#10 - tintinnabuli
sobre a Virgem, os sinos e a madeira
Falei sobre a passagem do Sol pelos seus diversos pedágios (ou estações, ou casas, ou mansões, ou signos) e sobre como a coisa muda para quem mora na cidade. No campo, quando Deus pergunta, as coisas respondem. A grama e a terra e os bichos são profundamente afetados pelos dois luminares (o Sol e a Lua) porque dentro de suas veias há sangue que ferve e dança. Em tudo há um ritmo de aproximação e distanciamento paulatino e a natureza desfila para o seu senhor sob diversas vestes como uma noiva em sua festa de casamento, como para conquistá-lo ou convencê-lo a ficar mais.
Na cidade Deus fala com pedras.
Entre os séculos X e XII, nos países baixos, as pessoas entoavam hinos litúrgicos para a Virgem Santíssima em um lugar estratégico: bem debaixo dos grandes sinos das igrejas. A associação entre a Virgem e os sinos é curiosa: entremeando o costume de batizar os sinos (para que o badalar passasse a ter ressonância espiritual, expulsando demônios) havia também o costume de lhes dar nomes cristãos - entre os quais Maria era um preferido. Enquanto os fiéis cantavam Inviolata, o badalar imponente e agudo (como são as vozes das mães) se expandia para envolver o espaço sagrado das igrejas e também as ruas, a frieza das pedras, lembrando o pessoal da cidade de que a ordem do tempo vem de cima.
O sol tem dois arcos existenciais principais, duas narrativas que ele protagoniza ciclicamente. A primeira é a sua história pelo zodíaco, que dura um ano. A segunda é a sua história pelo nosso céu visível, que dura um dia. A passagem ou intermediação entre um ciclo e outro é a vida pulsante da lua, que completa a sua narrativa em pouco menos de um mês. A sua narrativa, ademais, não é posicional, mas acidental — as suas mudanças mais aparentes são aquelas que aparecem como acidentes em sua forma: ela se torna cheia, depois se esvazia, depois se torna cheia novamente. O simbolismo do sol é exterior, projetivo, dado pelo efeito que ele tem nas coisas (aliás, nem conseguimos olhar pra ele, só para o que ele ilumina). Quando o sol aparece, todas as luzes do céu se apagam; quando a lua aparece, todas as luzes brilham e ela própria vai se apagando. Daí que o seu simbolismo seja interior, receptivo. Nós prestamos mais atenção nas ranhuras em sua superfície do que no efeito que ela provoca nas suas imediações. Por isso, talvez, a associação com a Virgem Santíssima, que em todo momento se apaga, se esconde, se diminui em função de sua humildade perfeita, de maneira que podemos olhar só a multitude de suas virtudes perfeitas.
Na astrologia antiga, pelo menos até a idade média, a lua teve uma posição especial entre os planetas. O sol está obviamente ligado aos ciclos macrocósmicos, a lua está posicionada como para “filtrar” ou despejar aqui embaixo a influência das coisas que estão em cima. Se pegarmos a imagem do cosmos-cebola, todas as camadas superiores precisam passar pela lua antes de chegar na terra (assim como Deus nos foi entregue pela Virgem). Ademais, a lua em algum sentido fica em pé de igualdade com o sol quando, na própria Bíblia, se fala dos dois luzeiros ou luminares - os dois têm o mesmo tamanho aparente quando observados da terra. Os dois também só têm um domíclio no ciclo zodiacal (todos os outros planetas têm dois). A lua em si define o mundo que conhecemos: o mundo sublunar, aquele que está sujeito a todas as transformações que são características dos mares do caos: tudo é maré, tudo é onda, mas onda feita de terra, grama, carne, sangue, vento e dente.
A lua também era especialmente importante porque determinava o começo dos meses. Se você pegar qualquer calendário medieval (geralmente no começo dos breviários, ou livros das horas, usados por leigos e monges), vai perceber que sempre tem as letras “KL” estilizadas no começo. É porque os medievais dividiam o mês em três momentos: Kalendas (de onde vem a palavra calendário), que demarcava o primeiro dia do mês; Nonas, que demarcava a primeira semana (de onde vem a palavra inglesa noon, que na Liturgia das Horas é a hora nona); e Idos, que demarcava o meio do mês (beware the ides of March). A palavra “calenda” tem como origem a palavra calō, que significa anunciar solenemente (que também gerou to call), fazendo referência ao ritual romano de anunciar o começo do mês quando um sacerdote distinguia os primeiros sinais de uma lua crescente. A lua era então o portão do mês, o anúncio de sua entrada (como a Virgem é o Portão do Céu). O seu ciclo de morte e renascimento com mais ou menos trinta dias é uma lembrança perene da vida e da paixão de Cristo; assim como o seu crescimento paulatino por meio da luz do sol sempre foi relacionado com as mulheres grávidas e com a gravidez miraculosa da Virgem. Diana, a paradoxal virgem deusa lunar do nascimento, prefigura este evento miraculoso de quem cresce e se esvazia mas não perde a sua branquidão, como uma mulher que ficou grávida sem perder a sua virgindade.
