“Se eu não posso ser melhor do que eles, então serei muito pior.”
[Review] Trilogia “O Povo do Ar”, de Holly Black: poder, trauma e agência em um YA que desafia seu próprio gênero
⚠️ Aviso importante: esta review contém spoilers.
Esta review* contém spoilers da trilogia O Povo do Ar, de Holly Black — incluindo O Príncipe Cruel, O Rei Perverso e A Rainha do Nada. Se você ainda não leu e quer ter a experiência intacta, talvez seja melhor voltar aqui depois.
*Review original postada no Goodreads. Clique aqui para conferir.
Sobre a trilogia
Gênero: Fantasia YA / Fantasia política* / Subplot: Romance
Série: O Povo do Ar
Livros (em ordem): O Príncipe Cruel; O Rei Perverso; A Rainha do Nada.
Sinopse na Amazon:
Jude tinha apenas sete anos quando seus pais foram brutalmente assassinados e ela e as irmãs levadas para viver no traiçoeiro Reino das Fadas. Dez anos depois, tudo o que Jude quer é se encaixar, mesmo sendo uma garota mortal. Mas todos os feéricos parecem desprezar os humanos... Especialmente o príncipe Cardan, o mais jovem e mais perverso dos filhos do Grande Rei de Elfhame.
Para conquistar o tão desejado lugar na Corte, Jude precisa desafiar o príncipe — e enfrentar as consequências do ato.
A garota passa, então, a se envolver cada vez mais nos jogos e intrigas do palácio, e acaba descobrindo a própria vocação para trapaças e derramamento de sangue. Mas quando uma traição ameaça afogar o Reindo das Fadas em violência, Jude precisará arriscar tudo em uma perigosa aliança para salvar suas irmãs — e a própria Elfhame.
Cercada por mentiras e pessoas que desejam destruí-la , Jude terá que descobrir o verdadeiro significado da palavra poder antes que seja tarde demais.
Onde ler
Se você ainda não leu (ou já tá prestes a reler depois dessa review), aqui estão os livros:
Disponíveis em livrarias, Amazon e e-book.
*Atenção: O Povo do Ar NÃO é uma romantasia. É uma fantasia política onde o romance existe — não como eixo central, mas como consequência inevitável de dois personagens que aprenderam, cada um à sua maneira, que amar também é uma forma de poder. Eu não sei qual é a tara do BookTok em resumir qualquer livro de fantasia com migalhas de romance em romantasia; acho, incrivelmente, que a maioria da galera que se vangloria tanto por ler tá performando demais e lendo de menos. Mas não caia no conto do vigário, caro leitor. Romantasia é uma coisa, fantasia é outra. Esta trilogia está LONGE de ser uma romantasia, como é o caso de, por exemplo, “Era Uma Vez um Coração Partido”, de Stephanie Garber, ou “Corte de Espinhos e Rosas”, de Sarah J. Maas. Mergulhe neste post e nas obras de Holly Black com isso em mente.
Há mais ou menos um ano e meio, descobri por meio do TikTok a existência de um livro chamado O Príncipe Cruel. Cardan Greenbriar, o tal príncipe cruel que dava o nome do primeiro livro da icônica trilogia de Black, seguia, pelo que se podia ver nas fanarts, um padrão já bem conhecido no mundinho da romantasia¹: branco, alto, moreno, sarcástico e todo aquele blá-blá-blá cheio de um borogodó tedioso que a gente já sabe que tem o famoso macho romantasia, como carinhosamente apelidei esse tipo de personagem. Mal sabia eu, ainda, que o Grande Rei de Elfhame era um personagem complexo e esférico, e muito superior a todos esses cabras literários cuja função era meramente arrancar suspiro de leitoras sedentas por um romancezinho gostoso.
Nessa época, entreguei minha cabeça numa bandeja de prata para o algoritmo e, com isso, começaram a aparecer repetidamente posts de toda a galera do BookTok se descabelando por causa desse cara. Dele, claro, mas principalmente da protagonista fodona, Jude Duarte. Só sabiam falar de como Jude Duarte era uma mocinha diferente das demais, forte, icônica, poderosa, fodona, “porra louca”. E eu, é claro, arisca como um gato de rua, criei um bloqueio enorme na minha cabeça e me recusei a cair no hype e ler “mais uma porcaria recomendada pelo TikTok”.
Mal sabia eu o que estava perdendo.
Jude Duarte, protagonista da trilogia O Povo do Ar. Arte por Frostbite Studios. Fonte: Pinterest.
Poder, crueldade e desejo: a reinvenção do feérico em O Povo do Ar
A trilogia O Povo do Ar, de Holly Black, emergiu como uma das obras mais marcantes do Young Adult contemporâneo, não apenas pela sua popularização massiva nas redes sociais, mas pela habilidade de Black de reconfigurar completamente o imaginário feérico (das fadas) na literatura. Agora que me rendi aos encantos de Black (estaria eu sob o efeito de Glamour?), consigo entender a razão desse sucesso massivo.
Em vez de oferecer um conto de fadas higienizado ou simplesmente escrever sobre elfos gostosões que se têm asas, já é muito (sim, Sarah J. Maas, estou olhando pra você), Black trabalhou com maestria ao mostrar que pesquisou e leu MUITO antes de publicar esses livros. Nesta trilogia, ela retoma raízes folclóricas celtas e irlandesas, trazendo fadas — fadas de verdade, com rabo, orelhas pontudas, beleza apavorante, garras longas, chifres, olhos de gato e peles azuis e verdes —, perigosas, moralmente voláteis e esteticamente sedutoras, em um mundo onde violência e beleza não são opostos, mas complementares.
