Mercado

“Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia de cada um”, diz Márcio Ferreira, do Cecafé

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Cecafé, defende que o produto não tenha bandeiras ideológicas, mas se aproxime da cultura para expandir fronteiras, principalmente para a Ásia

Márcio Cândido Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e diretor-superintendente da Tristão, é pequeno em estatura, mas gigante na diplomacia. Em ano eleitoral, ele defende que não só o café, mas todo o agro, “tenha mais praticidade e menos ideologia” e se aproxime da cultura, que comunica o que fala alto ao ser humano independentemente da nacionalidade.

Brasiliense de nascimento e capixaba de coração, Ferreira se autointitula “alguém sem inimigos” e aproveita sua facilidade de relacionar-se para fazer pontes e abrir portas para o café brasileiro com a ajuda de sua equipe no Cecafé, “enxuta, mas de primeiríssima linha”.

Há quatro anos à frente da instituição, ele lidou com as quebras de safra, consequência da geada que afetou lavouras cafeeiras em 2021; as exportações recordes de canéfora em 2024 e o tarifaço imposto pelos EUA ao café brasileiro em 2025, que acabou dando um “empurrãozinho” para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia neste ano.

Nos últimos meses, visitou várias vezes a Ásia, continente em que o café tem conquistado mais adeptos a cada dia e que responderá pelo crescimento futuro da demanda pelo grão no mundo. Prova disso é a China, que já alcançou consumo de 6 milhões de sacas e superou a Itália, cujo volume está na casa de 5,5 milhões de sacas/ano. A seguir, a íntegra da entrevista.

Espresso: Você está prestes a completar meio século de carreira no setor de café. Como ingressou na área?

Márcio Ferreira: Comecei em 1977 no Grupo Tristão, empresa em que trabalho até hoje e que, no ano passado, completou 90 anos. Entrei como office boy, depois fui para área de exportação fazer serviços de desembaraço no porto. Em 1987, ingressei na área comercial, onde estou até hoje como diretor-superintendente.

E: Quando começou e como foi sua trajetória no Cecafé?

MF: Passei cerca de quatro anos como vice-presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) e, posteriormente, fui presidente da instituição, que é associada ao Cecafé e cobre a cafeicultura capixaba. Dali, fui indicado para ser o novo presidente do Cecafé no final de dezembro de 2022 e estou indo para o meu quarto ano. O Cecafé responde por 97% das exportações de café do Brasil para o mundo. Dentre os associados, temos as principais cooperativas, que atuam no comércio exterior e no mercado interno, as multinacionais e as empresas nacionais, como a Tristão. Um dos nossos objetivos é oferecer aos produtores a melhor remuneração possível. O Brasil repassa mais de 90% do valor FOB aos cafeicultores, enquanto outras origens estão na casa de 75%, e há aquelas que repassam menos de 50%.

E: Como a sua experiência e o peso institucional do Cecafé têm se traduzido nas negociações comerciais e defesa do café brasileiro mundo afora?

MF: Tem sido extremamente positivo, porque o Cecafé é uma instituição de prestígio no exterior. Em janeiro, nosso diretor-geral, Marcos Matos, esteve em Berlim a convite da Associação Alemã de Café para eventos e ações da indústria alemã. O Cecafé combina os conhecimentos técnicos e acadêmicos do nosso diretor-geral com o meu na parte comercial e de relacionamentos, o que facilita as negociações do Brasil, que – necessariamente – passam pelos clientes.

A nossa equipe é enxuta, mas de primeiríssima linha, com o Eduardo Heron, como diretor-técnico, e a Silvia Pizzol, como a diretora de sustentabilidade, nos dando instrumentos para trabalhar. Neste cenário de mudança na geopolítica, EUDR e outras demandas da Europa, o Cecafé tem sido proativo. É um trabalho intenso de relacionamentos com autoridades em âmbito municipal, estadual, federal e global. Estamos sempre em Brasília com os ministros, Presidência da República, Itamaraty. Ano passado, estive 30 dias na Ásia. Primeiro, na China a convite da Apex-Brasil. Depois, fui para Indonésia e Malásia, quando o presidente Lula com seus ministros se reuniu com o presidente Trump para tratar da questão das tarifas. Foi um encontro extremamente importante, com vários setores representados ali, e o Cecafé estava presente. [Depois dessa reunião, os EUA anunciaram o fim de boa parte das tarifas impostas a produtos brasileiros].

Quando surgiu a EUDR, muitos a encararam como protecionismo, mas temos que olhar as oportunidades. Eles alegam que o consumidor quer saber se a área de onde vem o café tem desmatamento. Ok, nós aplaudimos isso, mas requeremos que as embalagens finais reflitam a realidade, o que hoje não ocorre.

Numa loja no exterior, você pega uma embalagem de café em que está escrito [origem] Colômbia, mas quando você escaneia o QR Code, vê que 50% daquele café é brasileiro. Se existe uma EUDR, uma legislação que exige a rastreabilidade do café no talhão, então é de direito do Brasil exigir que a embalagem final ou a cafeteria tenha transparência e demonstre que aquele café é brasileiro.

