Girassóis
e os pequenos prazeres ao viajar
Nas férias de julho eu, N. e João fomos à Holanda. Foi uma viagem cuidadosa e carinhosamente planejada.
Por que Holanda
Eu e João conhecemos a Holanda em 2015, no mesmo ano em que noivamos. Ele ficou 6 meses em Leiden (Leida, em português), mais especificamente, e eu o visitei por um mês inteiro. De alguma forma, temos para nós que Leiden faz parte da nossa história como casal.
Nós nos encantamos com a cidade à primeira vista, embora tenhamos visitado outros lugares (e pasmem, Amsterdam é a cidade que, decididamente, menos gostamos). Leiden, então, passou a ser nossa cidade favorita da vida, e a saudade cresceu. Juntamos nossas economias e decidimos que era hora de levar a melhor parte da nossa história (nosso filho) para conhecer outra parte linda da nossa história: nossa cidade favorita.
Junte a isso o fato de que a Holanda é um país plano, muito fácil de caminhar. Nosso filho já deixou o carrinho pra trás definitivamente no ano passado, e de forma a incentivá-lo a andar mais, a Holanda parecia uma boa opção. Achei a experiência, nesse ponto também, muito positiva.
Assim, saindo do clichê de ficar em Amsterdam, decidimos nos hospedar em Leiden.
Por que se hospedar em Leiden
Nos hospedamos em Leiden por vários motivos: ela é muito mais tranquila e fácil de se locomover do que Amsterdam, e fica a apenas 15 min de trem do Aeroporto Schiphol. Além disso, os preços de hotéis em Leiden são muito mais baixos (#ficaadica), e a cidade tem toda a beleza de Amsterdam sem a pior parte de Amsterdam (se é que vocês me entendem: grande centro urbano, trânsito, muito mais turistas, e preços inflacionados). Aliás, Leiden é conhecida como “Little Amsterdam”. Pela facilidade de ir a Amsterdam também (até o centro são 30 min de trem apenas), montamos nossa programação de forma que pudéssemos desfrutar da calmaria e beleza de Leiden, mas também nos aventurar pela agitada capital e outros lugares.
E como apreciadores das obras de Van Gogh, uma das coisas que havíamos planejado fazer era visitar o Museu do Van Gogh, em Amsterdam. O único porém é que, desde que nos tornamos pais, eu e João não somos muito afeitos de programações com horários agendados, porque todo dia é uma caixa de surpresas. Infelizmente, o museu só vende ingressos antecipadamente (online) e com hora agendada para ingresso, sendo tolerado apenas 30min de atraso. Decidimos encarar.
No dia que agendamos para irmos ao museu, o jet leg bateu com força, e nosso filho, que teve de ser acordado para não perdermos a hora, com toda razão, acordou bem mal humorado.
Os Girassóis de Van Gogh
O passeio no Museu do Van Gogh, porém, ocorreu bem dentro das minhas expectativas. Apesar de comportar o maior acervo de obras do artista neerlandês e ser incrível estar ali pessoalmente, é facilmente previsível que crianças menores de 6 anos se entediem mais rápido. Como eu e João já havíamos visitado o museu em 2015, eu estava bem tranquila com relação a o quê, de fato, conseguiríamos ver do museu. Ao todo, são 4 andares, e conseguimos ver apenas 2. Ficaram de fora o último andar (que eu sei que tinha obras bem interessantes também), e o piso do subsolo, onde ocorre as exibições temporárias. Mas conseguimos ver algumas das obras mais famosas, como um dos Girassóis e o Quarto em Arles.
Por outro lado, fiz uma coisa inédita na minha vida, graças ao meu filho. No museu, eles disponibilizam papel numa prancheta de papelão e um lápis, para quem quiser desenhar. E havia muita gente desenhando (na foto acima, no canto direito inferior dá para ver parte de uma dessas pranchetas, com alguém desenhando os girassóis), mas provavelmente são pessoas que vão a museus para estudar técnicas e tudo mais e levam a arte como um verdadeiro ofício ou um hobby ambicioso.