Entretanto, antes de analisarmos Jude Duarte e Cardan Greenbriar — nomes que o TikTok fez questão de transformar em hashtags estereotipadas e resumidas a um mero tropo literário —, é fundamental reconhecer quem é Holly Black dentro do campo literário.
Holly Black, autora da trilogia “O Povo do Ar” e da aclamada fantasia “As Crônicas de Spiderwick.” Fonte: Dragonsteel Books.
Nascida em 10 de novembro de 1971, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, Holly Black e construiu sua carreira literária orbitando justamente esse espaço híbrido entre o folclore tradicional e a fantasia urbana moderna. Muito antes de viralizar no TikTok ou se tornar referência dentro do meio da fantasia, Black já era um nome consolidado na literatura fantástica jovem, especialmente por seu trabalho em parceria com Tony DiTerlizzi na série As Crônicas de Spiderwick².
Publicada nos anos 2000, Spiderwick não só foi um sucesso comercial como também ajudou a reintroduzir, para uma nova geração de leitores, criaturas feéricas inspiradas diretamente no folclore europeu — criaturas que não eram fofas, nem confiáveis, nem necessariamente compreensíveis.
Ao longo dos anos, a autora continuou explorando esse mesmo território em outras obras, como Tithe³, Valiant⁴ e Ironside⁵, sempre retornando à ideia de que o mundo das fadas não é um refúgio mágico escapista, mas um espaço regido por regras próprias, frequentemente cruéis, onde humanos são frágeis, manipuláveis e facilmente descartáveis.
Sendo assim, quando chega em O Povo do Ar, Black não está “entrando” nesse universo — ela está refinando, amadurecendo e, de certa forma, consolidando uma visão que já vinha desenvolvendo há décadas: a de um feérico que seduz, mas nunca acolhe.
Sua relevância, portanto, não deriva apenas de sua popularidade, mas de sua função quase histórica dentro da fantasia contemporânea. Black foi uma das principais responsáveis por reintroduzir, no mainstream literário americano, uma concepção de feérico que havia sido amplamente diluída ao longo das últimas décadas, especialmente após o sucesso de narrativas que suavizaram ou romantizaram essas criaturas (Sim, SJM, de novo, é pra você que eu tô olhando aqui).
Ainda que Spiderwick já apontasse para esse movimento, é em O Povo do Ar que essa proposta atinge sua forma mais sofisticada e consciente. Black resgata diretamente a tradição europeia — sobretudo celta e irlandesa — das fadas como entidades amoralmente perigosas, regidas por códigos próprios que não se alinham à moralidade humana.
Esse resgate não é apenas estético, mas também estrutural e quase antropológico. Elementos clássicos do folclore retornam com força: pactos que não podem ser quebrados por fadas sem consequências devastadoras, promessas que funcionam como armadilhas linguísticas (já que fadas sempre cumprem suas promessas e são incapazes de mentir), alimentos feéricos que aprisionam e até mesmo drogam aqueles que os consomem, e a constante ameaça de humanos serem levados — ou mortos, ou substituídos — na calada da noite.
Ao trazer esses aspectos de volta, Black rompe com uma tendência contemporânea de domesticação do feérico e reposiciona essas criaturas como aquilo que sempre foram em suas origens: belas, sim, mas também violentas, imprevisíveis e fundamentalmente incompatíveis com a lógica humana.
Em outras palavras, compreender Jude Duarte, Cardan Greenbriar e a própria corte de Elfhame exige reconhecer Holly Black não apenas como autora, mas como uma mediadora entre tradição e reinvenção — alguém que traduz o folclore para a linguagem da fantasia juvenil sem esvaziar sua complexidade, seu perigo ou sua estranheza.
Jude Duarte. Arte por Frostbite Studios. Fonte: Pinterest.
Agência, ambição e violência: Jude Duarte e o direito de governar
“Se você me machucasse, eu não choraria. Eu machucaria você também.” — Jude em O Príncipe Cruel (livro 1)
Jude Duarte... Que protagonista, meus amigos. Que mulher. Ela não é meramente a mulher foda e corajosa que o TikTok pintou. Ela é muito, muito mais que isso.
Não é à toa que Jude é tão venerada dentro e fora do ambiente pop de literatura. A questão sobre ela é que ela é foda e forte porque treinou e lutou muito para isso. Jude não solta lasers pelos olhos; ela não se eleva ao nível de uma deusa conforme os capítulos avançam; ela não solta poderes mágicos ou raios pelas mãos, nem lê mentes, nem nada do tipo. Jude é um ser humano, uma mortal vivendo entre seres feéricos — e, diferente deles, ela sente frio, fome e cansaço muito mais rápido. Diferente deles, ela não vai viver para sempre. Diferente deles, ela é simplesmente uma mortal.
Acho que é por isso que ela é tão marcante quanto protagonista. Jude é tão adorada pelos fãs, pois ela rompe uma tendência recorrente no YA⁶ de heroínas que desejam apenas “espaço para existir”.
Jude não é a mocinha frágil que fica gritando aos quatro ventos sobre como é fodona, mas acaba pedindo pro macho romantasia salvá-la na hora H. Ela não confia em ninguém, e não busca aceitação, tampouco busca amor. Ela não tenta ser moralmente correta como um robozinho; ela erra e falha, e o mais revigorante: ela sabe disso, e não faz questão alguma de tentar convencer a si mesma ou aos outros ao seu redor de que é uma heroína ou de que “o certo precisa ser feito”. Pelo contrário; ela mata, rouba, mente e engana até mesmo as pessoas que ama (como as próprias irmãs), e jamais justifica nada disso pelo “bem maior”. Jude pode ser mentirosa, mas é muito honesta consigo mesma sobre uma coisa: ela busca simplesmente poder, agência política e legitimidade institucional. Tudo que ela faz é sempre em benefício próprio. Num mundo onde por anos fomos obrigadas a ver protagonistas certinhas e quase moralmente santas e intocadas como o padrão, é revigorante ver uma protagonista feminina agir dessa forma.
