a perspectiva da performance para uma pessoa negra
polvos e seus privilégios
O ato de performar não é mais exclusivo de artistas em seus palcos, estantes e museus.
Dividiu-se no consciente e no inconsciente do comportamento no qual podemos escolher exaltar aspectos reais em nossos gostos, controlando até onde é performance e naturalidade, ou replicamos sem questionar o que todo mundo parece estar consumindo e, com isso, ganhando algum privilégio social.
Ela sempre existiu, porém, além de a nomearmos, agora há também uma ideia de acessibilidade dos meios para alcançar o que, com o tempo, passamos a entender como necessidade além da pressão. De repente, tornou-se natural e exigido das pessoas, principalmente jovens, para com elas mesmas, que uma garrafa d’água cumpra mais do que a saciedade da sede e um chaveiro transforme o dinheiro em futilidade.
Acredito que, em 2025, essa palavra bonita saturou por não dosarmos o quanto reconhecemos e não buscamos refletir sobre conceitos e estruturas ao nosso redor. Tipo, é conteúdo para todo lado! Como somos performáticos, como performar indiretamente, como somos viciados na efemeridade e fragilidade que Zygmunt Bauman teorizou sobre o século 21… Porém, com todo seu uso para lá e para cá, não vi nada sobre ele com o devido corte racial.
Não é uma surpresa, claro, a sociedade dificilmente busca olhar para aquilo que não é conveniente.
𓇼 O que uma pessoa branca entende de performar que uma pessoa negra não esteja, previamente, familiarizada com o comportamento?
Enquanto assistia mais um vídeo do canal batendo ponto com a minha mãe, “ainda dá pra ser a gente mesma?”, percebi que o entendimento de performar só ganhou nome para nós, pessoas negras, agora, porque não é uma surpresa que o olhar do outro influencie o quanto nos moldamos para o coletivo.
Veja bem, a branquitude é, por natureza, como um polvo.
Ela está dentro dessa prisão performática como todos nós, mas pode ganhar a falsa sensação de liberdade de se adaptar ao espaço que está, só precisa entender os meios para se encaixar e voilà!, o predador e a presa são enganados.
A negritude, no entanto, é como um camaleão.
Por mais que revista peles diferentes e estude onde está inserida, assim que cruzar ambientes, apenas um olhar é capaz de mirar em sua direção e gritar “AMADORA” para desarmar sua capacidade geracional de passar despercebida. A performance é contida, mas ainda está ali para não ser expulsa.
E quando pergunto onde está a pessoa negra nesse lugar de performance, refiro-me à pressão para fazer parte da massa que não vem da ausência do pertencimento, mas da ausência da validação, pois, há um lugar para que a branquitude se faça pertencente de um grupo e ele não existe para todos, entende?
A performance vem extraída do capitalismo e polida pelo pelo preconceito — não é preciso verbalizar com palavras se entendemos instintivamente como é ruim ser a neguinha do lugar.
Inclusive, fazer o recorte social nesses conceitos que parecem englobar todo mundo não serve para descredibilizar a inquestionável pressão que o coletivo sente diante de uma sociedade capitalista, e patriarcal; buscamos ressaltar que no padrão há exceções ignoradas colocadas lá para fazer parte do fenômeno enquanto a ignorância generaliza e afasta mais ainda a minoria — que, na verdade, reflete a maioria. Por exemplo, você consegue enxergar o porquê de uma mulher negra sentir que precisa mostrar quantas leituras teve ao mês? E como você entende a situação se trocarmos o gênero? Ou, se trocarmos a raça da mulher? E se adicionarmos a condição financeira dessa pessoa? Você concorda que cada um sente o peso da performance de jeitos diferentes e cada um pode enxergar o mundo apenas pela perspectiva que lhe é vivida?
A performance, em si, nem mesmo é ruim — muitas vezes pode servir de escada à lugares que só permitimos trilhar quando te forçam a fazer parte —, é ruim quando sua vida gira tanto em torno de parecer vs ser e pessoas negras entendem isso.
Toda pessoa teve seu choque social quando percebeu que não existe respeito para o que é diferente ou fora do padrão. Geralmente, esse estalar acontece quando somos mais jovens e o olhar direcionado para nós é um… Você se enxergou antes de pisar aqui?
Tenho memória muscular de me posturar ao entrar em um estabelecimento e convencer o outro de que não sou criminosa. Eu performo constantemente uma confiança, uma intelectualidade medida na agradabilidade e um estilo que me dê a autenticação necessária para gerar um sorriso, mas a verdade é que não tenho nada disso; a única coisa que me firma é trancar o espaço que o racismo ocupa. E além de tudo isso, sou mulher.