E: E as tarifas de 50% impostas pelos EUA no ano passado?

MF: Há crises que são verdadeiros presentes. Essa crise fez ressaltar aos olhos do consumidor norte-americano a importância dos cafés do Brasil, porque embora a embalagem não necessariamente diga que os cafés são do Brasil, isso ficou nítido. Inclusive, eu e o Marcos demos entrevistas à rede norte-americana – citando várias características do café brasileiro, que são diferentes das dos demais. Quando você tira o café brasileiro do mercado e aplica uma tarifa de 50%, você automaticamente obriga os importadores a buscarem cafés em outras origens, que não têm quantidade. Aí, o café bateu um novo recorde de preço. Desde que começou a história da tarifa, eu dizia em Brasília: “o tempo corre a nosso favor”. Logo depois que a tarifa foi implantada, o mercado estava em 260 centavos de dólar por libra-peso e foi para 430 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York.

E: O tarifaço norte-americano criou o ambiente para a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia?

MF: Certamente, teve um empurrãozinho das tarifas que o governo americano vem aplicando sobre todos os países, mas a gente já vinha trabalhando no acordo há 25 anos. Estamos falando do segundo maior bloco, com um PIB de US$ 22 trilhões, abaixo somente dos Estados Unidos, com US$ 29 trilhões. Os EUA estão com uma postura unilateral, protecionista, que não conversa com o que a União Europeia e nós pretendemos [conversar] – isso é o multilateralismo. Os Estados Unidos é líder como importador de café no Brasil, temos uma relação muito boa e queremos permanecer assim. Mas a União Europeia participa com 44% de tudo o que o Brasil exporta de café, e o acordo abre um potencial enorme pra nós.

E: Você está falando de solúveis?

MF: Sim. Há mais de 20 anos, o Brasil investiu em fábricas de café solúvel, que agregam valor à matéria-prima, mas o produto vem sendo sobretaxado pela União Europeia, com um imposto de importação de 9%. É lamentável ter clientes que outrora compravam café solúvel e, hoje, compram café em grãos, porque a tarifa é proibitiva. Enquanto isso, a União Europeia fechou acordos bilaterais com Colômbia, México, Equador, Vietnã, Índia e Indonésia, que não têm esse imposto de importação sobre o solúvel. Com isso, o crescimento do parque industrial de café solúvel nesses países foi enorme.

O Vietnã ultrapassou o Brasil na capacidade de produção de café solúvel. Hoje, nosso parque industrial está com uma ociosidade de 20%, sem considerar a tarifa americana de 50% sobre o café solúvel brasileiro. Se ela permanecer, a ociosidade vai para 35%. Isso requer muito trabalho para buscar novos clientes, reconquistar o nosso espaço, principalmente na Europa. Se não fossem os 9% de imposto, a participação [brasileira de solúvel] na Europa seria, no mínimo, de 35%, mas, infelizmente, é de 17%. Às vezes, é mais barato mandar conilon em grão para o Vietnã, produzir o solúvel lá e exportar para a Europa. Hoje, é mais barato mandar café do Brasil para Equador, Colômbia ou México e, de lá, exportar para os EUA. Mas temos indústrias que fazem sacrifício para exportar para os EUA, absorvem parte da tarifa, para não perder clientes de sete, oito anos e, às vezes, de décadas.

E: O fato de o Vietnã estar com um parque industrial de café solúvel maior que o nosso é uma ameaça?

MF: É uma ameaça, se nós não fizermos o dever de casa. Mas assinamos o acordo Mercosul-União Europeia e temos importantíssimos compradores de café solúvel do Brasil, fora os Estados Unidos e a Europa. Estou falando da Ásia, onde o solúvel é tarifado de 20% a 48%. Estive com o governo brasileiro nos países asiáticos para negociações bilaterais e retirada desses impostos. Tanto a Europa quanto a Ásia estão na direção do multilateralismo. Isso abre um diálogo para o Brasil dizer: “está na hora de vocês tirarem as tarifas para o café solúvel”. E, eventualmente, o Brasil terá que receber produtos que não são produzidos aqui, ou – mesmo que sejam – que possam entrar num regime de cota sem aplicação de imposto.

E: O que você acha do aumento do consumo de café na China?

MF: O consumo está crescendo em toda a Ásia. Segundo estudos, a população mundial vai saltar de 8 bilhões para 10 bilhões nas próximas décadas, e 100% do crescimento estará na Ásia e na África. A população da Europa está em declínio, a da América também. Já o consumo de café na China foi de mais de 6 milhões de sacas e ultrapassou o da Itália em 2025. Isso é um dado muito relevante, pelo tamanho da população chinesa. Tomar café está se tornando um hábito, uma cultura entre os jovens, que também gostam muito de laranja e de coco. Então, além do café convencional, as fábricas têm feito bebidas cafeinadas com estes ingredientes.

E: Com o Acordo Mercosul-União Europeia, o solúvel brasileiro passa a competir em pé de igualdade com outras origens?