O conflito de Jude com o mundo feérico não é romântico, é estrutural. Ela vive em uma sociedade que a marca como sub-humana, e sua resposta não é pedir igualdade, mas conquistar superioridade.
“Se eu não puder ser melhor do que eles, então serei muito pior.”
Jude diz essa frase no primeiro livro, em um fechamento fenomenal de capítulo, que sintetiza com precisão brutal o tipo de personagem que ela está se tornando. A fala vem logo após o assassinato de Valerian — um feérico cruel que não apenas a humilha publicamente, mas a agride, a assedia e, em última instância, tenta matá-la. Não se trata de vingança catártica no molde clássico do Young Adult; trata-se de uma virada ética. Essa frase revela uma lógica de sobrevivência que aproxima Jude mais de Nicolau Maquiavel⁷ do que de Katniss Everdeen⁸. Em vez de mobilizar uma moral revolucionária baseada em libertação coletiva, Jude internaliza uma racionalidade política profundamente individualista: não “vamos todos ser livres”, mas “eu governarei”, mesmo que isso não liberte ninguém além dela mesma. A partir desse ponto do livro, Jude está disposta a buscar poder, se necessário, à custa de qualquer coisa — inclusive de si mesma.
Essa postura, no entanto, não surge do nada. Ela é construída ao longo do primeiro livro de maneira quase cirúrgica.
No início de O Príncipe Cruel, tudo o que Jude deseja é pertencimento. Mais especificamente, ela deseja reconhecimento dentro de uma estrutura que a rejeita sistematicamente. Seu objetivo é se tornar cavaleira da Coroa — não por um ideal de honra ou serviço, mas porque isso representaria, simbolicamente, sua aceitação em Elfhame.
Para isso, ela corre enquanto os feéricos caminham. Ela se esforça dez vezes mais em um sistema que jamais a recompensará de forma justa. Há, nesse momento, algo quase trágico em sua ambição: Jude acredita que, ao provar seu valor, poderá negociar seu lugar naquele mundo.
A frase que ela diz no início do livro 1 é reveladora:
“Nicasia está enganada ao meu respeito. Eu não quero me sair tão bem quanto um dos feéricos no torneio. Eu quero vencer. Não desejo ser igual a eles. No fundo do meu coração, eu desejo ser melhor.”
Aqui, ainda existe uma ilusão meritocrática. Jude acredita que excelência pode compensar origem, e que desempenho pode reescrever hierarquias. Mas Elfhame não é um sistema meritocrático, é um sistema de poder. E Elfhame não tem espaço para bondade. Muito menos para humanos.
Esse é o ponto em que a transformação acontece.
Jude poderia desejar escapar, como Vivi, sua meia-irmã mais velha — o que, por si só, já é profundamente irônico: a única personagem verdadeiramente feérica das três irmãs Duarte é justamente aquela que rejeita Elfhame e se sente mais pertencente ao mundo humano do que as próprias irmãs humanas. Jude, por outro lado, faz o movimento inverso. Ela não quer sair. Ela quer dominar.
E é nesse contexto que o assassinato de Valerian deixa de ser um evento isolado e se torna um rito de passagem. Ao matá-lo, Jude não apenas elimina uma ameaça — ela atravessa um limite moral que, até então, ainda a separava dos feéricos. E, ao pronunciar “se eu não puder ser melhor do que eles, então serei muito pior”, ela abandona definitivamente a tentativa de pertencimento e adota uma lógica de assimilação.
A adolescente humana, que buscava validação, morre naquele momento. O que surge em seu lugar é algo muito mais perigoso: uma jovem que compreendeu que, em um sistema estruturalmente hostil, não há espaço para inocência — apenas para estratégia. Alguém que aprende, talvez rápido demais, que para ascender em Elfhame é preciso operar dentro das mesmas regras cruéis que a oprimem. E mais do que isso: é preciso superá-las. É a partir daí que Jude deixa de ser apenas uma sobrevivente e se torna uma jogadora.
Tal postura sindica uma pergunta incômoda: Jude quer justiça ou quer poder?
Holly Black conscientemente não resolve essa ambiguidade — e é justamente isso que torna Jude uma personagem literariamente relevante. Ela não é símbolo, é estratégia.
As gêmeas Jude e Taryn Duarte. Arte por Mana Arts. Fonte: Pinterest.
Amar, trair e sobreviver: o vínculo impossível das gêmeas Duarte
“— Coisas boas não acontecem em histórias — Taryn diz. — Ou, quando acontecem, alguma coisa ruim vem logo depois. Porque, caso contrário, a história seria entediante, e ninguém iria querer ler.” — Taryn Duarte em O Príncipe Cruel (livro 1)
Se Jude representa a ambição crua e estratégica, Taryn Duarte existe como seu contraponto — não como oposto, mas como reflexo.
Taryn é a irmã gêmea de Jude, também humana, também criada em Elfhame após o assassinato brutal de seus pais, Eva e Justin Duarte, pelas mãos de Madoc — que, ao mesmo tempo, é seu sequestrador, padrasto e figura paterna. Ao lado delas, está Oriana, esposa de Madoc, responsável por grande parte da criação doméstica das meninas. E é justamente aí que começa a divergência entre as duas.
