, onde estou até hoje como diretor-superintendente.
E: Quando começou e como foi sua trajetória no Cecafé?
MF: Passei cerca de quatro anos como vice-presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) e, posteriormente, fui presidente da instituição, que é associada ao Cecafé e cobre a cafeicultura capixaba. Dali, fui indicado para ser o novo presidente do Cecafé no final de dezembro de 2022 e estou indo para o meu quarto ano. O Cecafé responde por 97% das exportações de café do Brasil para o mundo. Dentre os associados, temos as principais cooperativas, que atuam no comércio exterior e no mercado interno, as multinacionais e as empresas nacionais, como a Tristão. Um dos nossos objetivos é oferecer aos produtores a melhor remuneração possível. O Brasil repassa mais de 90% do valor FOB aos cafeicultores, enquanto outras origens estão na casa de 75%, e há aquelas que repassam menos de 50%.
E: Como a sua experiência e o peso institucional do Cecafé têm se traduzido nas negociações comerciais e defesa do café brasileiro mundo afora?
MF: Tem sido extremamente positivo, porque o Cecafé é uma instituição de prestígio no exterior. Em janeiro, nosso diretor-geral, Marcos Matos, esteve em Berlim a convite da Associação Alemã de Café para eventos e ações da indústria alemã. O Cecafé combina os conhecimentos técnicos e acadêmicos do nosso diretor-geral com o meu na parte comercial e de relacionamentos, o que facilita as negociações do Brasil, que – necessariamente – passam pelos clientes.
A nossa equipe é enxuta, mas de primeiríssima linha, com o Eduardo Heron, como diretor-técnico, e a Silvia Pizzol, como a diretora de sustentabilidade, nos dando instrumentos para trabalhar. Neste cenário de mudança na geopolítica, EUDR e outras demandas da Europa, o Cecafé tem sido proativo. É um trabalho intenso de relacionamentos com autoridades em âmbito municipal, estadual, federal e global. Estamos sempre em Brasília com os ministros, Presidência da República, Itamaraty. Ano passado, estive 30 dias na Ásia. Primeiro, na China a convite da Apex-Brasil. Depois, fui para Indonésia e Malásia, quando o presidente Lula com seus ministros se reuniu com o presidente Trump para tratar da questão das tarifas. Foi um encontro extremamente importante, com vários setores representados ali, e o Cecafé estava presente. [Depois dessa reunião, os EUA anunciaram o fim de boa parte das tarifas impostas a produtos brasileiros].
Quando surgiu a EUDR, muitos a encararam como protecionismo, mas temos que olhar as oportunidades. Eles alegam que o consumidor quer saber se a área de onde vem o café tem desmatamento. Ok, nós aplaudimos isso, mas requeremos que as embalagens finais reflitam a realidade, o que hoje não ocorre.
Numa loja no exterior, você pega uma embalagem de café em que está escrito [origem] Colômbia, mas quando você escaneia o QR Code, vê que 50% daquele café é brasileiro. Se existe uma EUDR, uma legislação que exige a rastreabilidade do café no talhão, então é de direito do Brasil exigir que a embalagem final ou a cafeteria tenha transparência e demonstre que aquele café é brasileiro.
E: E as tarifas de 50% impostas pelos EUA no ano passado?
MF: Há crises que são verdadeiros presentes. Essa crise fez ressaltar aos olhos do consumidor norte-americano a importância dos cafés do Brasil, porque embora a embalagem não necessariamente diga que os cafés são do Brasil, isso ficou nítido. Inclusive, eu e o Marcos demos entrevistas à rede norte-americana – citando várias características do café brasileiro, que são diferentes das dos demais. Quando você tira o café brasileiro do mercado e aplica uma tarifa de 50%, você automaticamente obriga os importadores a buscarem cafés em outras origens, que não têm quantidade. Aí, o café bateu um novo recorde de preço. Desde que começou a história da tarifa, eu dizia em Brasília: “o tempo corre a nosso favor”. Logo depois que a tarifa foi implantada, o mercado estava em 260 centavos de dólar por libra-peso e foi para 430 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York.
E: O tarifaço norte-americano criou o ambiente para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia?
MF: Certamente, teve um empurrãozinho das tarifas que o governo americano vem aplicando sobre todos os países, mas a gente já vinha trabalhando no acordo há 25 anos. Estamos falando do segundo maior bloco, com um PIB de US$ 22 trilhões, abaixo somente dos Estados Unidos, com US$ 29 trilhões. Os EUA estão com uma postura unilateral, protecionista, que não conversa com o que a União Europeia e nós pretendemos [conversar] – isso é o multilateralismo. Os Estados Unidos é líder como importador de café no Brasil, temos uma relação muito boa e queremos permanecer assim. Mas a União Europeia participa com 44% de tudo o que o Brasil exporta de café, e o acordo abre um potencial enorme pra nós.
E: Você está falando de solúveis?
