Um novo diário - agora virtual
Edição #335: Com a ajuda de Suleika Jaouad

Parei de escrever no meu caderno há um ano e meio. Foi um período conturbado da vida familiar, muito da minha rotina virou de cabeça para baixo e, para completar, a Bia me confessou um dia que tinha lido meu caderno escondido. Comecei a ficar paranoica com sobre o queria (e podia) escrever - não queria que ninguém mais violasse a minha privacidade.
Perdi então um hábito que amava, que me acompanhou durante tantos momentos da minha vida, entre idas e vindas. Um ano e meio em que parei de tentar destrinchar minhas emoções, ações e reações por escrito. De desabafar para a página em branco.
Nas férias de julho, no aeroporto de Miami, dei de cara com o livro novo da Suleika Jaouad, The Book of Alchemy. Se você não conhece a Suleika (já me sinto íntima), já te apresento. Ela é autora da newsletter The Isolation Journals with Suleika Jaouad , a best seller de literatura do Substack. Para resumir a história, Suleika teve um câncer aos vinte e poucos anos e a prática da escrita diária foi um bote salva-vidas durante o período da doença. Esse material foi a base de uma coluna que ela publicou durante um ano no New York Times. Quando chegou a pandemia, ela sabia como lidar com o isolamento repentino. Começou a escrever e teve a ideia de publicar no formato de newsletter - deu no que deu.
O livro novo fala sobre “a arte do journaling” e traz os aprendizados de Suleika sobre esse ato de escrever diariamente em um caderno. Mas ela não o faz sozinha - o livro contém cem ensaios de escritores, artistas e pensadores como Alain de Botton, Lena Dunham, Jia Tolentino, Melissa Febos, Ann Patchett, Esther Perel e Sharon Salzberg. Ao final de cada um, vem um convite para um exercício de escrita.
Comprei o livro na pressa: o nome de Suleika naquela capa linda foi o suficiente para soltar o cartão naquela correria antes de um voo. Foi só quando cheguei em casa que descobri que era um livro com exercícios de escrita, algo que me me deu uma certa preguiça de antemão.
Mas resolvi dar uma chance, nesse momento em que estou escrevendo diariamente a minha tese. Achei que seria uma forma de reencontrar os meus diários e, de quebra, ajudar a destravar a escrita acadêmica-memorialística do dia-a-dia.
Com uma diferença: agora, não faço mais no papel. Para a minha segurança e privacidade, troquei o caderno e caneta por uma nota bloqueada no app do computador e celular. Só abre com o meu FaceID. Então foi questão de começar.
Estou descobrindo a cada dia que existem muitas outras formas de fazer um diário. Um exercício que adorei foi o de escrever cenas que me marcaram nas últimas 24 horas. Aos poucos, percebi que meus cadernos sempre foram muito focados nos verbos e pouquíssimo nas descrições. “Fiz isso e aquilo”, “encontrei tal pessoa”, e assim por diante. Nos dias em que não tenho tempo de fazer um exercício novo, vi como as descrições começaram a preencher meu diário virtual com uma vida que não tinha antes. Agora eu reparo mais no dia-a-dia e tiro um tempo para descrever as cenas.
Como as estantes cheias de livros na minha sala, no nosso novo escritório. Passei dois dias escolhendo os livros que queria levar para o meu novo endereço comercial e organizando as prateleiras. Escolhi os livros da pesquisa sobre o 7 de outubro - afinal, será aqui que vou escrever o restante da tese. Vieram também os livros de memória, a literatura judaica, os livros do mestrado, os de escrita criativa… Cada um com seu espaço na estante de madeira toda iluminada. Essa estante tem sido a paixão dos meus dias.
Ou então o som das risadas da Bia e da Izzy brincando juntas no sábado de manhã. A Bia propunha uma brincadeira, a Izzy gargalhava e a Bia não resistia e começava a rir também. Isso durou um tempo, enquanto eu e o Luiz terminamos o café da manhã de domingo. Não vimos a cena, apenas ouvimos, mas foi o som mais doce dos últimos dias.
O cheiro do escritório, que acabou de ficar pronto depois de meses de reforma. A playlist que escolho para tocar enquanto escrevo essa edição. Os cartões postais que estou juntando para fazer um quadro para pendurar aqui na minha sala. Comecei a encontrar mais calma e mais poesia no meu dia a dia, graças a um simples exercício. Ao reler minhas notas, vejo que elas ganharam mais vida.
Estou de volta aos meus cadernos - ainda que digitais.


Carol, obrigada pelas dicas. Sempre quis manter um diário e sempre tive vergonha (do que eu nao sei). Mas comprei o livro que vc falou aqui e comecei ontem mesmo! Quem sabe agora vai!
Incrível, Carol! Manter diários talvez seja um dos meus hábitos mais antigos, desde que aprendi a escrever tenho sempre um caderno para isso. Mas a praticidade do digital é incontestável! Tem um app muito legal que eu também uso que se chama day one, vc pode colocar audios, imagens, vídeos….acho muito legal para viagens! Ele também tem prompts diários bem interessantes, acho que vale dar uma conferida :)