MF: Vai levar um pouco de tempo, porque esses 9% vão sofrer um desagravo durante quatro anos, da ordem de 2,25% ao ano. Isso, depois de implementadas todas as regras, e de o acordo ter sido ratificado país a país. Depois disso, o Brasil estará em condições de igualdade. Mas sempre advogo que temos que ser mais agressivos, e começar a participar mais do mercado europeu. Temos ociosidade de produção, então, mesmo se as indústrias venderem com zero de margem, realizarão um bom negócio porque otimizarão as fábricas com produção total, reduzindo o custo por quilo produzido.

E: Existe alguma perspectiva de redução da tarifa dos Estados Unidos para o café solúvel brasileiro?

MF: Sim. O Vietnã está tarifado em 20%; o Brasil, em 50%. É uma diferença de 30%. O Cecafé tem dialogado com a Abics [Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel], com as instituições em Brasília, junto à própria NCA [National Coffee Association], nos Estados Unidos, e com os dois principais compradores de café solúvel americanos. Existe uma perspectiva, mas talvez demore mais do que a gente esperava por causa das questões geopolíticas.

E: Como você avalia o movimento das exportações brasileiras de cafés sustentáveis? A demanda global e a quantidade ofertada pelo Brasil vêm aumentando?

Sim, tem aumentado. O Brasil tem um Código Florestal rígido. Nossos cafés são extremamente sustentáveis, se concentram em pequenas propriedades, é um universo de produtores. Muitas vezes, para que sejam ratificados como sustentáveis, trazem uma certificação, como 4C, Rainforest, Fair Trade. O café sustentável não necessariamente será de extrema qualidade. Mas não existe café de qualidade ruim. Existe café que não se adequa ao hábito do consumidor.

Nos Estados Unidos há as cafeterias e o consumo no lar. Entre a população americana, há um percentual enorme de hispânicos. Esta população consome uma bebida não tão fina, mas nem por isso abre mão de uma certificação. O mesmo ocorre com a Argentina, que tem todas as variedades de café. Na Europa, onde temos uma participação de 44% do café importado, o Brasil entrega um percentual cada vez maior de cafés sustentáveis. É comum ter cafés ratificados por esses certificadores, com seus produtores constantemente dedicados a produzir cada vez mais cafés sustentáveis. A empresa onde trabalho, por exemplo, é pioneira em café e sustentabilidade no Espírito Santo. Desde o ano 2000, trabalhamos com a maior fabricante de café do Japão, a UCC [Ueshima Coffee Co.]. Nosso investimento em qualidade e sustentabilidade alcança mais do que a família e a propriedade. Onde tem café, o IDH é melhor. Onde tem café com sustentabilidade, o IDH e os índices socioambientais são ainda melhores, e isso coloca o produtor na vitrine nacional e na internacional.

E: Em 2025, as exportações de café do Brasil tiveram recorde em receita cambial, embora tenham registrado queda em volume. O que esperar para este ano?

No ano passado tivemos uma queda de 20% em volume e um aumento de 24% em receita. Nos últimos anos, o Brasil teve problemas climáticos. Em 2021, tivemos a geada mais forte desde 1994. Também registramos temperaturas muito altas. Em 2024, batemos recorde de exportação de conilon por causa de problemas no Vietnã e na Indonésia. Neste ano, as condições climáticas estão favoráveis, tivemos boas chuvas em janeiro, o que favorece o enchimento do grão. A safra de arábica deve ter uma recuperação, e a de canéfora deve se manter igual ou ser um pouco maior. Possivelmente, tenhamos uma correção na Bolsa de Nova York para níveis mais realistas, do ponto de vista histórico.

E: Como o café brasileiro pode expandir ainda mais as fronteiras?

MF: Não só o café, mas o agro deveria ter menos ideologia e mais praticidade. Precisamos ser Cafés do Brasil, independentemente da ideologia que a pessoa tenha. Todos acordam de manhã, tomam seu café, falam de café. É isso que nos interessa. Precisamos também ser mais próximos da cultura, porque, assim, vamos nos aproximar dos elos, não só no Brasil, mas no mundo, que conversam entre si. O [publicitário] Nizan Guanaes faz críticas ao agro e ele tem razão. Quando você assiste a uma série colombiana na Netflix, vê propagandas do Juan Valdez, mas quando vê uma série brasileira, não vê Cafés do Brasil.

Existe uma pesquisa na Europa que mostra que a marca Cafés do Brasil é mais conhecida do que o próprio Brasil. Temos um desafio internacional. A Colômbia tem um olhar para o produto acabado e abriu uma loja em um shopping no Brasil – temos de aplaudi-los por isso. Segundo a liderança colombiana, o mercado brasileiro está no foco, e essa será a primeira de muitas lojas. O Brasil tem o produto acabado nas mãos de empresas, em sua maioria não brasileiras. Entendo que precisamos produzir aqui o produto final, porque geramos empregos, agregamos valor e exportamos produtos com rastreabilidade. Produtos com matéria-prima 100% brasileira ou com alguma outra no blend, mas produzidos no Brasil para agregar valor – e não produzidos no exterior, com mais de 50% de café brasileiro, para depois serem pagos a custos elevados pelos próprios brasileiros.

E: Quais os principais desafios do setor?