Antes negra, depois mulher e sempre mulher. Preciso performar a amabilidade necessária para não arrancar fúria de quem se incomoda com a autonomia feminina e preciso, acima de tudo, corresponder ao imaginário de uma mulher — ou totalmente o contrário, porque convenhamos não é sempre que a performance costura a tendência.
Não discordo que a sociedade atual ressignificou cenários, momentos e objetos para que eles representassem algum tipo de passe social e, por isso, refaço todas as palavras que a Bea Gonçalves usou no vídeo: “Hoje em dia, um livro não é só mais um produto para você sentar e ler, ele é um produto para postar no meio de um dump ou para fazer um story. Ele também virou um item de moda. O ponto é que ler um livro não necessariamente significa só ler um livro, é tudo e todas as informações que aquilo passa. Eu sou uma pessoa intelectual, eu tenho estilo, eu sou descolada.”. A minha contribuição para esse debate explora o quanto isso se torna um meio de sobrevivência para que pessoas negras possuam liberdade de transitar livremente sem o préconceito de quem deveríamos parecer.
𓇼 Como funciona a expectativa da performance na prática?
De 2016, Moonlight - Sob a Luz do Luar traduz com excelência como pessoas negras transformam a performance de si, em cada contexto correspondente às suas expectativas, para que recebam validação de habitar o mundo que pisa.
O filme trabalha três versões de Chiron: Little, Chiron e o Black.
Essas fases de quem já foi se baseia na forma como as pessoas ao seu redor recebiam sua expressão. Ele foi o Little (pequeno) na infância, rotulado pejorativamente e recolhido da única forma que sua liberdade permitia, ele se apresentou como Chiron (seu nome verdadeiro) na adolescência, porque era o mais próximo de si que entendia quem era, e, por fim, aceitou-se como Black (preto/negro/negão) para receber a aprovação em se encaixar na persona que a sociedade esperava dele. A inocência não combina com a nossa cor. Ou ternura ou a fragilidade… Claro que o racismo irá olhar para qualquer manifestação de nós com limitação, mas, pelos menos, aceita a afronta dentro do que já esperado que sejamos.
Chiron continua sendo um homem homossexual depois de cumprir com os estereótipos de um homem negro norte-americano, ele se torna forte, durão, marrento e gângster, mas ser gay não combina com ser bandido; enquanto um é associado à mulheridade, o bandido exprime toda masculinidade de um marginal.
Na prática, a performance em uma pessoa negra toca no questionamento de quem estamos dispostos a defender. Com um recorte social, entendemos ainda mais como a condição financeira, região e religião altera essa vivência, mas não foge muito do princípio: sua autenticidade precisa respeitar os outros — independente se não gostam do estilo em si, do comportamento ou da raça. Não esperam que a gente quebre padrões comportamentais enquanto já revestimos a cor de um oprimido que não tem humanidade o suficiente para sentir ou ser algo.
Você espera que o homem negro seja gentil ou carente? Ou que a mulher negra seja delicada e inteligente? Infelizmente, aposto que não e, mais infeliz ainda, assumo que eu também não espero.
Lembro de ser muito nova quando comecei a pensar ser uma ovelha na pele de um lobo. Uma impostora que, no espelho, não se parecia como a criança boba e sensível que era por dentro. As outras meninas eram o a, e, i, o u e eu era o ão. Negona demais para uma criancinha do meu tamanho.
Você vai ser a neguinha esquisita ou a nega arrogante com base no seu caminhar, seus hábitos e sua posição social; Black é chamado dessa forma porque ele assume a aparência e superficialidade do nego brabo — ele até pode fugir da heterossexualidade, mas não pode fugir de sua presunção autoritária.
Na prática mesmo mesmo, nos sentimos coagidos a tentar participar da massa.
Quase como aqueles filmes de clichê em que a típica garota nerd norte-americana percebe a sua aparência como um grande problema e se arruma exageradamente para, de repente, uau, quem é aquela?. Nesse caso, o maior esforço é o mínimo para parecer doce, inteligente, descolada, rica ou o que estiver rolando como tendência por aí.
Pensando no exemplo da Bea, sobre o livro ser um item de moda que te coloca sob o olhar da pessoa intelectual, ilustro o cenário onde postamos para “sair do esperado” e atrair uma atenção positiva ou reproduzimos uma estética porque já estamos fora do padrão o suficiente para correr esse risco adicional.
𓇼 Mas, enfim, certas imposições saem de moda!
Atualmente, sinto que as conversas sobre expectativa e realidade abrangem mais esse aspecto de viver sob a régua do outro afim de agradar. E não costumo propor soluções em meus textos, mas gostaria de adotar uma prática diferente neste aqui; não, necessariamente, como a resposta para todos os males da problemática, mas compreender maneiras que funcionem como melhorias.
