que artigo cirúrgico, Lety!! me lembro da minha adolescência em que eu tinha uma lista de coisas que precisava fazer para parecer mais feminina e ser menos desprezada na escola (coisa que as colegas brancas sequer tinham que pensar). louco que a gente enquanto preta fica suscetível a aceitar todas as violências para ter esse tipo de validação (e isso acontece com todos os corpos marginais). é um pouco engraçado ver a "performance" sendo hypada no debate online como se fosse um comportamento específico, homogêneo e fruto de um único fenômeno. aquela coisa, eles estão indo com a farinha enquanto nós já voltamos com o bolo.
Obrigada pelo elogio, Bianca! Isso vindo de ti é uma honra sempre bem-vinda, cê sabe.
Eu também tinha essa lista e arrisco dizer que algumas orientações ainda me assombram no dia a dia; nunca estamos livres dessa performance terrível, né? Como se não fosse suficiente exigirem um comportamento de nós, precisamos, ainda por cima, respeitar as coisas que estão desde sempre sendo aceitas e acostumadas como lei (sempre acabarei voltando para o argumento dos ciclos viciosos que gerações transmitem de uma para a outra ops).
Queria ter pensado nesse ditado enquanto escrevia o texto, porque é exatamente isso: enquanto estão se fardando com o peso de nunca receber a aceitação específica, nós cantamos essa pedra logo no fundamental ao sentir a diferenciação que nossas ações recebem...
(vou começar desculpando pelo tamanho do comentário, me envolvo demais lendo os textos)
tenho pensado recentemente que Sim, é totalmente esquisito isso de falar que certas coisas são "coisas de branco" e não deveríamos gostar (até porque raramente existe algo feito que não tenha surgido de mãos não brancas/não tenha grandes profissionais e influências racializadas), MAS o problema principal ainda é ser negra demais. mesmo sendo cheia de leitura e consciente, ainda sinto e cedo à pressão de não ser Negras Demais (na leitura dos outros Não Ser Tão Erudita).
eu leio porque gosto, leio principalmente porque cada vez mais tenho lido menos homens/mulheres brancas como se fossem a única opção, mas percebo que ainda há parte de mim que demonstra meu gosto por leitura porque ainda busca ser vista como igual. tipo, "faço essa coisa que vocês vêem como unicamente de vocês". meu top5 do spotify é iendrick, sza, doechii e duquesa mas é TAMBÉM radiohead. tá vendo como eu também sei das suas coisas? como não sou uma identitária?
fico pensando, sei que tem gente que duvidaria que sou tão fã de rock quanto sou (diria que é performance, porque é Claro que uma pessoa como eu não teria interesse genuíno nisso), mas é igualmente cruel que eu sinta que não possa simplesmente gostar do que eu gosto (músicas negras) porque isso também seria uma performance (como se a única razão de ser consumida pela arte negra fosse "performar" uma militância, "performar" uma identidade). parece que nada é certo se for a gente fazendo/querendo. quando a gente percebe isso, por mais doloroso que seja, para de se torturar pra fazer "o certo" ou pelo menos se esforça pra isso.
(Primeiramente, não se desculpe jamais pelos comentários grandes porque esses são meus favoritos! Toda pessoa que escreve quer ser lido dessa forma, com troca ❤️)
Agora, concordo plenamente contigo. Além de nunca conseguirmos fugir de algum tipo de performance – porque esse comportamento automático já nos insere nos espaços como forma de validação –, ainda sofremos com a possibilidade de ser "negra demais" já que essa chance nunca é zero e não há coisa pior do que ser a "neguinha", né?
Honestamente, tenho trabalhado em mim uma aceitação da expectativa quebrada do outro e tem ajudado; as pessoas nunca esperam mais do que seu próprio (pré)conceito de nós, então não vai dar para viver na régua do outro sem decepcionar alguém, ainda mais quando já sofremos com a nossa própria repreenda por ser mais ou menos.