MF: Hoje, o Brasil tem um problema logístico sério. Há navios no porto do Vietnã que transportam, numa única viagem, toda a exportação de conilon do Brasil para o mundo em um ano. Veja o quão atrasados estamos. Nossa logística é deficitária da lavoura ao navio – precisamos de ferrovia, de portos. Na década de 1980, tínhamos um armazém em Bauru, e todo o café seguia por trem até o porto de Santos ou de Paranaguá [no Paraná]. Quarenta e cinco anos depois, nem sequer temos ferrovia – regredimos.

A boa notícia é o advento dos novos portos, principalmente o porto de Imetame, no Espírito Santo. Atualmente, Santos é o maior porto da América Latina, recebendo navios da ordem de 10 mil contêineres. O porto de Imetame e outros do parque logístico do Espírito Santo receberão os maiores navios do mundo, com até 25 mil contêineres. Isso vai ajudar o Brasil mas, obviamente, só o porto não basta. Precisamos de estrutura terrestre e, principalmente, de ferrovias, porque o consumo de café vai crescer nos próximos anos.

Outro desafio é tributário, juros altos, financeiro. Como captar dinheiro com nossas taxas de juros e gerar negócios futuros, se os mesmos futuros têm deságios, que chegam a 20% em dólar ao ano? Da parte do governo, [a solução é] intensificar as políticas econômicas para que não tenhamos uma despesa tão maior do que as receitas como tem acontecido, o que leva o Banco Central a manter taxas de juros altas. Na questão tributária, o mais importante é ter clareza de qual tributo está sendo pago, respeitando um limite de pagamento de tributos, porque a atividade do café precisa ser remuneradora.

Texto originalmente publicado na edição #91 (março, abril e maio de 2026) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Lívia Andrade • FOTO Agência Ophelia

Mercado

Degustação e bate-papo sobre cafés do Cerrado acontecem sábado (18) na Casa Hario (SP)

A iniciativa, que prestigia IGs brasileiras, trará produtores e cafés de outras regiões até o fim de 2026; jantar harmonizado com a bebida fecha o primeiro encontro

A Casa Hario lança, neste sábado (18), uma série de degustações e encontros mensais com produtores para celebrar as indicações geográficas brasileiras de café. A ação faz parte do projeto Cafés de Origem, criado por Katia Nassuno, idealizadora da Casa Hario, que busca conectar cafeicultores e seus territórios a consumidores por meio de provas da bebida e workshops. 

A cada mês, o espaço, que reúne loja, cafeteria, bar e restaurante no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, recebe um produtor e seus grãos. “Mais do que sediar ativações, atuamos como plataforma anfitriã e curadora de experiências, conectando origem e consumo de forma genuína”, diz Kátia. 

A região de estreia é o Cerrado Mineiro, primeira denominação de origem de cafés do país, representada pela Fazenda Três Meninas, do casal Marcelo e Ana Paula Urtado. Localizada em Monte Carmelo, a fazenda é referência mundial na produção de cafés regenerativos. No dia 18, das 10h às 12h, está programado um café da manhã com Ana Paula – acompanhada das filhas Malu e Fernanda, que, ao lado dela, são a razão do nome da propriedade – e degustação do arábica topázio, de processamento natural (100% ao sol), em três torras diferentes. 

“O Cerrado tem excelência em agricultura regenerativa para cafés, e quando o consumidor escolhe um café regenerativo, ele apoia a cadeia e incentiva a base produtora”, conta Ana Paula à Espresso

Ana Paula Urtado com suas filhas, Malu e Fernanda

Adepta há dez anos da prática, que restaura o solo e aumenta a biodiversidade, Ana Paula diz que a iniciativa é uma oportunidade de conversar sobre o tema com o público. “O conceito de qualidade em café evoluiu – já não é mais apenas como ele se apresenta na xícara, mas como ele foi produzido”, reforça ela. “Se você pode escolher um café bom com impacto positivo, por que não?”, provoca. 

O ingresso do encontro, com vagas limitadas, custa R$ 198 (mais taxas) no site Sympla.

O café da Fazenda 3 Meninas também está disponível a partir de sábado no cardápio da cafeteria, em sete métodos (como v60, sifão e surien), e será comercializado (em edição limitada) ao lado de mais dois representantes do Cerrado: um paraíso 2 natural do Guima Café, das fazendas São Lourenço (Patos de Minas) e Brasis (Varjão de Minas), no Alto Paranaíba – núcleo da produção cafeeira da D.O. –, e um novo mundo de fermentação induzida da Fazenda Tabatinga, em Indianópolis, de Alzira Mantovanelli.

Os cafés também entram no cardápio do jantar de 24 de abril (às 19h, por R$ 380). O menu, assinado pela cozinheira e cafeicultora Gabi Tropicana, à frente do restaurante Riacho Pequeno (Itu, SP), aposta numa cozinha caipira harmonizada com café e vinhos mineiros. Entre os pratos, arroz com requeijão moreno (queijo de corte, amarronzado e levemente adocicado, feito no fogão à lenha e típico de regiões como Vale do Mucuri), cupim prensado ao demi-glace de café, farofa e couve rasgada.