Além da lua demarcar o começo do mês, ela também marcava uma outra data importante - talvez a data mais importante para a cristandade até pelo menos a idade média: a data da Páscoa. Na europa medieval a palavra computus significava simplesmente calcular a data da Páscoa. O computador era então o monge que estudava a fundo os diversos calendários luni-solares para calcular corretamente o dia de celebrar aquele que era o feriado cristão por excelência (o Natal assumiu esse lugar alguns séculos depois). Da antiguidade pra cá surgiram inúmeros tratados cosmológicos, discussões teológicas e confusões de toda sorte entre os cristãos que defendiam o costume x ou y. Alguns cismas foram gerados até o fortalecimento da tradição latina conseguir homogeneizar um pouco a celebração, embora até hoje, por exemplo, a Igreja Ortodoxa celebre a Páscoa em uma data diferente (por utilizar um calendário inteiro diferente, aliás). De qualquer forma, o importante aqui é notar que a Páscoa medieval era celebrada no primeiro domingo depois da primeira lua-cheia depois do equinócio de primavera. Simbolicamente, temos uma realização espiritual do sacrifício pascal judaico (o Cordeiro = Sol em Áries) que nos é entregue por meio da Lua (Virgem Santíssima).
Esta data era tão importante para os medievais (não apenas pelo seu conteúdo espiritual, mas também pela centralidade que tinha no funcionamento da sociedade como um todo, demarcando o fim dos jejuns e o início do ano agrário produtivo) que nos calendários encontramos sempre uma “colinha”, os chamados números dourados, que serviam para informar, a partir de qualquer dia do ano, a que altura do ciclo a lua se encontrava, bem como a distância para a data da Páscoa. Em outra coluna vemos as datas e a marcação de feriados e dias de celebração de santos específicos (que mudava com a localidade). Para um guia um pouco mais completo de como ler uma página de calendário medieval, recomendo isso aqui.
Além disso, os calendários não eram pendurados nas casas medievais com frases bonitas da seicho-no-ie. Geralmente eles eram copiados em manuscritos que serviam como livros de oração, uma forma de regra espiritual para os seus donos. A Liturgia das Horas, ou Divino Ofício, rezado primeiro nos mosteiros e depois adotado pelos fiéis leigos, criava um ritmo de 7 orações diárias (8 para os monges), intercalando a meditação nos mistérios da Paixão com hinos, a leitura dos Salmos e pequenas leituras das Escrituras. A idéia é criar uma moldura relativamente fixa para o dia, seguindo o movimento do sol, ao mesmo tempo em que posiciona o cristão num fluxo temporal sagrado que corre paralelamente ao “tempo comum” e profano. Alguns breviários intercalam as diversas orações com imagens da vida de Cristo ou da vida da Virgem Maria, outros com imagens dos Salmos ou até do Apocalipse. (Só posso imaginar o efeito psicológico de abrir, todos os dias, sete vezes por dia, uma janelinha para a consumação dos tempos - como se a realidade fosse a projeção de dois filminhos em duas telas lado a lado, “hmm, deixa eu ver o que está acontecendo do lado de lá, no final do mundo”). Em termos simbólicos, o Ano Litúrgico é uma reatualização da vida de Cristo, que vai da Anunciação até a Ascenção (e nesse sentido o sol assume um papel cristológico enquanto nós assumimos o papel da Virgem, que foi a única pessoa que testemunhou a vida de Cristo do começo ao fim). Pensando a realidade em termos fractais, como uma árvore (onde cada galho tomado isoladamente representa formalmente uma árvore completa), ou como uma sucessão de círculos concêntricos, onde os mesmos esquemas estruturais se replicam em diversas esferas - ora mais amplas, ora ínfimas -, podemos encarar o próprio dia como um ciclo cósmico de morte & renascimento. São Beda faz até uma distinção bem sutil entre os sete períodos de um dia, assinalando nomes elegantes tipo gloaming e afterglow para diferenciar os diversos tipos de fenômenos atmosféricos que sem dúvida possuem algum significado planetário e relação com as sete esferas celestes. Contra o pano de fundo da Paixão de Cristo e da Liturgia das Horas, o fiel pode então imbuir a passagem do tempo com sentido (e eficácia) espiritual, do mesmo jeito que um templo faz isso com o espaço. Por outro lado, a Liturgia das Horas também organiza uma rotina de consumo das Escrituras que, alternando entre o Antigo Testamento e o Novo, propicia uma espécie de visão simbólica total ou simultânea da Revelação: os Salmos são escritos no mesmo dia e pela mesma mão que está na crucificação. Assim, anualmente o fiel pode percorrer os 150 Salmos e toda a narrativa da vida de Cristo, como se fossem jeitos diferentes de dizer a mesma coisa, permitindo que a história sagrada invada o seu tempo profano periodicamente como quem mistura água com vinho.