Enquanto Jude cresce sob a influência direta de Madoc — absorvendo sua lógica militar, sua brutalidade e sua visão de mundo baseada em conquista e estratégia (não à toa, muitos leitores a interpretam como uma “mini Madoc”) — Taryn se aproxima de Oriana, internalizando outro tipo de sobrevivência: silenciosa, adaptativa, social.
Oriana não é apenas uma figura materna distante; ela é uma sobrevivente política. Antes de se casar com Madoc, viveu como cortesã, navegando relações de poder através da performance, da sedução e da leitura precisa de ambientes hostis. Sua própria história é marcada por violência e perda — incluindo o assassinato de sua melhor amiga, Liriope, por Dain, o que a força a assumir responsabilidades que não escolheu (como a maternidade do menino Oak, filho de Dain com Liriope) e a sobreviver dentro de estruturas que jamais a protegeriam. Taryn aprende com ela, e isso molda absolutamente tudo.
Se Jude responde ao mundo feérico com confronto direto — buscando poder, controle e domínio —, Taryn escolhe a assimilação. Ela quer pertencer. Quer ser aceita. Quer ser amada. E, dentro da lógica de Elfhame, isso significa uma coisa muito específica: casamento. É nesse ponto que a relação entre as duas irmãs começa a se romper.
O envolvimento de Taryn com Locke não é apenas um romance problemático, é o primeiro grande ato de traição contra Jude. E que ironia: a primeira grande traição que nossa protagonista sofre não vem por parte de Madoc, Vivi ou de nenhum feérico que ela conheça, mas sim de sua própria metade, sua irmã gêmea. Locke, que simultaneamente flerta, manipula e testa Jude, usa Taryn como peça dentro de seus jogos sociais, criando um triângulo artificial que serve mais ao seu entretenimento do que a qualquer vínculo real. Taryn, por sua vez, aceita esse jogo — e, ao fazê-lo, escolhe Locke em detrimento da própria irmã. Essa escolha não é pequena, ela é estrutural. Apesar de toda a brutalidade que Jude começa a desenvolver, existe nela algo que ainda é profundamente humano: o apego. O amor pela irmã. A necessidade — quase infantil — de não estar sozinha naquele mundo que constantemente a desumaniza.
Taryn rompe isso, e não apenas uma vez. Ao longo da trilogia, ela repete esse padrão: prioriza sua sobrevivência social, sua posição e seu relacionamento com Locke ou com Madoc — a quem vê mais como um pai do que o próprio Justin Duarte —, mesmo quando isso significa mentir, omitir e trair Jude. E é aqui que a personagem deixa de ser apenas “fraca” — leitura comum e, honestamente, rasa, na minha opinião — para se tornar desconfortavelmente complexa.
“— Você me acha fraca.
— Você é fraca — acuso. — Você é fraca, e patética, e eu…
— Eu sou um espelho. — grita ela. — Eu sou o espelho para o qual você não quer olhar.”
Há muita verdade nesse diálogo entre as duas irmãs, presente no primeiro livro da trilogia. A última frase é dita por Taryn. Essa frase não é uma defesa, mas sim um diagnóstico.
Taryn e Jude querem a mesma coisa: pertencimento em um mundo que não as aceita. A diferença está no método — Jude tenta conquistar esse lugar através do poder, enquanto Taryn tenta conquistá-lo através da aceitação. Ambas, entretanto, estão dispostas a fazer concessões morais para chegar lá. Enquanto Jude mata para ascender, Taryn se submete. E essa submissão, como acabamos descobrindo em O Rei Perverso e A Rainha do Nada, não é passiva — ela é estratégica, ainda que mais silenciosa. Seu casamento com Locke explicita isso de forma brutal: longe de ser um conto de fadas, a relação insere Taryn em um ambiente de humilhação constante, onde ela participa de orgias, festas que utilizam humanos como meros objetos, jogos que ameaçam sua vida e integridade e dinâmicas que flertam com a perda total de controle — incluindo o consumo de fruta feérica, que compromete sua autonomia, e a participação em situações que levantam leituras bastante válidas de coerção e ausência de consentimento na relação entre ela e Locke.
Taryn queria amor. O que ela encontrou, entretanto, foi poder disfarçado de afeto. E ainda assim, ela permanece. É fácil odiá-la por isso — e, honestamente, eu também acho indefensável a forma como ela constantemente escolhe qualquer coisa antes da própria irmã. Mas reduzir Taryn à “irmã vilã” é ignorar o ponto mais interessante da personagem: ela também aprendeu a sobreviver em Elfhame, só que com outras armas. Não à toa, em A Rainha do Nada, ela revela ser, afinal de contas, irmã de Jude e filha de Madoc, quando finalmente assassina o marido (eu comemorei MUITO quando foi revelada a morte de Locke). A ironia do espelho permanece até o final da trilogia entre as duas irmãs: Taryn queria poder e aceitação através do amor e do casamento, mas conseguiu através da briga e do assassinato, enquanto Jude, que queria tanto ser cavaleira, se torna a verdadeira Grande Rainha de Elfhame através do amor por Cardan e de seu casamento com ele.