Até o fim do ano, a Casa Hario vai receber cafés e produtores das IGs Região do Pinhal (SP), Alta Mogiana (SP), Região Vulcânica (MG) e da Canastra (MG). As datas, a serem definidas, serão atualizadas no site da empresa e nas redes sociais.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Tão perto, tão longe: o café brasileiro e a América Latina

Por décadas, a cafeicultura brasileira manteve os olhos voltados para o Atlântico, de frente para o mar, como bem escreveu nosso colunista Gustavo Paiva em sua metáfora sobre nossa posição no mundo. Sempre orientados a exportar para Europa e Estados Unidos, deixamos a montanha — nossos vizinhos latino-americanos — em segundo plano.

Esta escolha fazia sentido quando o consumo interno da região era tímido e a lógica, apenas da escala, apontava para os mercados consolidados do Hemisfério Norte. Mas será que este paradigma permanece inabalável? Diante de um pano de fundo global em transformação — com cenário tarifário instável, novos arranjos geopolíticos redesenhando fluxos comerciais e a crescente percepção da máxima “não colocar todos os ovos na mesma cesta” —, talvez seja hora de perguntar: olhar para a América Latina ainda é apenas uma ideia simpática ou pode se tornar um movimento estratégico?

Os mercados da região continuam pequenos em termos absolutos. É preciso cuidado para não romantizar: enquanto a Europa concentra cerca de 30% do consumo mundial e países nórdicos chegam a 12 kg per capita por ano, o consumo da América Latina, com exceção do Brasil, ainda gira entre 1 e 3 kg. O consumo brasileiro está em 4,8 kg per capita, próximo dos Estados Unidos, mas em países como México (1,7 kg), Argentina (1,4 kg) e Chile (0,7 kg) ainda está em patamares modestos.

Mesmo assim, há sinais de dinamismo. A Colômbia evoluiu de 2,2 kg em 2019 para 3,08 kg per capita/ano em 2025. No Peru, o consumo interno está em cerca de 1,4 kg per capita/ano em 2025; o café solúvel no país segue dominante, concentrando 70 a 75% do montante, enquanto o moído já representa cerca de 20%. O mercado da América Latina tem uma taxa de crescimento entre 4% e 7,5% ao ano.

O ponto, portanto, é reconhecer que a América Latina também oferece caminhos de oportunidade. Os mercados vizinhos carregam vantagens competitivas claras: barreiras tarifárias menores, que reduzem custos de entrada; proximidade logística, que encurta prazos e barateia transporte; custos operacionais mais baixos, que aumentam a margem de competitividade; e, não menos importante, afinidade cultural, que facilita a construção de narrativas e marcas capazes de dialogar com os consumidores locais.

Essa proximidade não favorece apenas o comércio de café verde, mas abre também espaço para o café torrado e industrializado, com maior valor agregado e potencial de diferenciação para o consumidor.

Em Santiago, cafeterias de bairro já consolidam a presença do café especial; em Buenos Aires, o consumo per capita supera a média nacional, mesmo num país de tradição do mate; no Peru, cresce a disposição em pagar mais por qualidade. Essas mudanças mostram que a região pode se tornar um espaço estratégico para diversificação e construção de parcerias.

Mais do que exportar sacas ou pacotes de café, trata-se também de construir alianças. Como maior produtor do mundo, o Brasil tem um papel inescapável. Não é o caso apenas de aproveitar oportunidades, mas de liderar pelo exemplo. Fortalecer parcerias comerciais e colaborativas, trabalhar com países produtores em comércio justo e desenvolvimento econômico, assegurar que todos os agentes da cadeia sejam igualmente beneficiados: essa é a liderança que gera referência, confiança e estabilidade — e que projeta o Brasil tanto como fornecedor quanto articulador de um ecossistema.

No fim, a questão não é abandonar os grandes compradores do Hemisfério Norte, mas diversificar riscos, ampliar mercado e se posicionar. A região vizinha pode funcionar como um mercado de teste para marcas brasileiras, seja com cafés verdes ou com linhas de torrado e moído, em modelos mais próximos do consumidor final.

Oportunidades de posicionamento premium, parcerias de distribuição e novos canais tornam a América Latina um campo de negócio real e com escala crescente. E, ao mesmo tempo, o Brasil pode se posicionar como líder regional na agregação de valor, mostrando que não exporta apenas matéria-prima, mas também qualidade, sustentabilidade e inovação.

Texto originalmente publicado na edição #89 (setembro, outubro e novembro de 2025) da Revista Espresso. Para saber como assinar, clique aqui.

TEXTO Caio Alonso Fontes • FOTO Eduardo Nunes

Cafezal

Para IBGE, safra de café alcançará recorde de 65,1 milhões de sacas

Safra 2026 avança sobre a estimativa de março, com impulso dos canéforas e clima mais regular nas principais regiões produtoras

A produção brasileira de café de 2026 poderá bater recorde, com 65,1 milhões de sacas (60 kg), informa o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em relatório publicado nesta terça-feira (14).