Não é à toa que as tradições calendaristas posteriores, da época em que a prensa já permitia a replicação indefinida dos livros, acabou distanciando-se dos temas sagrados. Os breviários, produzidos por monges copistas com tanto esmero, foram substituídos por almanaques confusos, direcionados para camponeses, que misturavam astrologia, superstições, poemas folk, dicas de cultivo de terra e remédios caseiros meio macumbísticos. O tempo profano das árvores, dos rios, do esterco e das flores - todos terrivelmente pagãos, intoxicados como junkies pelo sol e nada mais - é em si uma terra que precisa ser semeada pelo maná do céu, pelo tempo litúrgico, pelos ciclos espirituais de distanciamento e aproximação da alma com Deus. O calendário agrário e o calendário litúrgico são então as duas mandíbulas de Cronos mastigando os homens e as pedras um a um.
A liturgia do tempo, o batismo das horas, não é invenção cristã. Nos Salmos já temos a proposta de sete orações diárias. Este é um detalhe interessante sobre as representações ocidentais tradicionais da Virgem Santíssima no momento da Anunciação: ela não era alheia à tradição judaica, mas alguém que carregava em si a plenitude dessa tradição. Quando o anjo chega e faz o misterioso cumprimento “AVE”, que espelha literalmente o nome da primeira mulher, a Virgem está quase sempre sentada em oração ou contemplação, os livros da antiga lei abertos em seu quarto. Tratando-se de alguém que não apenas cumpria os deveres judaicos, mas cumpria mais piedosamente que todo mundo, não é arriscado dizer que a Virgem estaria orando a Liturgia das Horas no momento da Anunciação.
O que nos leva de volta ao badalar dos sinos.
O sino é o pulmão da comunidade: em seu ritmo as pessoas se aproximam e se distanciam periodicamente, como a respiração que fortifica o sopro espiritual da paróquia. A sua ressonância metálica começa lá em cima e termina aqui dentro, no peito, na medula, assim com o ave! começou lá fora e terminou no ventre germinado. Ouvir um sino é como receber um factory reset que te centraliza novamente no lugar de onde você não deveria ter saído. Daí, talvez, a capacidade hipnótica que fez o Arvo Pärt criar o tintinnabuli, um estilo musical inteiro baseado na expansão progressiva do badalar dos sinos, que se propaga pelo vento (santificando o vento, porque o demônio mora lá) como em ondas circulares de uma pedrinha na superfície do lago.
Eu quero crer que os medievais dos países baixos, que consagravam e encomendavam cidades inteiras à proteção da Virgem, viam na imagem do sino entronado no ponto mais alto da paróquia, uma imagem mesma da coroação da Mãe de Deus na eternidade. Todas as igrejas são casas da Virgem, porque Deus habita nelas. Noto até uma semelhança com a silhueta dos sinos, seja da Virgem sentada, segurando o Salvador, ou da Virgem abrindo o seu véu (na tradição da Madonna della Misericordia): a reverberação dos sinos é a o véu da Virgem sendo lançado para todos os fiéis, oferecendo misericórdia perfeita, intercessão perfeita, abrindo os portões do Paraíso. Ouvindo a sua doce melodia sentimos o coração vibrar - talvez um átimo do que Santa Isabel sentiu quando S. João pulou de alegria ao ouvir a voz da Virgem, ou do que a própria Virgem sentiu ao ouvir a saudação angelical -, nos fazendo lembrar de que o Logos é o Verbo, e o Verbo entra pelos ouvidos.
Nos dias mais santos, como na Páscoa, os fiéis nãos eram chamados pelo tintinabular dos sinos. Ou guardavam o silêncio circunspecto - uma forma de jejum para os ouvidos também -, ou ouviam o bater macio de um martelo na madeira - costume até hoje preservado, por exemplo, no Monte Athos. O metal e a madeira - representando, respectivamente, os instrumentos da Crucificação e a Cruz - são como o dia e a noite na alma do cristão. O metal nos chama para lembrar da Paixão e do sangue que precisou escorrer pela lança para que os nossos pecados fossem lavados. Ouvir o bater seco da madeira é ao mesmo tempo um jejum e uma consolação, um chamado para levantarmos a nossa cruz. A madeira nos chama para lembrar de que Cristo é uma videira e que estamos diante da nova árvore no novo jardim.







