A recém-finalizada Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, representou um pontapé inédito para uma agenda ainda nova nos burocráticos espaços de negociação da Zona Azul: a integridade da informação. O conceito, grosso modo, está relacionado com a precisão, consistência e confiabilidade da informação, ameaçada pela desinformação e pelo discurso de ódio.
Em um contexto de crise climática, essas ameaças esvaziam sistematicamente o debate público e representam um obstáculo para a tomada de ação. O debate é tão emergente que aparece já no discurso do presidente Lula (PT) durante a abertura oficial da conferência, no dia 10 de novembro.
“Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também o progresso do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam ódio, espalham medo, atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas”, disse o presidente brasileiro, que classificou a COP 30 como a “COP da Verdade”.
Pela primeira vez, a integridade da informação fez parte da programação de dias temáticos da conferência e teve um enviado especial nomeado pelo país anfitrião, o atual presidente do Conselho da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Frederico Assis. O tema também foi incluído como objetivo transversal, catalisador e acelerador da Agenda de Ação Climática.
Em entrevista à ONU News, Assis alertou que a desinformação “alimentada por visões obscurantistas” incentiva o extremismo político, coloca vidas em risco e pode interferir nas negociações climáticas. Ele afirmou que algoritmos ampliam o alcance de conteúdos conspiratórios, muitas vezes disseminados por meio de táticas sofisticadas. “Todas as nossas ações estarão comprometidas se não trabalharmos corretamente o combate à desinformação, que é fruto de negacionismo”, advertiu.
Uma avaliação divulgada no fim de junho pelo Painel Internacional sobre o Ambiente da Informação (IPIE) classificou a desinformação como o maior obstáculo à ação climática, a partir de campanhas mais sofisticadas que semeiam dúvidas sobre as soluções climáticas ao desacreditar a eficácia, os custos ou a equidade das soluções propostas.
Na manhã do dia 12, primeiro dia temático de integridade da informação, a Ação Climática Contra a Desinformação (CAAD, em inglês) divulgou uma carta aberta assinada por mais de 400 organizações e indivíduos, entre eles a Abaré, cobrando maior compromisso dos países com a agenda de integridade da informação, em especial no combate à desinformação do setor de combustíveis fósseis.
Também durante a conferência, a iniciativa global liderada pelo Brasil e pela Unesco lançou uma declaração oficial sobre a integridade da informação climática, que já conta com a assinatura de 20 países. O documento, que permanece aberto a novas adesões, estabelece diretrizes para promover a comunicação responsável, apoiar o jornalismo, proteger os comunicadores e ampliar a participação social.
O tema também foi incorporado ao preâmbulo do documento final “Global Mutirão: Uniting humanity in a global mobilization against climate change”, no qual os países reconheceram a COP 30 como a “COP da Verdade”. O texto destaca que narrativas enganosas enfraquecem o debate público e comprometem a implementação do Acordo de Paris, reafirmando a integridade informacional como princípio orientador da governança climática.
A Rede de Parceiros pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima (RPIIC), da qual a Abaré faz parte, e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom-PR) lançaram seis instrumentos dedicados ao tema. Os materiais estão disponíveis no site oficial da Rede e incluem análises do debate digital, recomendações para fortalecer o jornalismo, orientações jurídicas e uma carta-compromisso destinada a anunciantes e plataformas.
O secretário de Políticas Digitais da Secom-PR, João Brant, destacou o desafio de articular órgãos governamentais e de engajar ainda mais os demais atores interessados na promoção da integridade da informação climática. “Ter desenvolvido esses documentos em tão pouco tempo demonstrou o comprometimento da Rede e fortaleceu o diálogo entre a sociedade e o governo”, reforçou.
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Esta edição da Tipiti teve o apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), por meio do Programa de Apoio ao Jornalismo (Pajor).