Porque, ainda que pareça raso, a necessidade de performar é consequência do racismo estrutural que nos coloca como inferiores ou pessoas que precisam se esforçar o dobro para receber aprovação. Poxa, a alma precisa de mais cuidado e mais amor.
Ainda que seja difícil sair de casa sem checar no espelho umas trezentas vezes e pensar como não vale a pena tentar se sentir bonita porque a multidão engole sua autoestima, é possível exercitarmos a mente para deixar de agradar a todos menos a alma.
Acredito que para causas estruturais, como essa maneira da negritude pedir licença antes de se reafirmar como manifesto de um simples traço, não há tentativas que fujam do exercício coletivo.
Não tem nenhuma lei que controle o nosso imaginário, portanto, penso que questionar a si mesmo em momentos que o julgamento raso corta a mente funciona muito bem.
O preconceito é algo enraizado enquanto nos entendemos como parte do mundo; aprendemos que ser gordo é feio, ser negro é estranho, ser alto demais ou baixo demais é um defeito e assim vai, mas e quando percebemos esse padrão repetitivo em nós? Reeducamos o nosso vocabulário ao conhecer o tom ruim de uma palavra e podemos trabalhar com nossas crenças limitantes da mesma forma. Limitar o outro ao que ele precisa ser, fazer ou aparentar é algo cultural; prezamos tanto pela falsa união que fingimos pensar no bem-estar das pessoas enquanto, no fundo, agimos por vaidade própria.
Assim como eu aprendi a cultivar indiferença em relação ao peso dos outros e, com isso, passei a aceitar as curvas e os processo naturais do meu corpo, não é impossível incentivar a liberdade individual, de grupos e eixos dentro de tendências. Está tudo bem se deixar levar pela vontade de mostrar como ama um café gelado, por exemplo, e gostar de cantores populares não te torna só mais um; não faz mal fazer parte das comunidades que te rodeiam e te oferecem um conforto em pertencer por alguns segundos.
Observe de onde surge a famosa FOMO — fear of missing out, ou, na tradução literal, medo de ficar de fora — em sua vida e entenda o quão boa ou tóxica é sua relação com ela. Faça as pazes consigo mesmo e com a pessoas.
No fim, todo mundo só não quer ser excluído, né?
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que artigo cirúrgico, Lety!! me lembro da minha adolescência em que eu tinha uma lista de coisas que precisava fazer para parecer mais feminina e ser menos desprezada na escola (coisa que as colegas brancas sequer tinham que pensar). louco que a gente enquanto preta fica suscetível a aceitar todas as violências para ter esse tipo de validação (e isso acontece com todos os corpos marginais). é um pouco engraçado ver a "performance" sendo hypada no debate online como se fosse um comportamento específico, homogêneo e fruto de um único fenômeno. aquela coisa, eles estão indo com a farinha enquanto nós já voltamos com o bolo.
(vou começar desculpando pelo tamanho do comentário, me envolvo demais lendo os textos)
tenho pensado recentemente que Sim, é totalmente esquisito isso de falar que certas coisas são "coisas de branco" e não deveríamos gostar (até porque raramente existe algo feito que não tenha surgido de mãos não brancas/não tenha grandes profissionais e influências racializadas), MAS o problema principal ainda é ser negra demais. mesmo sendo cheia de leitura e consciente, ainda sinto e cedo à pressão de não ser Negras Demais (na leitura dos outros Não Ser Tão Erudita).
eu leio porque gosto, leio principalmente porque cada vez mais tenho lido menos homens/mulheres brancas como se fossem a única opção, mas percebo que ainda há parte de mim que demonstra meu gosto por leitura porque ainda busca ser vista como igual. tipo, "faço essa coisa que vocês vêem como unicamente de vocês". meu top5 do spotify é iendrick, sza, doechii e duquesa mas é TAMBÉM radiohead. tá vendo como eu também sei das suas coisas? como não sou uma identitária?
fico pensando, sei que tem gente que duvidaria que sou tão fã de rock quanto sou (diria que é performance, porque é Claro que uma pessoa como eu não teria interesse genuíno nisso), mas é igualmente cruel que eu sinta que não possa simplesmente gostar do que eu gosto (músicas negras) porque isso também seria uma performance (como se a única razão de ser consumida pela arte negra fosse "performar" uma militância, "performar" uma identidade). parece que nada é certo se for a gente fazendo/querendo. quando a gente percebe isso, por mais doloroso que seja, para de se torturar pra fazer "o certo" ou pelo menos se esforça pra isso.