Estagiária
Sobre os pronomes pessoais do caso reto e a variação linguística diastrática.
Percebo que caio em um certo tipo de padrão: não lido tão bem com o 1º ano do Ensino Médio. Conforme passam os anos, noto que é frequente que eu não consiga trabalhar tal como quero especificamente nessa série. É importante ressaltar, ainda, que, no geral, dou-me bem com a mesma turma no ano seguinte, quando passam para o 2º ano. Meu problema realmente é o ano inicial do Ensino Médio.
Parece-me que a questão principal é uma certa euforia que não consigo manejar satisfatoriamente. Ao saírem do Ensino Fundamental, talvez os alunos compreendam súbita e esperançosamente a mudança de ciclo — a última, inclusive, da vida escolar. Talvez, as novas disciplinas, os novos horários, os novos colegas e os novos professores confiram-lhes a indescritível sensação de que é possível recomeçar, recalcular toda uma rota saindo de um novo ponto de partida.
(Parando para pensar melhor sobre isso, talvez os alunos tenham sua razão em relação à euforia descrita; ainda que ilusória, talvez essa a ideia de que é possível não só voltar ao início, mas também estabelecer uma data explicitamente como o marco zero de um ciclo — neste mês de janeiro, começamos o Ensino Médio, que durará seguramente três anos! — seja precisamente o que procuramos quando nos percebemos em crise)
De todo modo, é difícil não tropeçar na corda bamba que separa a compreensão da permissividade dentro de uma sala de aula. Assim, visando construir um ambiente seguro para a aprendizagem, assombro-me constantemente pelo medo de, na verdade, ser apenas um docente amigo, lido como licencioso ou complacente. É neste contexto que se complexifica minha relação com o 1º ano.
Hoje, enquanto me preparava para começar o dia justamente nesta sala, recebi o aviso de que, em instantes, uma estagiária viria observar a minha aula. Quando cursei a graduação, diversas vezes precisei estagiar em escolas e observar aulas de professores formados; nunca estivera, porém, no lado observado. Os sussurros, então, que constantemente me murmuram aos ouvidos que sou um professor desregrado, que não sabe o que faz nem como controlar uma turma, transformaram-se em gritos, que se misturavam a gargalhadas. Antes que o desespero me dominasse por completo, tentei agir.
Comecei a aula comunicando aos alunos que eu estava, sinceramente, apavorado. Expliquei-lhes a questão da estagiária, e ressaltei que aquela seria a minha primeira vez recebendo este tipo de trabalho. Entre ansiosos risos, pedi-lhes a colaboração, reforçando regras que deveriam ser reforçadas ao máximo (Adriano não poderia xingar os outros; Fabiana não poderia cochilar um minuto sequer; Alexandre deveria não fazer piadas de cunho sexual. Eu mesmo, combinamos, não utilizaria palavras do calão).
A estagiária chegou e começamos a aula. Constantemente, percebia trocas de olhares entre os alunos, que riam daquela presença estranha. Estava indo tudo bem; para a minha surpresa, todos estavam cumprindo bem o seu papel.
Em um determinado momento, Alexandre levantou a mão e, antes que eu lhe passasse a palavra, começou a falar. Preparei-me para ouvir uma piada de cunho sexual; no entanto, ele perguntou se o uso do pronome “nóis” em vez de “nós” se relacionava com a “variação linguística diastrática”. Levei alguns segundos para compreender que ele estava conectando o conteúdo do momento a um módulo que havíamos estudado meses antes.
Confirmei animadamente, e agradeci pela observação. Por dentro, entretanto, emocionei-me. Eu soube que, pelo resto do dia, os sussurros que me acusam seriam obrigados a discutir com outras vozes, que deles discordariam.
Perto do fim da aula, ao responder equivocadamente a uma pergunta que fiz à sala, Adriano gritou “porra!”. A turma riu, eu ri, a estagiária riu. Virei-me para ela e defendi, ainda que me divertindo, Adriano. Expliquei a ela que havíamos combinado que ele não xingaria nada pela aula inteira, e reconheci seu esforço empregado ao resistir por 45 minutos antes de soltar aquela exclamação.
É preciso celebrar as vezes em que conseguimos terminar um dia letivo com a sensação de leveza. Não sei se um dia conseguirei delimitar as fronteiras entre a compreensão e a permissividade e entender como me posicionar adequadamente entre os dois pólos; porém, hoje, e pelo menos por hoje, permito-me descansar com o pensamento de que Alexandre conseguiu ver a relação entre os pronomes pessoais e a variação linguística diastrática.

depois de muito tempo, te conhecendo como professor e passando, como objeto, por esses processos narrados, admiro como você criou uma narrativa tão íntima.
ficou claro em suas palavras suas inseguranças e preocupações, coisas que sempre me foi claro, mas de maneira sútil. você sempre foi uma inspiração de como ser uma pessoa mais aberta e consciente dos próprios incômodos, sua maneira de se expressar, pra mim, é algo genuinamente admirável. você foi muito mais do que uma pessoa que me ensinou a escrever corretamente nas aulas de redação, agora, no meio acadêmico, reconheço (mais profundamente) como você foi um ótimo docente, e mesmo mostrando suas dificuldades, fazia parecer que seu trabalho de lidar com alunos era algo fácil, natural, quando na verdade, pelo texto, expôs que também era mais uma de suas inseguranças, o toque humano do professor, que não temos tato durante o ensino médio, tão exigente para os alunos quanto para os professores.
Essa crônica é sobre uma sala de aula, umas palavras difíceis e uns conceitos tediosos, mas poderia ser um estudo de caso sobre o "Efeito Dunning-Kruger".
Lamentavelmente, o narrador (você, Thiago Ryoki, estou falando de você mesmo) está preso na parte da curva em que há excesso de competência e falta de confiança.
Eu te diria para "se mancar" do jeito mais ríspido que eu encontrasse, Thiago, mas acho que você já tem motivos demais pra me processar por danos morais. Assim sendo, estarei me limitando a dizer que sua 'newsletter' foi a melhor coisa que li na semana (não estou elogiando só pela vã esperança de me livrar dos processos, realmente gostei), assim como as suas aulas sempre foram, ao longo do meu ensino médio.
P.S: Na verdade, houve algo no texto que me incomodou: Sua censura flagrante e injusta às piadas de Alexandre. Daqui a pouco vão prender comediante em cima do palco (se os deuses quiserem, amém).