A estimativa está 1,5% acima da previsão feita em março, especialmente pela expectativa quanto ao volume dos canéforas, de 21,1 milhões de sacas (4,7% maior do que a esperada em março), e 13,1% em relação a 2025. O IBGE também vê crescimento na produção de café arábica, de 44,0 milhões de sacas – 0,1% a mais em relação a março e 20,3% em relação a 2025.

Segundo o órgão, a expectativa positiva desta safra deve-se a problemas climáticos apenas “pontuais” nas principais regiões produtoras, diferentemente do que aconteceu no ano passado. 

A colheita de canéforas começa neste mês, e a de arábicas, em maio. 

TEXTO Fonte: Reuters (com edição da Espresso)

Mercado

Exportações de café caem 8% em março, para 3 milhões de sacas

Entressafra, retenção de vendas pelos produtores e gargalos logísticos reduzem embarques; receita recua mais que volume

Os embarques brasileiros de café somaram 3,04 milhões de sacas (60 kg) em março, com receita de US$ 1,125 bilhão, informa o relatório estatístico mensal do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), divulgado nesta segunda-feira (13). Em comparação a março de 2025, houve queda de 7,8% em volume e de 15,1% em valor.

Para o presidente da entidade, Márcio Ferreira, o recuo reflete a combinação de fatores sazonais e estruturais, como o período de entressafra, que reduz a oferta enquanto a nova colheita começa a chegar ao mercado, e a situação financeira dos produtores. “Os cafeicultores se encontram capitalizados e analisando os melhores momentos para negociar seus cafés remanescentes, assim, há menor disponibilidade do produto.” Há ainda gargalos estruturais nos portos, que limitam a capacidade de embarque, e um cenário externo de incertezas nas relações comerciais com os EUA e de tensões no Oriente Médio, que encarecem as operações dos importadores. 

No acumulado do ano-safra 2025/26 (julho a março), o Brasil exportou 29,093 milhões de sacas – queda de 21,2% ante o mesmo intervalo anterior–, mas com alta de 2,9% na receita, de US$ 11,431 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, os embarques somaram 8,465 milhões de sacas (-21,2%), com receita de US$ 3,371 bilhões (-13,6%).

A Alemanha liderou as compras no primeiro trimestre, com 1,192 milhão de sacas (-15,6%), seguida pelos EUA, com 936,6 mil (-48,3%). Itália (885,2 mil, +10,2%), Bélgica (527,5 mil, +4,5%) e Japão (440 mil, -35%) completam o ranking dos principais destinos do café brasileiro no período.

O arábica foi o principal produto exportado no primeiro trimestre, com 6,712 milhões de sacas (79,3% do total embarcado), embora em queda de 25,8% na comparação anual. Já os canéforas (conilons e robustas) somaram 780,9 mil sacas, com alta de 11% e participação de 9,2%, enquanto o segmento de solúvel alcançou 963,2 mil sacas (-1,5%), respondendo por 11,4% dos embarques.

O relatório completo das exportações de café do Brasil, com os dados de março de 2026, está disponível no site do Cecafé.

TEXTO Redação

Barista

Baristas da Ásia dominam o Mundial de Latte Art, em San Diego

Taiwan levou o troféu e Brasil, representado por Eduardo Olímpio, da Naveia, ficou em 15º lugar 

O painel final do World Latte Art Championship, realizado entre 10 e 12 de abril na World of Coffee San Diego, foi 100% asiático — com baristas do Leste e Sudeste do continente ocupando as seis primeiras posições. O título ficou com Bala-Shao Sing Lin, da UCC Taiwan, enquanto o brasileiro Eduardo Olímpio, da Naveia, terminou em 15º lugar.

Shao Sing Lin já havia conquistado o 3º lugar no mundial em 2023. Ele representa a UCC Taiwan, braço local da japonesa UCC Ueshima Coffee, que atua desde os anos 1980 na torrefação, industrialização e operação de cafeterias, com filiais em mais de 20 países. 

Na final, o campeão taiwanês superou Jacky Chang, da Afloat Coffee Roasters, da Malásia, que ficou em segundo lugar, seguido de Zhang Yuanyi (Shanghai Niu Niu Coffee, China), Banc Sarawut (CP Miji, Tailândia), Jay Kim (Coffee Monster Academy, Coreia do Sul) e Tatsuya Ishibashi (Connect Coffee, Japão).

O campeonato avalia desenhos feitos com leite vaporizado no café, com técnicas que vão do free pour a padrões elaborados, exigindo precisão, repetibilidade e execução estética sob pressão.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafeteria & Afins

O Segredo da Felicidade – São Caetano do Sul (SP)

“Não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito”, escreveu o filósofo Sêneca em seu livro Sobre a Brevidade da Vida. Segundo o pai do estoicismo, as pessoas passam a vida ocupadas demais para viver.

Hoje, sentar para tomar um café no meio da tarde, sem precisar pensar nas demandas da vida moderna por alguns minutos, é um verdadeiro luxo. Mas quando essa xícara tem notas de chá verde, damasco e laranja, a experiência é quase como se o relógio parasse e pudéssemos, finalmente, sentir o dia.

