Carta XIV: Odisseia:
O Épico da Humanidade
Caríssimos,
Escrevo hoje movida por uma inquietação antiga, daquelas que voltam de tempos em tempos como marés interiores. Estava relendo a Odisseia para começar um curso que ministrarei a partir de julho deste ano de 2025, e no maravilhamento que sempre me atinge quando eu leio qualquer verso de Homero, constatei, mais uma vez, que é a humanidade o grande tema do cego aedo.
A Odisseia é um retorno, sabemos. Mas retorno a quê? A casa, sim. A Ítaca, à esposa, ao filho, ao leito talhado em madeira. Mas o retorno é também à condição humana, à normalidade da vida depois da prova da guerra, da travessia do mundo e da alma, à realidade após a experiência com o maravilhoso. Odisseu – ou Ulisses, como preferirem – é menos o guerreiro invencível e mais o homem que erra (e acerta também, claro!), que sofre, que mente, que chora, que se oculta para sobreviver. Ele é, definitivamente, a imagem do humano que permanece humano apesar dos deuses, da imortalidade que lhe é oferecida, e da glória.
Há uma passagem que sempre me comove: no canto VIII, o herói está no palácio dos Feácios, ainda ocultando sua identidade. Um aedo canta os feitos da guerra de Troia, e quando Odisseu ouve seu nome no canto, ele chora. Esconde o rosto, mas as lágrimas escorrem. Ali está o guerreiro vitorioso, o estrategista predileto de Atena, desfeito em lágrimas ao ouvir a memória do que viveu.
Mas depois de afastarem o desejo de comida e bebida,
a Musa inspirou o aedo a cantar as célebres façanhas de heróis:
era um canto cuja fama chegara já ao vasto céu –
a contenda entre Odisseu e Aquiles, filho de Peleu.
O tema era como outrora se injuriaram no banquete divino
Com palavras violentas; e Agamêmnon, Soberano dos Homens,
Se regozijou no espírito, ao injuriarem-se os mais nobres dos Aqueus.
Pois assim lhe dera Febo Apolo uma indicação oracular,
Na sagrada Pito, quando transpôs a soleira de pedra
Para interrogar o deus. E daí rolou o início da desgraça
Para Troianos e Dânaos, por vontade do grande Zeus.
Era isto que cantava o celebérrimo aedo. Mas Odisseu
Com suas mãos possantes pegou na capa de púrpura
E com ela cobriu a cabeça, escondendo o belo rosto.
Sentia vergonha dos Feácios por que das pálpebras lhe corriam
Lágrimas: na verdade, cada vez que o aedo fazia uma pausa,
Odisseu limpava as lágrimas e tirava a capa da cabeça;
E com a taça de asa dupla oferecia libações aos deuses.
Mas quando o aedo retomava o canto, quando lhe pediam
Para voltar a cantar os Feácios, visto que suas palavras
Os deleitavam, Odisseu tapava de novo a cabeça para chorar.
(Hom. Od. 8. 72-92)
Essa cena diz tanto! Porque nela, Homero nos mostra que há dores que ficam latentes, mas estão ali, resistindo ao tempo. Não se apagam com a vitória, voltam como espectros no canto de um poeta. E que poder tem a poesia! Odisseu chora porque lembra; chora porque ainda é capaz de sentir. Memória e sentimento: eis o humano!
A humanidade da Odisseia está nos gestos pequenos. No cansaço. Na saudade. No engano. Odisseu mente várias vezes ao longo do poema, inventa nomes, disfarça sua história, testa até os próprios familiares. E embora para nossa ética moderna a mentira é uma falha, no mundo de Odisseu, ela revela algo mais profundo: a sobrevivência exige astúcia, e a verdade – especialmente para Odisseu – às vezes, precisa esperar (aqui faço uma pausa para convidá-los a ler Filoctetes, de Sófocles, para entender como Odisseu – na tragédia – lida com a verdade). Em um mundo de deuses caprichosos e homens vorazes, ser humano é também saber recuar, esconder-se, mudar de pele para não perder a essência e para sobreviver.
Entretanto, não é só Odisseu que nos ensina. Penélope, que espera, que tece e destece, que resiste aos pretendentes dia após dia, é também um retrato pulsante da humanidade. Não a humanidade heroica e ruidosa, naturalmente, mas a silenciosa, a que constrói a esperança tecendo-a de pouquinho e pouquinho até que ela se torne certeza. Penélope é prudente, mas também vulnerável. Há momentos em que hesita, em que duvida. Porém jamais sucumbe. E quando Odisseu retorna, ela não corre ao seu encontro como quem jogará fora toda a espera a troco de um prêmio possivelmente falso. Ela também o testa. Porque o espaço de vinte anos é capaz de mudar tudo e o acúmulo de expectativas, angústias e incertezas não pode ser esvaziado de uma forma tão certeira e definitiva. Penélope quer ter certeza, e nisso, sua prudência é mais uma forma - entre tantas! - de ser fiel e de amar.