MF: Sim. Há mais de 20 anos, o Brasil investiu em fábricas de café solúvel, que agregam valor à matéria-prima, mas o produto vem sendo sobretaxado pela União Europeia, com um imposto de importação de 9%. É lamentável ter clientes que outrora compravam café solúvel e, hoje, compram café em grãos, porque a tarifa é proibitiva. Enquanto isso, a União Europeia fechou acordos bilaterais com Colômbia, México, Equador, Vietnã, Índia e Indonésia, que não têm esse imposto de importação sobre o solúvel. Com isso, o crescimento do parque industrial de café solúvel nesses países foi enorme.
O Vietnã ultrapassou o Brasil na capacidade de produção de café solúvel. Hoje, nosso parque industrial está com uma ociosidade de 20%, sem considerar a tarifa americana de 50% sobre o café solúvel brasileiro. Se ela permanecer, a ociosidade vai para 35%. Isso requer muito trabalho para buscar novos clientes, reconquistar o nosso espaço, principalmente na Europa. Se não fossem os 9% de imposto, a participação [brasileira de solúvel] na Europa seria, no mínimo, de 35%, mas, infelizmente, é de 17%. Às vezes, é mais barato mandar conilon em grão para o Vietnã, produzir o solúvel lá e exportar para a Europa. Hoje, é mais barato mandar café do Brasil para Equador, Colômbia ou México e, de lá, exportar para os EUA. Mas temos indústrias que fazem sacrifício para exportar para os EUA, absorvem parte da tarifa, para não perder clientes de sete, oito anos e, às vezes, de décadas.
E: O fato de o Vietnã estar com um parque industrial de café solúvel maior que o nosso é uma ameaça?
MF: É uma ameaça, se nós não fizermos o dever de casa. Mas assinamos o acordo Mercosul-União Europeia e temos importantíssimos compradores de café solúvel do Brasil, fora os Estados Unidos e a Europa. Estou falando da Ásia, onde o solúvel é tarifado de 20% a 48%. Estive com o governo brasileiro nos países asiáticos para negociações bilaterais e retirada desses impostos. Tanto a Europa quanto a Ásia estão na direção do multilateralismo. Isso abre um diálogo para o Brasil dizer: “está na hora de vocês tirarem as tarifas para o café solúvel”. E, eventualmente, o Brasil terá que receber produtos que não são produzidos aqui, ou – mesmo que sejam – que possam entrar num regime de cota sem aplicação de imposto.
E: O que você acha do aumento do consumo de café na China?
MF: O consumo está crescendo em toda a Ásia. Segundo estudos, a população mundial vai saltar de 8 bilhões para 10 bilhões nas próximas décadas, e 100% do crescimento estará na Ásia e na África. A população da Europa está em declínio, a da América também. Já o consumo de café na China foi de mais de 6 milhões de sacas e ultrapassou o da Itália em 2025. Isso é um dado muito relevante, pelo tamanho da população chinesa. Tomar café está se tornando um hábito, uma cultura entre os jovens, que também gostam muito de laranja e de coco. Então, além do café convencional, as fábricas têm feito bebidas cafeinadas com estes ingredientes.
E: Com o Acordo Mercosul-União Europeia, o solúvel brasileiro passa a competir em pé de igualdade com outras origens?
MF: Vai levar um pouco de tempo, porque esses 9% vão sofrer um desagravo durante quatro anos, da ordem de 2,25% ao ano. Isso, depois de implementadas todas as regras, e de o acordo ter sido ratificado país a país. Depois disso, o Brasil estará em condições de igualdade. Mas sempre advogo que temos que ser mais agressivos, e começar a participar mais do mercado europeu. Temos ociosidade de produção, então, mesmo se as indústrias venderem com zero de margem, realizarão um bom negócio porque otimizarão as fábricas com produção total, reduzindo o custo por quilo produzido.
E: Existe alguma perspectiva de redução da tarifa dos Estados Unidos para o café solúvel brasileiro?
MF: Sim. O Vietnã está tarifado em 20%; o Brasil, em 50%. É uma diferença de 30%. O Cecafé tem dialogado com a Abics [Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel], com as instituições em Brasília, junto à própria NCA [National Coffee Association], nos Estados Unidos, e com os dois principais compradores de café solúvel americanos. Existe uma perspectiva, mas talvez demore mais do que a gente esperava por causa das questões geopolíticas.
E: Como você avalia o movimento das exportações brasileiras de cafés sustentáveis? A demanda global e a quantidade ofertada pelo Brasil vêm aumentando?
Sim, tem aumentado. O Brasil tem um Código Florestal rígido. Nossos cafés são extremamente sustentáveis, se concentram em pequenas propriedades, é um universo de produtores. Muitas vezes, para que sejam ratificados como sustentáveis, trazem uma certificação, como 4C, Rainforest, Fair Trade. O café sustentável não necessariamente será de extrema qualidade. Mas não existe café de qualidade ruim. Existe café que não se adequa ao hábito do consumidor.