E outra, não são as pessoas negras que ocupam esses espaços de inspiração, não é? Tu falou sobre gostar de rock enquanto curte outros gêneros com maior presença negra e eu pensei em mim com cantoras pop (como Taylor e Sabrina) que gosto muito, mas não "são pra nós"... Não só esperam que fujamos de experiências que qualquer outra pessoa pode ter como não incentivam os espaços que esperam que a gente esteja; ao mesmo tempo que uns curtem certas musicas por conta da história, é difícil ouvir mais de 4 pessoas negras de um só gênero musical que estejam com ouvintes o suficiente a ponto de serem recomendadas; aí, no fim, acabamos voltando para esse lugar de performance, já que impedem a ascensão de artistas negros e reclamam de pessoas negras não escutarem os seus – tudo se baseando na forma como esperam que o outro aja.
Tudo nesse assunto tem muita camada, né? A gente acaba de passar por um obstáculo e logo vem outro.
Muito obrigada pela sua leitura e comentário, Sami! Fico extremamente feliz de saber que alcancei você ao ponto de te fazer pensar nessas outras correntes que vivemos ao longo da vida como uma pessoa, e mulher, negra. ❤️🌟
Lety, obrigada por traduzir e transmitir pra nós, de forma tão perspicaz e autêntica, as suas reflexões, sentimentos e vivências! Eu não tinha entendido completamente o filme Moonlight e tudo o que vc escreveu me abriu muito a mente! Me fez pensar que além da performance tbm tem a exposição, as pessoas estão constantemente te olhando, julgando e sendo invasivas, além de preconceituosas. Então, as pessoas brancas estão constantemente perseguindo os outros, usufruindo e abusando do seu poder de ditar o certo/errado, mas que na verdade é uma grande violência, que destrói toda a possibilidade de humanidade, paz e liberdade, devido a falta de responsabilidade, compaixão e coletividade. Mas a grande verdade é que as pessoas brancas tbm estão fazendo mal pra si mesmas, colocando o poder acima de outros valores, que realmente nos dão um sentido maior e melhor pra vida.
Primeiramente, eu que te agradeço! Muito obrigada mesmo por ler e trazer seu entendimento, Renata. Fico me sentindo de dever cumprido com, pelo menos, uma pessoa como você que tenha gostado dessa forma 🫂.
Moonlight realmente pode ser difícil de entender em primeira vista, mas quanto mais você pensa, mais entende as implicações da performance, do racismo estrutural, da homofobia e da misoginia na nossa sociedade (os símbolos de masculinidade máxima jamais podem se aproximar de signos femininos ou inferiores, né?).
Infelizmente, você falou tudo quando escreveu que pessoas brancas também fazem mal a si mesmas; é um ciclo interminável em que cobram do outro enquanto podam a si mesmas em nome de algo ???. E é interessante observar isso, porque estão protegidos por um teto de vidro que, mesmo sofrendo com as próprias repressões, continuam marchando em rumo ao inconsciente do que é certo e errado; acaba que estamos todos presos nessa prisão.
Imagina Lety, é um grande prazer pra mim ler e aprender. Que incrível te conhecer aqui no Substack!
Concordo! Moonlight é um filme extremamente sensível, os personagens, os amores, a família e a história de vida do protagonista me arrebataram! E não tem nem como tirar as implicacões e reflexões políticas, porque foram por elas também que o filme foi feito. Pra mim, esse é (ou deveria sempre ser) o objetivo do cinema.
Sim, é um teto de vidro e uma prisão. É absurdo o tanto de negação da realidade! E, ao mesmo tempo, uma ficcão de sua própria realidade e vida, tão tão pequena que só cabe você mesmo, que ainda deve PARECER perfeita, mas que no final adoece. Uma grande loucura. E com certeza, isso tbm vem desde a desconexão do homem com a Natureza, para então explorar a própria espécie. 😵💫 E quando vc falou marchar, eu lembrei do "Ordem e Progresso", uma promessa de futuro inóspito e inconcebivel! 😤😤🤬🤬🤬
Gosto muito de ilustrar essa ideia de progresso social quando, claramente, estamos longe de viver em harmonia conosco e com o outro... Ainda que de alguma forma, esse seja o objetivo inicial, né? Nos prender em um sistema que proporciona todas as ideias, recursos e exigências que precisamos; tudo é incentivado ao extremo para nos mantes em competição com o outro, é inevitável. 🌟
que artigo cirúrgico, Lety!! me lembro da minha adolescência em que eu tinha uma lista de coisas que precisava fazer para parecer mais feminina e ser menos desprezada na escola (coisa que as colegas brancas sequer tinham que pensar). louco que a gente enquanto preta fica suscetível a aceitar todas as violências para ter esse tipo de validação (e isso acontece com todos os corpos marginais). é um pouco engraçado ver a "performance" sendo hypada no debate online como se fosse um comportamento específico, homogêneo e fruto de um único fenômeno. aquela coisa, eles estão indo com a farinha enquanto nós já voltamos com o bolo.