E Telêmaco? O menino que cresce sem pai e que sai pelo mundo em busca do nome paterno, antes mesmo de saber o seu, porque não está completo sem o pai? Nele, vemos o desejo profundo que sempre moveu a humanidade ao longo da história: conhecer a própria origem para se compreender, se explicar, se justificar. Telêmaco parte não apenas por Odisseu, mas por si mesmo, para que sua existência tenha sentido e para que seja digno do pai.
É formidável que ao longo da Odisseia, Homero nos apresente criaturas fantásticas, como os Ciclopes, as Sereias, Cila e Caríbdes, os Lotófagos, e, ainda assim, o que mais nos marca não são os prodígios relacionados a essas criaturas, mas os sentimentos de Odisseu, a dor de perder os companheiros, o peso de carregar lembranças, a sede tão intensa de retornar a casa, as renúncias que faz ao longo da jornada, a sua travessia interior.
A humanidade na Odisseia não está, portanto, nas façanhas. Isso nos impressiona, sem dúvidas, mas talvez é o que mais nos afasta do homem Odisseu. A humanidade está, pois, nos intervalos, no herói que naufraga e que, nu, numa situação tão vexatória, é obrigado a pedir socorro a uma jovem princesa; no homem que, antes de revelar seu nome, quer ouvir como o mundo o conhece; no estrangeiro que, mesmo salvando uma cidade, precisa implorar por abrigo. Em quantos momentos Odisseu não é um estranho, mesmo quando chega a sua cidade? E talvez aí resida uma mensagem delicada: somos todos estrangeiros em algum momento, estamos de passagem no corpo, na terra, na memória. E o que nos humaniza, no fim, é justamente isso: não somos para sempre como os deuses.
É inevitável nos perguntarmos por que a Odisseia ainda nos comove tanto. Que mágica, que feitiço há nos versos de Homero capaz, durante esses milênios, de ter deixado atônitos os homens de todos os tempos? Passaram-se séculos, milênios. Mudaram-se os deuses, o desenho da Terra, a tecnologia, e a Odisseia continua ressoando, soberana sobre todas essas mudanças, porque, em essência, o homem não muda; o amor à pátria, à família, à normalidade da vida não muda. Ainda vivemos embasados por essas coisas.
A Odisseia ainda nos fala porque todos nós temos algo de náufragos. Todos nós perdemos e buscamos alguma coisa. Todos nós, de algum modo, sobrevivemos às tempestades da vida e seguimos tecendo os nossos mantos à espera de um sinal de salvação.
Se tiverem paciência para escutar com calma, talvez vocês escutem nas entrelinhas do poema a voz de Homero sussurrando: “Não temas. As provas são muitas, mas o coração humano é vasto. E, como Odisseu, um dia também tu voltarás.”
Carinhosamente,
Vanessa Almeida.



Texto maravilhoso, Vanessa! Ao lê-lo, lembrei de uma passagem do François Hartog no "Regimes de historicidade" em que ele menciona o comentário que a Hannah Arendt faz desse trecho. Peço licença para colocar o trecho aqui: "Nesta cena que põe face a face o aedo e o herói, que escuta a narrativa de suas próprias ações, Hannah Arendt via o começo, falando, ao menos do ponto de vista poético, da categoria de história. "O que fora puro evento tornava-se agora história", pois nos encontramos na primeira narração do acontecimento. Com uma importante singularidade: a presença de Ulisses, lá (em Troia) e aqui (no banquete), atesta que isso realmente aconteceu. Desenha-se aqui uma configuração até então inédita, uma "anomalia", tendo em vista que na epopeia a veracidade da palavra do aedo depende inteiramente da autoridade da musa, ao mesmo tempo inspiradora e avalista. Indo mais longe ainda, Hannah Arendt considerava essa cena como "paradigmática" para a história e para a poesia, já que, retomando sua fórmula muito condensada, a "reconciliação com a realidade, a catharsis que, segundo Aristóteles, era a essência da tragédia e, de acordo com Hegel, o objetivo último da História, produzia-se graças às lágrimas da lembrança". Parabéns pelo texto!
Que belo texto.
Sua emoção é contagiante.