Mergulhos por dentro da alma: temas pessoais marcam novo álbum de Zayn Malik
Konnakol, seu novo álbum, traz quinze faixas que discutem lutas internas entre temas de amor e confusão mental.
O Konnakol é a arte performática da recitação rítmica do sul da Índia, utilizando sílabas solkkatu para articular ritmos complexos, servindo como ferramenta poderosa para o desenvolvimento rítmico, improvisação e compreensão musical. Essa prática milenar, baseada na oralidade, combina vocalização com a marcação de tempo pelas mãos como forma de arte misturando música-corpo. Proveniente do sul da Índia, o konnakol consiste na execução de ritmos através da leitura rítmica de sílabas e da marcação dos tempos musicais com as mãos.
Esse é o nome do novo álbum do cantor inglês Zayn Malik. Konnakol é o quinto álbum de estúdio do artista, e marca dez anos de carreira solo do cantor após a saída da boyband britânica One Direction, em 2015. Não é novidade para os fãs do artista a forma como ele abraça sua descendência muçulmana, utilizando-se de diversos elementos culturais dentro das suas criações e composições. Em seu álbum de estreia, Mind of Mine (2016), Zayn incluiu como música “fLoWeR”, na qual ele a canta inteiramente em Urdu, uma língua indo-ariana do sul da Ásia, reconhecida como idioma oficial do Paquistão, terra natal do pai do cantor.
Desde a sua saída do One Direction, Zayn não realizou turnês ou shows com os álbuns anteriores, porém parte da estratégia de divulgação do álbum foi o anúncio da primeira turnê mundial do cantor que leva o mesmo nome da nova produção. Konnakol Tour é apenas uma das grandes agendas que Zayn realizará em 2026, com direito a show único em São Paulo, em outubro, com ingressos esgotados.
Herança e família não são tópicos incomuns dentro das composições musicais de Zayn. Em sua nova produção, Konnakol começa com vocais mesmerizantes que nos levam a outra dimensão e a outro local. Junto às harmonizações, uma atmosfera mística é ampliada com a melodia sintética de fundo. “Nusrat”, que é a primeira faixa, é uma homenagem indireta à Nusrat Fateh Ali Khan, músico paquistanês, mestre de qawwali, um estilo musical sufi.
Ao contrário das outras produções de Zayn, que sempre destacam seu orgulho pela sua história e ancestralidade no meio das composições, neste álbum ele traz como porta de entrada para abordar temas diferentes que falam sobre sua vida pessoal. Após anos sem dar entrevistas para a imprensa e depois de dez anos desde sua estreia como solista, Zayn coloca Konnakol como o início de uma nova fase.
Seguindo na ordem do álbum, “Betting Folk” inicia com um lado mais tranquilo, com uma mistura entre acordes simples e uma batida leve que remete muito ao que tem estado em alta nas músicas pop internacionais, algo não usual nas obras de Zayn, mas que foi adaptado para ainda ter a essência do cantor dentro do liricismo e da atmosfera da música.
Muitas das músicas desta obra falam sobre o processo de se apaixonar e perder sentimentos dentro de uma relação amorosa, realizando muitos paralelos à vida amorosa do cantor, que sempre foi muito rodeado pela mídia. Junto a isso, há diversas menções ao uso de álcool e de drogas, especificamente de maconha, ambos sendo utilizados como uma válvula de escape utilizada como refúgio para problemas psicológicos, chamados de karma por ele, e também pessoais do cantor, fato que se estende às letras das novas músicas.
A canção seguinte se chama “Used to the Blues”, onde Zayn constrói de forma íntima o Blues e R&B mesclados dentro do álbum. A música é uma das que mergulha diretamente dentro da cabeça do cantor, sobre como a sua mente encontra-se em um turbilhão que nem mesmo os vícios mundanos de nicotina o ajudam mais, uma vez que o corpo não entende e os absorve da mesma maneira.
“Sideways” traz um outro lado, assim como o nome da música. Nesta canção, Zayn fala sobre a forma como precisa lidar com a saudade e a necessidade de ter uma pessoa amada perto de si, como seu corpo necessita da proximidade física e da troca carnal e íntima entre eles. É uma canção que traz ruptura entre romance e atração, entre paixão e desejo, tópico este que ainda é destrinchado em mais músicas durante o álbum.
Em um grande contraste, “5th Element” começa com acordes suaves de violão, quase que em uma versão acústica e suave perdida no meio do álbum, mas que, rapidamente, progride com ajuda dos sintetizadores utilizados no álbum para padronizar as produções. O eu lírico da composição desabafa como é difícil e confuso estar dentro da sua própria cabeça, com um grande debate sobre querer e perder, sobre estar sozinho e estar junto ao mesmo tempo.