Taryn foi manipulada, isolada, seduzida por uma promessa de pertencimento e inserida em um sistema que recompensa obediência e pune resistência. Penso que a sacada de Holly Black foi genial ao escrever uma personagem como ela, que critica exatamente o que leitores menos atentos não se importaram em ler nas entrelinhas: ela errou, sim, mas o maior responsável disso tudo é o sistema injusto e cruel que colocou ambas as irmãs Duarte em uma posição tão difícil, num mundo que as quer mortas a todo momento. No fim, nenhuma das duas é feérica, mas ambas aprenderam a agir como se fossem. E talvez Taryn tenha cruzado essa linha antes mesmo de Jude perceber que ela existia.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja “como Taryn pôde fazer isso com Jude?”, mas sim: o que Jude teria feito se estivesse no lugar dela?
Eu não gosto de Taryn, mas jamais poderia odiá-la. Enquanto leitora, acho ela uma songamonga. Enquanto escritora e, portanto, colega de profissão, acho que ela é uma das personagens mais brilhantes que Black já criou.
“Quando me permito pensar direito, não posso culpar Locke por escolhê-la. Estou me envenenando há semanas. Sou assassina, mentirosa e espiã.
Entendo porque ele a escolheu. Só queria que ela tivesse me escolhido.” — Jude Duarte em O Príncipe Cruel (livro 1)
Madoc, o pai/padrasto das irmãs Duarte. Arte por Frostbite Studios. Fonte: Pinterest.
Madoc: o amor feérico e a violência como linguagem
“Pai, eu sou o que o senhor fez de mim. Afinal, me tornei sua filha.” — Jude para Madoc em O Príncipe Cruel (livro 1)
Se existe um personagem que sintetiza tudo o que Holly Black quer dizer sobre o mundo feérico — sua lógica, sua brutalidade e sua incompatibilidade com a moral humana — esse personagem é Madoc.
Madoc é um barrete vermelho, general da Corte de Elfhame, membro da aristocracia feérica e, acima de tudo, um guerreiro por natureza. A guerra, para ele, não é apenas um meio — é identidade, linguagem e propósito. Ao longo da trilogia, essa característica é repetida de diferentes formas: Madoc não apenas participa de conflitos, como vive para eles. O poder, a estratégia e a conquista não são desvios de caráter; são seu próprio caráter. É dentro dessa lógica que sua história com Eva Duarte se insere — e já começa marcada por contradições.
Eva, humana, foi sua esposa. Com ele, teve Vivienne. Mas Eva nunca pertenceu a Elfhame. Sentia falta do mundo humano, da simplicidade, da previsibilidade — de tudo aquilo que o mundo feérico deliberadamente destrói. Madoc, por sua vez, apesar de amá-la à sua maneira, jamais poderia oferecer isso, porque amar, para ele, nunca seria mais importante do que poder. Eva, então, foge, impulsionada não só pela saudade do mundo humano e por não suportar mais o mundo feérico, como por uma profecia que recebe, dizendo que uma de suas filhas seria uma grande arma.
De maneira errônea, Eva faz o que todo leitor velho de guerra já sabe que nunca resulta em coisa boa: foge da profecia. E é justamente essa fuga que faz com que a profecia aconteça. Afinal, a filha citada pela profecia não era Vivi.
Como você já deve imaginar, caro leitor, Eva não foge sozinha: sua companhia é Justin Duarte — um humano que, sim, trabalhava como artesão/ferreiro (ligado à produção de armas), alguém profundamente enraizado no mundo humano que Eva desejava recuperar. Com Justin, ela tem as gêmeas Jude e Taryn.
O prólogo de O Príncipe Cruel é, talvez, um dos mais impactantes da fantasia YA contemporânea justamente porque não tenta suavizar nada disso. Madoc encontra Eva e a mata, assim como mata Justin, fria, direta e inevitavelmente, na frente das três crianças… e então leva as meninas com ele.
Se parássemos aqui, seria simples. Madoc é um monstro. Honestamente, qualquer leitura inicial que chegue a essa conclusão está completamente justificada. Mas Holly Black não escreve personagens simples.
O mesmo homem que assassinou os pais de Jude é também o homem que a cria, e mais do que isso: a cria como filha legítima. Não como prisioneira, não como serva — como nobre. Esse detalhe é fundamental.
Jude e Taryn, humanas, bastardas, são criadas com acesso à melhor educação, ao melhor treinamento, às melhores roupas, à melhor alimentação. São ensinadas a lutar, a pensar estrategicamente, a sobreviver em um mundo que quer vê-las mortas. Madoc não apenas permite isso; ele incentiva, e isso cria uma tensão quase insuportável: todas as atitudes dele, dentro da lógica feérica, são coerentes com amor. Um amor que não protege, mas que prepara e que transforma. Não é à toa que grande parte do fandom lê Jude como uma “mini Madoc” — porque, de fato, ela é. Ele não apenas a criou, como a moldou. Tornou-a sua melhor versão possível dentro daquele mundo. E é justamente isso que torna tudo ainda mais perturbador, porque Madoc não ama menos por ter matado, apenas ama de forma diferente — de uma forma que humanos simplesmente não conseguem aceitar ou compreender.
Essa diferença é central para entender por que esse personagem tão complexo não pode ser reduzido ao grande vilão da trilogia — ainda que faça coisas absolutamente imperdoáveis, como sua reação em O Rei Perverso, ao descobrir que Jude o manipulou politicamente ao colocar Cardan no trono, ou como o momento em A Rainha do Nada em que ele literalmente a mata —, ainda assim é possível ver momentos em que genuinamente Madoc se arrepende da sua natureza violenta de barrete vermelho e mostra o quanto ama as meninas que reconhece como seu próprio sangue, mesmo sendo filhas de outro homem.
Eu sei, eu sei. Se você não leu a trilogia, vai achar tudo isso que tô escrevendo aqui como um grande absurdo. Mas leia os livros, caro leitor. Leia e forme sua própria opinião, e depois volte aqui pra me dizer se concorda ou não com meus comentários.
A cena que Madoc mata Jude, inclusive, ecoa o prólogo do livro 1: Madoc persegue a filha e grita “Não fuja de mim!”, a mesmíssima frase que disse para Eva antes de matá-la; e é nesse instante que Jude faz a escolha que define quem ela se tornou: ela não foge. Se for morrer, morrerá lutando. Não como sua mãe, mas como ele, seu pai. E ainda assim existe algo entre eles que não se rompe.
“Curvo a cabeça para você — e só para você.” — Madoc para Jude em A Rainha do Nada (livro 3)
Nesta cena, o que está sendo concedido ali não é apenas rendição política, mas reconhecimento. Talvez, pela primeira vez, Madoc veja a própria como igual. E, de forma profundamente distorcida, isso é tudo o que Jude sempre quis.
“— O que você fez?
— Envenenei você. Mas não se preocupe. Foi uma dose bem pequena. Você vai sobreviver.
— As taças de vinho — compreende ele. — Como sabia qual eu escolheria?
— Não sabia — confesso. — Envenenei as duas.” — Diálogo entre Jude e Madoc em O Príncipe Cruel (livro 1)
Vivi Duarte e Heather. Arte por Quinndomania. Fonte: Pinterest.
A outra irmã Duarte e sua (irônica) humanidade
Se Jude representa a filha que se aproxima perigosamente de Madoc, Vivienne opera como sua contraposição mais irônica, e talvez mais reveladora. Sendo a única filha biológica de Madoc e a única verdadeiramente feérica entre as irmãs Duarte, seria esperado que Vivi fosse aquela que melhor se integrasse à lógica de Elfhame. O que ocorre, entretanto, é exatamente o oposto: ela é a que mais rejeita esse mundo.
Essa rejeição não é gratuita, nem superficial. Diferente de Jude e Taryn, Vivi era mais velha no momento do assassinato dos pais e, portanto, possui memória afetiva e compreensão emocional suficientes para entender a dimensão da violência cometida por Madoc. Ela não apenas presencia o crime — ela o interpreta. E, em resposta, estabelece uma ruptura radical: promete ao pai biológico que nunca o perdoará e que sempre o odiará. Em um universo onde palavras têm peso e promessas possuem consequências mágicas, essa declaração não deve ser lida apenas como expressão emocional, mas como um vínculo que molda suas possibilidades futuras. Ainda que Vivi pudesse, em outro contexto, ressignificar essa relação, há uma leitura bastante consistente de que essa promessa a fixa nesse lugar de rejeição permanente. Uma vez que um feérico promete algo, ele TEM que cumprir essa promessa até o fim de sua longa vida. Muita gente no fandom acredita que esse é o caso com Vivi, e eu sou uma delas.
É nesse ponto que a personagem se torna particularmente interessante, porque sua recusa ao mundo feérico não a torna imune a ele.
Vivi deseja ser humana. Deseja pertencer ao mundo do qual foi arrancada ainda criança. Essa aspiração se manifesta de forma concreta em sua relação com Heather, uma jovem humana por quem ela se apaixona. No entanto, o modo como Vivi constrói essa relação revela uma contradição fundamental: embora queira amar como humana, ela age como quem é — uma feérica. Mente, omite, manipula informações e conduz a relação através de meias verdades — não por malícia gratuita, mas porque esse é o repertório que aprendeu dentro de Elfhame e, mais especificamente, sob a influência de Madoc e seus amigos de escola — o príncipe Cardan e sua trupe.
O confronto com Jude evidencia essa tensão de forma particularmente precisa. Ao ser questionada sobre suas escolhas, Vivi é forçada a encarar o fato de que não é possível reivindicar uma ética humana enquanto se reproduzem práticas essencialmente feéricas. Amar, nesse contexto, exige mais do que intenção — exige ruptura com o modo como se aprendeu a sobreviver. E é justamente aqui que Vivi se diferencia das demais.
Ao contrário de Madoc, que jamais altera sua natureza, e de Jude, que a internaliza para sobreviver, Vivi demonstra disposição real para mudança. Sua trajetória aponta para um movimento consciente de adaptação: ela tenta, deliberadamente, reconstruir sua forma de se relacionar, abandonar os jogos de poder e aprender a estabelecer vínculos baseados em transparência e escolha, ainda que isso lhe seja, estruturalmente, mais difícil.
Há, portanto, uma ironia central na personagem: Vivi é a única feérica de sangue entre as irmãs, mas é também a única que busca, ativamente, não agir como tal. E, ao fazer isso, evidencia um dos pontos mais sofisticados da construção de Holly Black — a ideia de que pertencimento não é determinado apenas pela origem, mas pelas escolhas que se fazem dentro (ou apesar) dela.
Cardan Greenbriar, o príncipe cruel. Arte por Frostbite Studios. Fonte: Pinterest.
Cardan Greenbriar e a desconstrução do “bad boy” como arquétipo
“Ele será a destruição da coroa e ruína do trono.” — A Rainha do Nada (livro 3)
Poucos personagens do YA contemporâneo são tão mal compreendidos quanto Cardan Greenbriar. Paradoxalmente, ele foi reduzido a estereótipos opostos: ora apresentado como “um vilão imperdoável” por quem rejeita a complexidade moral de Elfhame, ora como “o coitadinho bonzinho” por leitores que romantizam sua submissão emocional tardia. Ambos os extremos ignoram a construção literária sofisticada do personagem, que não se enquadra nem no arquétipo do “bad boy” humano, nem na narrativa de redenção clássica.