Obrigada pelo elogio, Bianca! Isso vindo de ti é uma honra sempre bem-vinda, cê sabe.
Eu também tinha essa lista e arrisco dizer que algumas orientações ainda me assombram no dia a dia; nunca estamos livres dessa performance terrível, né? Como se não fosse suficiente exigirem um comportamento de nós, precisamos, ainda por cima, respeitar as coisas que estão desde sempre sendo aceitas e acostumadas como lei (sempre acabarei voltando para o argumento dos ciclos viciosos que gerações transmitem de uma para a outra ops).
Queria ter pensado nesse ditado enquanto escrevia o texto, porque é exatamente isso: enquanto estão se fardando com o peso de nunca receber a aceitação específica, nós cantamos essa pedra logo no fundamental ao sentir a diferenciação que nossas ações recebem...
(vou começar desculpando pelo tamanho do comentário, me envolvo demais lendo os textos)
tenho pensado recentemente que Sim, é totalmente esquisito isso de falar que certas coisas são "coisas de branco" e não deveríamos gostar (até porque raramente existe algo feito que não tenha surgido de mãos não brancas/não tenha grandes profissionais e influências racializadas), MAS o problema principal ainda é ser negra demais. mesmo sendo cheia de leitura e consciente, ainda sinto e cedo à pressão de não ser Negras Demais (na leitura dos outros Não Ser Tão Erudita).
eu leio porque gosto, leio principalmente porque cada vez mais tenho lido menos homens/mulheres brancas como se fossem a única opção, mas percebo que ainda há parte de mim que demonstra meu gosto por leitura porque ainda busca ser vista como igual. tipo, "faço essa coisa que vocês vêem como unicamente de vocês". meu top5 do spotify é iendrick, sza, doechii e duquesa mas é TAMBÉM radiohead. tá vendo como eu também sei das suas coisas? como não sou uma identitária?
fico pensando, sei que tem gente que duvidaria que sou tão fã de rock quanto sou (diria que é performance, porque é Claro que uma pessoa como eu não teria interesse genuíno nisso), mas é igualmente cruel que eu sinta que não possa simplesmente gostar do que eu gosto (músicas negras) porque isso também seria uma performance (como se a única razão de ser consumida pela arte negra fosse "performar" uma militância, "performar" uma identidade). parece que nada é certo se for a gente fazendo/querendo. quando a gente percebe isso, por mais doloroso que seja, para de se torturar pra fazer "o certo" ou pelo menos se esforça pra isso.
(Primeiramente, não se desculpe jamais pelos comentários grandes porque esses são meus favoritos! Toda pessoa que escreve quer ser lido dessa forma, com troca ❤️)
Agora, concordo plenamente contigo. Além de nunca conseguirmos fugir de algum tipo de performance – porque esse comportamento automático já nos insere nos espaços como forma de validação –, ainda sofremos com a possibilidade de ser "negra demais" já que essa chance nunca é zero e não há coisa pior do que ser a "neguinha", né?
Honestamente, tenho trabalhado em mim uma aceitação da expectativa quebrada do outro e tem ajudado; as pessoas nunca esperam mais do que seu próprio (pré)conceito de nós, então não vai dar para viver na régua do outro sem decepcionar alguém, ainda mais quando já sofremos com a nossa própria repreenda por ser mais ou menos.