Foi essa a sensação que tivemos em um sábado escaldante pré-feriado de Páscoa, quando nosso time foi até a cafeteria O Segredo da Felicidade, localizada no Centro de São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo. O lugar é discreto, com fachada de vidro, azulejo branco e pintura na cor preta, quase que passando despercebido entre os comércios da rua. 

Entramos e escolhemos um local confortável para sentar: um sofá antigo, vintage, desses que encontramos em casa de avó. À nossa frente, uma mesa de centro em madeira, onde uma planta de café repousa sobre ela. Ao nosso lado, uma estante com uma chaleira que abriga uma planta decora o móvel, e duas poltronas retrô nos convidam a desacelerar. O galpão anexo que escolhemos tem um mix de mobília vintage com equipamentos modernos. Com uma música ao fundo em volume agradável, o ambiente, calmo, é perfeito para conversar e relaxar. 

Logo fomos recebidos pelo atendente que nos entregou o cardápio. Escolhemos um coado na v60 com grãos do produtor Luiz Paulo Pereira Filho, da fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG), de processamento lavado. Para amenizar o calor, um iced matcha, feito com bebida de aveia, fava de baunilha e muito gelo.

Já para matar a fome, pedimos um queijo quente repaginado, chamado de Cebola Caramelizada. Essa versão é feita com pão de fermentação natural e leva american cheese derretido e cebola caramelizada. Escolhemos também um favorito da casa: o sanduíche de copa lombo maturada, mussarela artesanal, rúcula, tomates confitados e pesto de manjericão. Nenhum dos pratos demorou para chegar, o que foi um alívio para a nossa expectativa em revisitar o local mais uma vez.

Sanduíche de copa lombo, queijo quente, brownie de chocolate, café filtrado na v60 e iced matcha

O café do Luiz Paulo estava bem extraído. De sabor suave, com notas de chá verde, damasco e laranja, é uma bebida confortável e fácil de beber. A cafeteria oferece os coados em tamanho M e G. Escolhemos a opção G — estava tão agradável que, ainda assim, poderíamos ter bebido mais.

O queijo quente que pegamos era equilibrado. A cremosidade do american cheese com a doçura da cebola caramelizada são como um abraço longo e apertado, daqueles que você não quer que acabe. O sanduíche de copa lombo, refrescante e crocante, preenchia a boca. Apesar de conter ingredientes marcantes como copa lombo, manjericão e mussarela, tudo estava perfeitamente dosado, nada enjoativo. Ambas as opções sustentam bem até os mais esfomeados. 

De sobremesa, pedimos um brownie de chocolate e uma fatia de banana bread com gelato de doce de leite. O primeiro era exatamente como deveria ser: com crosta crocante por fora e molhadinho por dentro. Um clássico que funciona. Já o segundo é quem realmente se destacou. O banana bread, aquecido, tem pingos de chocolate e recebe uma generosa bola de gelato de doce de leite com amêndoas laminadas. Não é doce excessivo, mas sim um alívio refrescante. Os dois combinados formam uma experiência deliciosa, onde se sente as especiarias e o chocolate do bolo, a cremosidade de um gelato de qualidade e por último, o crocante das amêndoas. Pegar apenas um foi nosso grande erro. 

Banana bread com gelato de doce de leite e amêndoas laminadas

Para finalizar nossa visita, pedimos um espresso. A casa possui três opções de grãos para este tipo de bebida. Escolhemos o catuaí amarelo da produtora Natália, de São João Del Rei (MG), cujo sensorial era descrito como amêndoas, avelã e frutas amarelas. Na xícara, acreditamos que a bebida poderia ser um pouco mais curta para manter a complexidade dos sabores. A impressão que ficou é que estava diluída além do necessário, mas nada que comprometa a experiência. 

Em menos de duas horas dentro d’O Segredo da Felicidade, sentimos o tempo parar. Mesmo com todas as mesas ocupadas, a sensação era de que encontramos um oásis de tranquilidade no agito da cidade. 

Nossa conta: R$ R$ 148,80 (com taxa de serviço)
Sanduíche de copa lombo – R$ 31,09
Queijo quente – R$ 24,90
Banana bread com gelato – R$ 22,90
Brownie de chocolate – R$ 10,90
Coado na v60 (tamanho G) – R$ 16,90
Iced matcha – R$ 19,90
Espresso simples – R$ 7,90

A Espresso visitou a casa anonimamente e pagou a conta.

Informações sobre a Cafeteria

Endereço Rua Santa Rosa, 340
Bairro Santa Paula
Cidade São Caetano do Sul
Estado São Paulo
Website http://www.instagram.com/osegredodafelicidade
Horário de Atendimento De terça a sexta, das 9h às 19h; sábado, das 9h às 17h; e domingo, das 9h às 13h
TEXTO Equipe Espresso • FOTO Equipe Espresso

Barista

World of Coffee começa nesta sexta (10) com brasileiro no Mundial de Latte Art

A cidade de San Diego, na Califórnia (EUA), recebe a World of Coffee nesta semana, de sexta (10) a domingo (12). Profissionais, empresas e entusiastas de diversos países reúnem-se em um dos principais encontros globais da cadeia do café. Além de lançamentos, experiências e debates sobre tendências do setor, o evento também concentra algumas das competições mais aguardadas do calendário internacional.