A primeira chave interpretativa de Cardan é óbvia, mas frequentemente negligenciada: ele não é humano. Ele não compartilha a moral, a ética, nem o paradigma emocional dos protagonistas humanos do YA. Ele é um feérico aristocrata — e isso implica que ele é formado por códigos sociais baseados em poder, estética e crueldade ritualizada. Cardan não imita a maldade humana; ele reproduz um sistema feérico onde violência é cultura, e desprezo é linguagem política.
Se o título do primeiro livro é O Príncipe Cruel e o segundo é O Rei Perverso, não se trata apenas de provocação comercial; é o reconhecimento de que Cardan aprendeu a sobreviver performando a crueldade que o cercava. Sua infância abandonada e emocionalmente negligenciada não o transforma em um “bad boy com passado obscuro”, mas em um aristocrata que converteu a própria vulnerabilidade em sarcasmo, o afeto em dissimulação e a necessidade de amor em omissão emocional. Ele internalizou o princípio maquiavélico não como estratégia política consciente, mas como instinto de sobrevivência: é mais seguro ser temido do que ignorado.
Ao contrário de outros “bad boys” populares, Cardan não mente para manipular, ele omite. A omissão, em um universo onde fadas não podem mentir, é tanto ferramenta narrativa quanto dispositivo de poder. Sua retórica é construída de lacunas, ambiguidades e meias verdades — e sua manipulação não está no que ele diz, mas no que se recusa a dizer. Ele reivindica um lugar narrativo único: um manipulador que usa o silêncio como arma.
“— Já comentei sobre o quão horrorosa você está esta noite?
— Não. Me conte.
— Não posso.” — Diálogo entre Cardan e Jude em O Príncipe Cruel (livro 1)
Outra camada frequentemente simplificada é sua sexualidade. Cardan possui interesse e histórico afetivo-sexual tanto com feéricos masculinos quanto femininos, sem fetichização, sem moldura traumática e sem necessidade de justificativa.
Cardan é canonicamente bissexual, e isso não é um adorno identitário: é uma parte orgânica da vida de corte, onde o corpo do príncipe — belo, objeto, desejado e desprezado — se torna uma extensão de seu papel político e ornamental. Sua sexualidade é, portanto, mais política que romântica. E eu nunca vejo ninguém comentar sobre isso no fandom. Ou ignoram completamente, porque aí têm de lidar com o fato de que ele não é o “cara másculo” que idealizam em toda maldita fantasia/romantasia, ou simplesmente negam esse fato.
Dizer que Cardan “não é vilão”, porém, também não basta. Ele não é o antagonista ético da narrativa, mas tampouco é moralmente admirável. Ele é um personagem limítrofe, que encarna o paradoxo aristocrático: ele reproduz o sistema que o puniu, enquanto é simultaneamente uma vítima dele. Sua crueldade inicial não é sadismo, é educação. Sua sensibilidade posterior não é pureza, é escolha.
Ao final, o que o torna fascinante não é o amor que ele oferece a Jude, mas a forma como esse amor desestabiliza a ideia de superioridade feérica que herdou. Sua famosa confissão não é romântica; é um colapso de máscara:
“Passei a maior parte da vida protegendo meu coração. Protegi tão bem que me comportava como se não tivesse um. Mesmo agora, é uma coisa mequetrefe, comida de traças e escabrosa. Mas é seu.” — Cardan para Jude em A Rainha do Nada (livro 3)
Não há pureza nessa entrega, apenas sinceridade brutal. Cardan não se torna “bom” por amar Jude. Ele se torna vulnerável, e em Elfhame, vulnerabilidade é um ato político. Se Jude governa com estratégia e violência, Cardan governa com exposição e jogo de palavras. São dois caminhos de poder que se encontram — não para se redimir, mas para coexistir com ferocidade e lucidez.
Isso, mais do que o romance, é o verdadeiro triunfo desta trilogia.
Cardan* e Jude. Arte por Frotsbite Studios. Fonte: Pinterest.
*E sim, Cardan é espalhafatoso. Ele tem traços delicados, ele usa maquiagem e se adorna de jóias, e usa roupas extravagantes. Quer o fandom queira ou não, terão de lidar com o fato que, canonicamente, Cardan não é o cara fortão e másculo ou heteronormativo que se espera de um macho romantasia. Eu amo Holly Black por adicionar uma camada de queerness⁹ nesse personagem.
O elefante na sala: o passado de Cardan e Jude
É importante entender, caro leitor, que a análise que estamos fazendo aqui, no entanto, só se sustenta plenamente quando se reconhece um ponto que o fandom frequentemente tenta suavizar ou usar como argumento para crucificar o personagem: Cardan é, sim, cruel com Jude — e Jude tem medo dele durante uma parte significativa da narrativa.
Esse medo não é exagero narrativo nem paranoia de uma narradora não confiável. Ele é consequência direta de um ambiente onde violência simbólica e física são instrumentos legítimos de hierarquia social. Cardan humilha, intimida, expõe e, em determinados momentos, participa ativamente de situações que colocam Jude em risco real — especialmente quando associado a figuras como Valerian e Nicasia. Ignorar isso em nome de uma leitura romantizada do personagem não é apenas uma simplificação, é uma distorção.