“Prayers” traz uma letra mais simples e não tão profunda, talvez até um pouco confusa na sua construção que parece mais com palavras soltas que rimam do que uma canção em si. Apesar disso, é uma das melhores melodias do álbum em termos gerais, com notas altas e uma exploração muito boa da versatilidade vocal de Zayn, que sempre foi seu maior ponto forte desde o início da carreira.
“Side Effects” retoma a seriedade retratada em certos tópicos e traz a admissão de ser um problema, uma pessoa que precisa melhorar em certos aspectos antes de entrar em um relacionamento. O cantor traz o título da música em um paralelo sobre os efeitos colaterais de o amar que se traduzem em momentos difíceis e uma certa instabilidade, mas que ainda assim, ele tem consciência e deseja se tratar para poder ser uma pessoa melhor para a outra.
Assim como “Sideways”, “Met Tonight” é uma canção com uma letra lasciva, inebriantemente sensual. Zayn não mede esforços em deixar explícita a forma que ele deseja, a forma que ele precisa carnalmente da pessoa do outro lado da música. Ele não utiliza metáforas para falar sobre toques no corpo, sobre desejo e fogo, e com o uso de Afrobeats na melodia, isso se torna o combo perfeito para ser uma das músicas mais gostadas dentro do álbum.
Seguimos para “Fatal”, que já começa com uma atmosfera intrigante que é como se a música nos levasse em uma viagem psicodélica dentro da confusão mental de Zayn, foco central da letra desta canção. Fatal é uma espécie de jogo de palavras que o artista faz para retratar as brigas internas e problemas psicológicos que o mesmo enfrenta desde que se tornou figura pública.
“Take Turns” segue a mesma base de composição musical, com uso de sintetizadores mais pesados e fechados, quebrando a leveza presente no início do álbum e trazendo uma sensação mais profunda e pesada, independentemente das letras. Neste caso, ele traz um paradoxo central baseado em amor e ódio, sobre problemas e resoluções que não se encontram, mas que ainda estão juntas de algum jeito em coexistência.
Em “Blooming”, uma das canções mais comentadas por ser uma resposta direta sobre alegações jurídicas de sua ex-sogra, ele utiliza sua arte para explicar como ele vive sua vida sem ligar para o externo, fazendo uma ponte que liga a canção ao fato de que ele passou anos sem dar entrevistas ou comunicados abertos sobre a sua pessoa. É também uma das músicas que ele fala sobre seu panorama mental e como lida em estar dentro do abismo que é sua mente em certos momentos.
“Like I Have You” é uma continuação sobre como Zayn não faz questão de ligar para as críticas e pessoas externas, onde ele explica que ele entende e sabe mais sobre suas relações do que quem apenas pega ângulos e não a visão inteira da situação. Aqui, ele retoma a calmaria presente em outras músicas como 5th Element, com uma letra simples e leve junto a uma melodia mais suave.
“Loving the Way I Do” é sobre não superar. É uma música que fala sobre continuar amando uma pessoa mesmo depois do término, que ela não irá parar de amar daquela forma mesmo sem contato. Seguindo a canção anterior, o álbum continua e retorna para essa nuance de leveza, uma vez que o fim do álbum se aproxima.
A penúltima composição é “Breathe”, uma música que é autoexplicativa. Respire. É uma letra que reflete sobre o que fazer em uma crise, é o que pode ser feito quando os pulmões queimam e o estômago dói em desespero, em dor traduzida em corpo. Zayn estabeleceu um mantra, uma forma de respiração para poder superar essa situação, para poder controlar suas crises.
O álbum finaliza com “Die For Me”, a primeira música que foi lançada em março como single oficial do álbum e desde então tem sido promovida como a canção principal da era Konnakol. Ela destaca todas as forças de Zayn, com um refrão explosivo que relembra as pessoas da potência vocal do artista, e uma batida forte e envolvente que se equilibra com as notas altas.
A letra é polêmica, criou burburinhos e rumores sobre parte da vida privada do cantor, mas que até então não foi confirmada por ninguém envolvido na produção do material. Ele fala sobre uma grande decepção amorosa e a forma que doeria menos não ouvir mentiras faladas em sua cara, que não esperava se tornar inimigo de alguém com quem criou um vínculo romântico e que carrega parte de seu íntimo consigo.
Konnakol é um álbum vasto e complexo que não só aborda temas interpessoais, mas ainda trata de diversas emoções negativas transpassadas em forma de música. Zayn traz uma obra completa e que não deixa a desejar em termos de qualidade musical nas quinze faixas produzidas e que ainda mantém sua identidade original e autêntica enquanto solista. O público ainda consegue mergulhar dentro da sua essência e aproveitar uma boa música.
Confira o clipe oficial da title track:



