Caverna
como podemos sair dela?
Recentemente, terminei um livro que devo ter começado há uns dois meses. Não é que a narrativa seja ruim - ela é realmente muito boa -, mas foram muitas mudanças nos últimos tempos, como até mesmo a saída do trabalho.
O exemplar se chama Temporada de cura no ateliê Soyo. Trata-se da história de Jeong-min, uma jovem roteirista que deixou seu emprego após o esgotamento profissional e se isolou em casa por um tempo, até que um dia resolveu sair um pouco e encontrou, por acaso, um ateliê de cerâmica.
O enredo se passa, em sua maioria, no ateliê, local em que ela faz amigos e se permite tentar algo novo. É muito interessante o seu processo interno de entendimento sobre o mundo e as pessoas, a sua construção de amizades, as feridas do passado e como elas impactam o presente - e até mesmo o olhar para o futuro, quando não temos muita certeza sobre nada.
Uma amiga de Jeong-min, no passado, sempre a mencionava como uma garota que vive na caverna. Afinal, ela tem o hábito de se isolar e viver no seu espaço. Fiquei refletindo sobre isso.
Aqui entre nós, eu sinto que vivo em uma caverna - apesar de fazê-la pública algumas vezes, como agora. A verdade é que passo muito tempo no meu quarto. Demorei muitos anos para ter um quarto só meu, porque sempre dividi com a minha irmã ou com as minhas sobrinhas.
Em 2021, após o meu esgotamento, decidi que faria algumas mudanças naquele espaço. Comprei uma mesa nova, um armário novo, pintei e dei um novo ar ao ambiente. Ficou confortável. É o meu espaço no mundo: eu, meu computador, a escrita e até mesmo a minha cama.
De certa forma, ainda nesse período de 2021, com a pandemia, também me afastei das pessoas por cuidado. Acontece que retomar esse contato não tem sido fácil para mim.
Eu tinha um combinado com a minha psicóloga de tomar um café com alguém pelo menos uma vez por mês - até para eu sair da minha caverna, se podemos chamá-la assim.
Com o meu retorno ao mundo corporativo, no último ano, comecei a sair mais, ainda que de forma obrigatória. Foi interessante encontrar pessoas, ruim mesmo era o transporte público. Mas isso é outro papo.
Pois bem, voltando ao assunto de sair da caverna, no começo do ano fiquei pensando que nunca tive a oportunidade de tirar férias para aproveitar o tempo de uma forma diferente - não apenas para fazer exames ou resolver burocracias.
Foi quando decidi fazer, em outubro, uma viagem para Porto Alegre. De certa forma, um lugar no Brasil e não tão distante assim. Seria a minha primeira viagem sozinha e a minha primeira viagem de férias sem trabalhar (que estranho falar isso).
A viagem começou ontem. Na verdade, para mim, ela começou há algumas semanas, porque, por muitas vezes, pensei em cancelar. Ficar no meu quarto seria mais confortável.
Porém, eu não cancelei e entrei ontem no avião em direção ao meu destino. Bom, fazendo uma análise rápida, o aeroporto é muito assustador. São muitas pessoas ao mesmo tempo, com seus destinos e sonhos nas bagagens.
Pode ser apenas uma questão da minha cabeça, mas me sinto muito julgada no aeroporto, especialmente por não fazer ideia de onde fazer o check-in, onde seria o portão do voo, entre outras coisas.
Eu estava na fila do raio-x, e um grupo de mulheres estava à minha frente. Imagino que, como eu, também estivessem confusas e não tivessem muito conhecimento sobre como ir, quando ir, o que colocar na bandeja.
Um homem que estava atrás de mim basicamente cortou a fila e foi para uma esteira. Eu o segui. Trocamos olhares como quem diz: “eu sei que você cortou a fila”. Com um pouco de raiva, ele pegou três bandejas e começou a tirar seus itens da mala com uma certa agilidade, o que me fez pensar o quanto ele deve estar acostumado a fazer isso.
Eu também tirei meus itens. Nos inúmeros vídeos do TikTok, aprendi o que deveria colocar na bandeja. Me antecipei em alguns aspectos - fiz quase um preparatório, digamos assim.
Ao chegar em Porto Alegre, fui pegar as bagagens: uma que eu havia despachado por livre e espontânea vontade e a outra que me obrigaram, digamos assim. A que fui obrigada não tinha nenhuma sinalização, pois não estava preparada para isso. O resultado foi pegar a mala de outra pessoa achando que era a minha. Mas tudo bem, entendemos que foi apenas uma confusão.
Finalmente, encontrei as duas malas e fui em direção ao táxi. Conheci o Silvio (que também é Silvio Santos), que, com bom humor, me levou até o meu destino. Conversamos um pouco, ele me contou que perdeu tudo nas enchentes do ano passado e falou sobre a reorganização da cidade. Combinei que voltaria com ele para o aeroporto daqui a alguns dias.
Deixei minhas coisas no apartamento e fui almoçar. Começou a chover e eu não estava preparada para isso. Entrei em um restaurante que me pareceu legal e com lugares disponíveis - pois os demais estavam em sua capacidade máxima - e descobri que era um rodízio de massas. Mas eu realmente como muito pouco.
Sem jeito, fiquei lá porque o recepcionista foi realmente um querido. Pensei: “está chovendo e tem sobremesa no rodízio, vou ficar”. Fiquei.
Fui ao mercado, comprei meu kit de sobrevivência, que inclui bisnaguinhas, toddynho, torradas e danone. Voltei ao apartamento, tomei banho e comecei a me sentir insegura. A cada barulho no corredor, meu coração acelerava. Eu queria a minha caverna.
É muito ruim a sensação de estar sozinha em um lugar novo e ser mulher. Se eu fosse homem, já teria percorrido um pouco mais as ruas por aqui. Fico projetando cenários - o que eu faria se fosse abordada, se devo levar o meu “celular de ladrão”, se devo levar algum livro para ler em algum lugar. São tantos pensamentos que me deixam longe daqui.
Acordei um pouco melhor. Vi que não estava chovendo e fui tomar um café. Foi rápido: eu comi, voltei ao apartamento e comecei a escrever, porque eu precisava disso. Agora estou criando um pouco de coragem para viver o restante da semana e do dia.
Sair da caverna requer muita energia. Meu corpo está quebrado, e sinto dores em tantas partes - inclusive no meu dedo, que machuquei ao tentar acertar um pernilongo.
Mas eu estou indo. Como disse ontem em um post, estou genuinamente tentando. Estamos, na verdade.
E talvez a vida seja sobre isso.
Sobre genuinamente tentar.


"É muito ruim a sensação de estar sozinha em um lugar novo e ser mulher." Se você soubesse como eu me identifico com essa frase.... Mas Joice, acho que você já sacou tudo: é sobre genuinamente tentar, e você está fazendo isso neste exato momento. Tenho certeza que hoje encerrarás o dia de um jeito bem diferente de ontem, e quando você menos esperar o Silvio Santos já estará te levando para o aeroporto de volta. Mas antes disso, muitas histórias e momentos legais a compartilhar!
Oii bem vinda! É meio assustador chegar numa cidade diferente como mulher e não saber aonde ir ou como ir ou se pode ir. Moro em Porto Alegre desde que nasci, se quiser dicas ou informações sobre o teu entorno, quão seguro é, etc. Algumas sugestões: a Orla do Guaíba é muito agradável para fazer uma caminhada em dias de sol e o Museu Iberê Camargo é uma preciosidade que vale a pena conhecer (andar por ele já é muito legal, tu começa subindo no quarto andar de elevador e vai descendo os corredores curvos)