E outra, não são as pessoas negras que ocupam esses espaços de inspiração, não é? Tu falou sobre gostar de rock enquanto curte outros gêneros com maior presença negra e eu pensei em mim com cantoras pop (como Taylor e Sabrina) que gosto muito, mas não "são pra nós"... Não só esperam que fujamos de experiências que qualquer outra pessoa pode ter como não incentivam os espaços que esperam que a gente esteja; ao mesmo tempo que uns curtem certas musicas por conta da história, é difícil ouvir mais de 4 pessoas negras de um só gênero musical que estejam com ouvintes o suficiente a ponto de serem recomendadas; aí, no fim, acabamos voltando para esse lugar de performance, já que impedem a ascensão de artistas negros e reclamam de pessoas negras não escutarem os seus – tudo se baseando na forma como esperam que o outro aja.
Tudo nesse assunto tem muita camada, né? A gente acaba de passar por um obstáculo e logo vem outro.
Muito obrigada pela sua leitura e comentário, Sami! Fico extremamente feliz de saber que alcancei você ao ponto de te fazer pensar nessas outras correntes que vivemos ao longo da vida como uma pessoa, e mulher, negra. ❤️🌟
Lety, obrigada por traduzir e transmitir pra nós, de forma tão perspicaz e autêntica, as suas reflexões, sentimentos e vivências! Eu não tinha entendido completamente o filme Moonlight e tudo o que vc escreveu me abriu muito a mente! Me fez pensar que além da performance tbm tem a exposição, as pessoas estão constantemente te olhando, julgando e sendo invasivas, além de preconceituosas. Então, as pessoas brancas estão constantemente perseguindo os outros, usufruindo e abusando do seu poder de ditar o certo/errado, mas que na verdade é uma grande violência, que destrói toda a possibilidade de humanidade, paz e liberdade, devido a falta de responsabilidade, compaixão e coletividade. Mas a grande verdade é que as pessoas brancas tbm estão fazendo mal pra si mesmas, colocando o poder acima de outros valores, que realmente nos dão um sentido maior e melhor pra vida.
Primeiramente, eu que te agradeço! Muito obrigada mesmo por ler e trazer seu entendimento, Renata. Fico me sentindo de dever cumprido com, pelo menos, uma pessoa como você que tenha gostado dessa forma 🫂.
Moonlight realmente pode ser difícil de entender em primeira vista, mas quanto mais você pensa, mais entende as implicações da performance, do racismo estrutural, da homofobia e da misoginia na nossa sociedade (os símbolos de masculinidade máxima jamais podem se aproximar de signos femininos ou inferiores, né?).
Infelizmente, você falou tudo quando escreveu que pessoas brancas também fazem mal a si mesmas; é um ciclo interminável em que cobram do outro enquanto podam a si mesmas em nome de algo ???. E é interessante observar isso, porque estão protegidos por um teto de vidro que, mesmo sofrendo com as próprias repressões, continuam marchando em rumo ao inconsciente do que é certo e errado; acaba que estamos todos presos nessa prisão.
Novamente, obrigada pelo seu comentário! 💓
Imagina Lety, é um grande prazer pra mim ler e aprender. Que incrível te conhecer aqui no Substack!
Concordo! Moonlight é um filme extremamente sensível, os personagens, os amores, a família e a história de vida do protagonista me arrebataram! E não tem nem como tirar as implicacões e reflexões políticas, porque foram por elas também que o filme foi feito. Pra mim, esse é (ou deveria sempre ser) o objetivo do cinema.
Sim, é um teto de vidro e uma prisão. É absurdo o tanto de negação da realidade! E, ao mesmo tempo, uma ficcão de sua própria realidade e vida, tão tão pequena que só cabe você mesmo, que ainda deve PARECER perfeita, mas que no final adoece. Uma grande loucura. E com certeza, isso tbm vem desde a desconexão do homem com a Natureza, para então explorar a própria espécie. 😵💫 E quando vc falou marchar, eu lembrei do "Ordem e Progresso", uma promessa de futuro inóspito e inconcebivel! 😤😤🤬🤬🤬
Idem, querida!
Gosto muito de ilustrar essa ideia de progresso social quando, claramente, estamos longe de viver em harmonia conosco e com o outro... Ainda que de alguma forma, esse seja o objetivo inicial, né? Nos prender em um sistema que proporciona todas as ideias, recursos e exigências que precisamos; tudo é incentivado ao extremo para nos mantes em competição com o outro, é inevitável. 🌟