Entre os destaques da programação está o Campeonato Mundial de Latte Art, que coloca frente a frente baristas de diferentes nacionalidades em provas que exigem domínio técnico, consistência e criatividade na execução de desenhos com leite vaporizado. 

Eduardo Olímpio, campeão brasileiro de Latte Art

Representando o Brasil, o barista de Curitiba (PR) Eduardo Olímpio, atual campeão brasileiro, chega ao campeonato levando consigo a responsabilidade e a expectativa de repetir bons resultados no cenário internacional. 

“Eu tô muito feliz de ter, mais uma vez, a oportunidade de representar o Brasil”, disse Olímpio à Espresso. O barista, que participa pela terceira vez do mundial da categoria, contou que seu preparo foi intenso e desafiador, mas também muito especial. “Agora é dar o meu melhor e representar o Brasil da forma que ele merece. E espero que seja uma experiência leve, bonita e que todo mundo possa sentir isso também”.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

Cafezal

Cafeicultor brasileiro busca quase US$ 20 mil por saca de raro café eugenioides

Luiz Paulo Dias Pereira Filho, produtor da fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG)

Por Oliver Griffin, da Reuters (com edição de Gabriela Kaneto, da Espresso)

Luiz Paulo Dias Pereira Filho, quarta geração de fazendeiros, disse que está aumentando as vendas da única plantação brasileira do raro café eugenioides (Coffea eugenioides), um ancestral da planta arábica, com o objetivo de obter até 50 vezes o preço atual do arábica, de quase US$ 400 a saca.

Produtor da fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas (MG), ele pretende vender 10 sacas padronizadas de 60 kg de eugenioides por R$ 1 milhão. “É um café com muita doçura, de corpo aveludado, cítrico e floral acima da média”, diz Pereira à Espresso sobre a espécie rara. 

Historicamente, ele tem vendido sacas de eugenioides para clientes internacionais, como Taiwan, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e França. No ano passado, foram comercializadas três sacas por R$ 90 mil reais (US$ 17.148) cada.

Lavoura de eugenioides

As vendas ressaltam o apetite por cafés especiais de nicho, com variedades e espécies pouco conhecidas, mas que resultam em experiências diferentes na xícara. “O interesse pelo eugenioides agora me parece muito semelhante ao interesse pela variedade gesha no início dos anos 2000”, diz Kim Ionescu, diretor de desenvolvimento de estratégia da Specialty Coffee Association (SCA), destacando a escassez e o sabor único que o tornam um produto de luxo.

Sensível ao clima e de difícil cultivo, as plantas de eugenioides têm baixa produtividade. “É uma variedade extremamente sensível, especialmente em relação a doenças. Por isso, exige um nível de cuidado significativamente maior, cerca de dez vezes superior ao necessário para cultivares de café arábica já melhoradas geneticamente no Brasil”, afirma Pereira, que espera que cada um de seus cinco hectares plantados com a espécie produza apenas duas sacas cada – menos de um décimo do rendimento médio do arábica. 

Lavoura de eugenioides

Ele comenta que conheceu apenas algumas outras fazendas no mundo que cultivam eugenioides comercialmente, uma delas foi a Fazenda Imaculada, na Colômbia, onde ele ganhou as sementes que iniciaram sua produção em solo brasileiro. “Após trazer as sementes da Colômbia, em 2017, iniciei um processo contínuo de seleção ao longo dos anos”, destaca. 

Hoje, o banco genético de Pereira é composto não apenas pelas plantas de origem colombiana, mas também por materiais já adaptados e melhorados no Brasil. A comercialização dos lotes é feita por meio da CarmoCoffees, empresa de exportação sediada também em Carmo de Minas. 

TEXTO Oliver Griffin, da Reuters (com edição de Gabriela Kaneto, da Espresso) • FOTO Divulgação

Mercado

Le Paris Café Festival começa dia 11 e antecipa clima para evento em São Paulo

O Le Paris Café Festival começa no próximo dia 11 e segue até o dia 13, reunindo torrefadores, baristas, especialistas e amantes do café na capital francesa. O evento é um dos principais do calendário europeu e combina degustações, experiências imersivas, lançamentos de marcas e uma programação voltada tanto para o público profissional quanto para consumidores finais.

Ao longo dos três dias, o festival destaca tendências do mercado, inovação em métodos de preparo e a crescente valorização dos cafés especiais, além de promover conexões entre diferentes elos da cadeia produtiva. A proposta é aproximar o café de qualidade do grande público, em um ambiente que mistura conteúdo, entretenimento e cultura.

No Brasil, a 5ª edição do São Paulo Coffee Festival já está marcada para acontecer entre os dias 26 e 28 de junho, na Bienal do Ibirapuera, na capital paulista. Considerado um dos principais eventos do setor no país, o festival reúne cafeterias, torrefações e marcas em uma programação que inclui degustações, workshops, bate-papos e atrações culturais. Os ingressos já estão à venda.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação
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