Crônica: o choro que não coube no prato
uma história comum demais pra ser só minha.
Escolhi o prato branco que tem ondulações nas bordas e servi a comida com capricho. Primeiro o arroz, depois o caldo de feijão (que, pelo cheiro, estava muito saboroso); depois, acrescentei meticulosamente os pedacinhos de frango ao lado. Levei meu prato à mesa, meu estômago roncou e eu torci para ninguém mais ter escutado; depois de preparar a comida e servir a janta de todos da casa, me sentia faminta. Mas antes mesmo que eu pudesse me sentar e desfrutar do modesto banquete, o prato me encarou e, ao perceber o que eu fiz, num choque, saí correndo para a cozinha, me debrucei sobre o escorredor e desabei a chorar.
É uma droga.
É uma droga quando desejamos muito poder fazer uma coisa, mas, na verdade, não temos o poder de nada.
Ali, recebendo todo consolo possível de uma peça de inox, eu chorei por todos os momentos que queria ter passado com as meninas nas férias e tive que me forçar a focar em alguma tarefa no computador.
Chorei a minha incapacidade de seguir o plano alimentar no último mês, depois de viroses, viagens e eventos.
Eu chorei por todas as vezes que me escondi para comer e deixei que a compulsão alimentar roubasse o controle da minha vida.
Chorei por cada emoção que eu engoli, ao invés de expressar, alimentando um ciclo de autodestruição.
Eu chorei por todas as missas que eu perdi pela tristeza de ir sozinha e pela minha fraqueza em ser um exemplo na fé para a minha família.
Chorei por todo tempo que eu perdi vendo vídeos no celular e que podia ter usado para criar coisas incríveis.
Eu chorei pelo final de série ruim que me fez sentir que perdi alguns dias da minha vida na causa errada.
Chorei pelas mortes dos personagens bons e até dos ruins.
Eu chorei pelos livros que se acumulam nas estantes enquanto o meu tempo de leitura falta.
Chorei por todas as noites em que eu queria ser companhia para o meu marido, mas terminei o dia tão drenada que apaguei em qualquer canto da casa.
Eu chorei pela minha avó, que está velhinha, doente, longe e me visita menos.
Chorei por tudo que o meu pai perdeu. E por tudo que eu perdi de viver com ele.
Eu chorei pelas amizades que se afastaram e que eu sinto falta.
Chorei pela minha dificuldade de manter laços; ser neurodivergente tem um preço e eu não to falando só de dinheiro.
Eu chorei por todas as vezes que não fui compreendida, mesmo sendo sincera.
Chorei pela depressão pós-parto em 2019, que eu não tive tempo de lidar enquanto cuidava de uma bebê atípica.
Eu chorei pelos parentes que eu amo, mas não consigo encontrar.
Por fim, enquanto as minhas lágrimas se acalmavam, ou se exauriam, chorei por que algum maldito cozinheiro de delivery achou uma boa ideia colocar uma linguiça toscana no feijão.
Chorei porque o feijão cheirava muito bem e eu o coloquei no meu prato.
Chorei porque, quando olhei pra mesa e vi aquela comida suculenta, num prato que eu escolhi e montei com tanto capricho, me dei conta de que, mesmo faminta, não poderia comer.
E, por fim, chorei por ter alergia a carne de porco.




Esse texto é de uma beleza devastadora, Samy.
É a vida real se derramando... e também o lugar onde Deus escolhe habitar.
Me lembrou A Liturgia do Ordinário.
Curioso como as pequenas derrotas vão se escondendo, tentando "fazer a egípcia" (como se diz hoje em dia), e do nada, explodem com a violência que você tão brilhantemente descreveu.
Fique bem, minha amiga.