Ao mesmo tempo, reduzir essa crueldade a sadismo puro também falha em compreender sua função dentro da construção do personagem. Cardan não apenas exerce poder; ele performa poder. E essa performance nasce de um lugar muito específico: sua própria posição dentro da hierarquia feérica. Filho negligenciado, constantemente humilhado e criado sob a influência direta de Balekin, Cardan aprende desde cedo que afeto não é recompensado — crueldade é. O pouco reconhecimento que recebe de Lady Asha está condicionado à sua capacidade de reproduzir exatamente esse comportamento. Nesse contexto, sua relação com Jude se torna inevitavelmente contraditória. Porque, desde o início, há indícios — sutis, mas consistentes — de que ela o desestabiliza. Jude não deveria existir naquele espaço, muito menos competir com ele dentro dele. E, ainda assim, ela o faz. Com inteligência, com habilidade, com uma disciplina que expõe, de forma quase cruel, as falhas dele próprio.
Cardan, então, responde como aprendeu: ele a despreza; ele a provoca; ele tenta reduzi-la ao lugar que o sistema diz que ela deve ocupar. Mas há algo que escapa dessa lógica: mesmo em meio à hostilidade, ele estabelece limites. Interfere — ainda que de maneira indireta — em momentos críticos, como na cena em que Jude é forçada a consumir fruta feérica, e mais tarde revela a punição de Valerian por parte do príncipe pelo ocorrido. Tenta alertá-la sobre Locke e Taryn, ainda que o faça através de ambiguidades e omissões que dificultam qualquer leitura imediata de proteção. Nada disso absolve seu comportamento, mas complexifica.
O que se estabelece entre Jude e Cardan não é apenas uma rivalidade pessoal, mas sim uma tensão estrutural entre duas formas de poder. Há ali um conflito de espécie, sim, mas também um conflito político: dois indivíduos tentando afirmar controle dentro de um sistema que os moldou de maneiras diferentes, mas igualmente violentas. É por isso que classificá-los de maneira rasa como um “casal tóxico” é insuficiente. Jude e Cardan, na minha visão, são o único “enemies to lovers”¹⁰ que realmente seguem a lógica desse tropo literário.
Eles não começam como adversários por mal-entendidos ou orgulho ferido. Eles começam como inimigos legítimos, inseridos em uma lógica onde humilhação, manipulação e risco de morte fazem parte do jogo. E, ao longo da trilogia, ambos participam ativamente dessa dinâmica. Cardan não é o único a ferir — Jude manipula, trai, controla e instrumentaliza Cardan politicamente, inclusive colocando-o no trono contra sua vontade, plenamente consciente de que isso o expõe a riscos que ele sempre evitou. Não há inocência de nenhum dos dois lados, e é justamente isso que torna a relação funcional dentro do universo de Elfhame.
O que se constrói entre eles não é redenção no sentido clássico, mas adaptação mútua. Cardan, ao se envolver com Jude, é forçado a confrontar — e eventualmente flexibilizar — sua própria visão de superioridade feérica. Jude, por sua vez, aprende que poder não precisa ser exercido apenas através de controle e antecipação, mas também através de confiança, ainda que essa confiança seja, para ela, quase antinatural.
Há, inclusive, uma ironia central que atravessa toda a relação: Cardan, por ser feérico, é incapaz de mentir — e, ainda assim, Jude nunca confia plenamente nele. Jude, sendo humana, pode mentir livremente — e, ainda assim, é nela que Cardan deposita uma confiança quase absoluta.
O que emerge disso não é um romance idealizado, mas uma parceria política e emocional construída em um terreno profundamente instável — e, justamente por isso, convincente. Dentro de Elfhame, eles não são disfuncionais; são eficazes.
Talvez seja esse o ponto que mais escapa a leituras superficiais: o relacionamento entre Jude e Cardan não suaviza a brutalidade do mundo feérico — ele funciona porque é moldado por ela.
“...E, no entanto, meu coração está enterrado com você no estranho solo do mundo mortal, assim como se afogou com você nas águas frias do Reino Submarino. Era seu antes mesmo que pudesse admitir, e seu para sempre permanecerá.” — Carta de Cardan para Jude (carta, esta, que ela nunca pôde ler) em O Rei Perverso (livro 2).
Jude e Cardan. Arte por Marley Honeyypears. Fonte: Pinterest.
E sim, Cardan também tem um rabo. Lidem com isso. O personagem não é humano!
⭐⭐⭐⭐⭐🌟 Nota final: 1000 estrelas.
Eu diria pra me levarem para Elfhame imediatamente, mas… pensando bem, deixa pra lá rs.
Holly Black não oferece um conto de fadas. Ela oferece um estudo político sobre poder, violência e subjetividade feminina dentro de sistemas opressores, e constrói tudo isso de maneira muito gostosa e didática, tendo em vista que o gênero da trilogia é Young Adult, então todos os temas são mais suavizados — mas jamais pincelados de maneira rasa ou superficial — para o público-alvo, que é um público mais jovem (12 a 18 anos, se não estou enganada). Se Black escreve bem assim e é capaz de criar personagens, tramas e subtramas tão envolventes, não consigo imaginar o baque que seria se ela lançasse uma versão NA (New Adult)¹¹ da história, aprofundando a política e os temas sensíveis.
O Povo do Ar é importante não apenas por seu sucesso popular, mas por sua contribuição ao YA como espaço onde a fantasia pode discutir ideologia, violência estrutural e agência feminina sem infantilizar o leitor; e, ao mesmo tempo, introduzir ao público mais jovem uma leitura gostosa que pode abrir portas para leituras mais densas de outros livros de fantasia e/ou romantasia.
Elfhame não existe para ser amado. Existe para ser enfrentado, e Jude enfrenta.