Nos Estados Unidos há as cafeterias e o consumo no lar. Entre a população americana, há um percentual enorme de hispânicos. Esta população consome uma bebida não tão fina, mas nem por isso abre mão de uma certificação. O mesmo ocorre com a Argentina, que tem todas as variedades de café. Na Europa, onde temos uma participação de 44% do café importado, o Brasil entrega um percentual cada vez maior de cafés sustentáveis. É comum ter cafés ratificados por esses certificadores, com seus produtores constantemente dedicados a produzir cada vez mais cafés sustentáveis. A empresa onde trabalho, por exemplo, é pioneira em café e sustentabilidade no Espírito Santo. Desde o ano 2000, trabalhamos com a maior fabricante de café do Japão, a UCC [Ueshima Coffee Co.]. Nosso investimento em qualidade e sustentabilidade alcança mais do que a família e a propriedade. Onde tem café, o IDH é melhor. Onde tem café com sustentabilidade, o IDH e os índices socioambientais são ainda melhores, e isso coloca o produtor na vitrine nacional e na internacional.
E: Em 2025, as exportações de café do Brasil tiveram recorde em receita cambial, embora tenham registrado queda em volume. O que esperar para este ano?
No ano passado tivemos uma queda de 20% em volume e um aumento de 24% em receita. Nos últimos anos, o Brasil teve problemas climáticos. Em 2021, tivemos a geada mais forte desde 1994. Também registramos temperaturas muito altas. Em 2024, batemos recorde de exportação de conilon por causa de problemas no Vietnã e na Indonésia. Neste ano, as condições climáticas estão favoráveis, tivemos boas chuvas em janeiro, o que favorece o enchimento do grão. A safra de arábica deve ter uma recuperação, e a de canéfora deve se manter igual ou ser um pouco maior. Possivelmente, tenhamos uma correção na Bolsa de Nova York para níveis mais realistas, do ponto de vista histórico.
E: Como o café brasileiro pode expandir ainda mais as fronteiras?
MF: Não só o café, mas o agro deveria ter menos ideologia e mais praticidade. Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia que a pessoa tenha. Todos acordam de manhã, tomam seu café, falam de café. É isso que nos interessa. Precisamos também ser mais próximos da cultura, porque, assim, vamos nos aproximar dos elos, não só no Brasil, mas no mundo, que conversam entre si. O [publicitário] Nizan Guanaes faz críticas ao agro e ele tem razão. Quando você assiste a uma série colombiana na Netflix, vê propagandas do Juan Valdez, mas quando vê uma série brasileira, não vê Cafés do Brasil.
Existe uma pesquisa na Europa que mostra que a marca Cafés do Brasil é mais conhecida do que o próprio Brasil. Temos um desafio internacional. A Colômbia tem um olhar para o produto acabado e abriu uma loja em um shopping no Brasil – temos de aplaudi-los por isso. Segundo a liderança colombiana, o mercado brasileiro está no foco, e essa será a primeira de muitas lojas. O Brasil tem o produto acabado nas mãos de empresas, em sua maioria não brasileiras. Entendo que precisamos produzir aqui o produto final, porque geramos empregos, agregamos valor e exportamos produtos com rastreabilidade. Produtos com matéria-prima 100% brasileira ou com alguma outra no blend, mas produzidos no Brasil para agregar valor – e não produzidos no exterior, com mais de 50% de café brasileiro, para depois serem pagos a custos elevados pelos próprios brasileiros.
E: Quais os principais desafios do setor?
MF: Hoje, o Brasil tem um problema logístico sério. Há navios no porto do Vietnã que transportam, numa única viagem, toda a exportação de conilon do Brasil para o mundo em um ano. Veja o quão atrasados estamos. Nossa logística é deficitária da lavoura ao navio – precisamos de ferrovia, de portos. Na década de 1980, tínhamos um armazém em Bauru, e todo o café seguia por trem até o porto de Santos ou de Paranaguá [no Paraná]. Quarenta e cinco anos depois, nem sequer temos ferrovia – regredimos.
A boa notícia é o advento dos novos portos, principalmente o porto de Imetame, no Espírito Santo. Atualmente, Santos é o maior porto da América Latina, recebendo navios da ordem de 10 mil contêineres. O porto de Imetame e outros do parque logístico do Espírito Santo receberão os maiores navios do mundo, com até 25 mil contêineres. Isso vai ajudar o Brasil mas, obviamente, só o porto não basta. Precisamos de estrutura terrestre e, principalmente, de ferrovias, porque o consumo de café vai crescer nos próximos anos.
Outro desafio é tributário, juros altos, financeiro. Como captar dinheiro com nossas taxas de juros e gerar negócios futuros, se os mesmos futuros têm deságios, que chegam a 20% em dólar ao ano? Da parte do governo, [a solução é] intensificar as políticas econômicas para que não tenhamos uma despesa tão maior do que as receitas como tem acontecido, o que leva o Banco Central a manter taxas de juros altas. Na questão tributária, o mais importante é ter clareza de qual tributo está sendo pago, respeitando um limite de pagamento de tributos, porque a atividade do café precisa ser remuneradora.
Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.
