Mas então N. pediu pelo papel e lápis, e achei que ele fosse desenhar. Porém, ele queria que eu desenhasse. Não vou mentir e não estou usando de falsa modéstia. Eu não sei desenhar. Eu desenho como uma criança que nunca foi incentivada a se aprofundar nos desenhos e ponto. Mas fiz como N. pediu. Aguardamos um espaço no banco vagar para nos sentarmos, e eu me pus a “desenhar” o Flying Fox (1886), uma das obras que eu havia acabado de fotografar e mostrar a N., numa tentativa de tornar o passeio mais lúdico.
Nunca imaginei que eu desenharia num museu, muito menos num tão incrível como o de Van Gogh. Mas acabou sendo uma das coisas que mais gostei de fazer na viagem, mesmo que tenha durado alguns minutos.
Nosso filho também, se perguntado, diz que o que ele mais gostou na Holanda, foi de ter ido ao Museu do Van Gogh, mesmo ele tendo nos apressado a ver rapidamente os dois andares e a sair logo do museu e a princípio ter se recusado a almoçar por lá. Me pergunto se essa predileção toda por esse passeio em específico foi justamente por causa do nosso tempo sentados juntos desenhando. Ah sim, embora eu tenha realizado a maior parte do “desenho”, ele atribui boa parte do feito a si, ainda que ele tenha de fato só pintado um pouco. Mas eu o deixo levar o crédito total, não pela qualidade duvidosa da “obra” em si, mas porque, realmente, nada disso teria acontecido não fosse pela insistência dele. Obrigada, filho.
Durante o trajeto até o museu, porém, no transporte público, João derrubou a bolsa com a câmera, e só depois de sairmos do museu ele percebeu que isso havia prejudicado o encaixe da lente. Isso fez nosso passeio por Amsterdam naquele dia acabar ali mesmo, e acabamos voltando para Leiden. Não fiquei chateada, muito menos N., porque estávamos cansados. Já no hotel, mais tranquilos e com os pés mais descansados, João encontrou um lugar que poderia consertar a câmera e também onde havia um café próximo para irmos enquanto aguardávamos o suposto conserto.
Caminhamos até o local, e estava momentaneamente fechado, solicitando aguardar uns 15 min pelo retorno do atendente. Nosso filho acabou dormindo durante o trajeto, e eu e João nos revezamos carregando-o no colo. Com ele dormindo e a loja fechada, fomos ao café (Chummy-Coffee), onde me sentei e peguei N. no colo.
Novamente os Girassóis
Acho que a sensação que tive naquela cadeira foi uma das lembranças mais fortes dessa viagem (e até por isso decidi compartilhá-la aqui). Era um desses cafés charmosinhos, mas sem parecer intimidadoramente elegante, onde nos sentamos em cadeiras na calçada e o tempo estava bom, nem frio nem calor. Na mesinha, lindos girassóis com seu amarelo vibrante me encheram de alegria. A vista em nosso entorno era linda e aconchegante e a tranquilidade, enorme. Pedi um chá gelado e um bolo de amêndoas, e João um cappuccino. Quando terminou sua bebida, ele se dirigiu à loja, que já deveria ter reaberto, e eu permaneci ali sentada, com nosso filho nos braços e as pernas (já longas e nada semelhantes às de um bebê) esticados sobre uma banqueta, aguardando João retornar.
Que sensação maravilhosa aquela, de entender o privilégio de poder só relaxar e curtir o momento, sem medo nenhum, de estar ali, sozinha, com uma criança pesada em meus braços, um celular totalmente exposto e uma mochila volumosa jogada na outra cadeira, sem que eu nem pudesse segurá-la.
Na minha frente, pessoas passavam caminhando, pedalando, sem parecer também apressadas, e ignoravam minha presença, como se eu fosse um elemento natural da paisagem. Olhando um pouco mais adiante, podia ver a viela por onde havíamos chegado, toda enfeitada acima com flores, e atrás de mim, outra viela com um poema de Pablo Neruda estampado, e onde mais pessoas como eu estavam encostadas, sentadas bebericando, mas também jogando conversa fora, despretensiosamente.
Houve outros pequenos momentos como esse na viagem para mim, mas que vão ficar guardados apenas para mim, para poupá-los da extensão de um longo texto. Sei que, se depender de mim, tê-los vivido, junto ao meu filho e João, ainda que tenhamos percorrido uma enorme distância para experimentá-los, fizeram toda a viagem ter valido a pena.
Ah sim, quanto à câmera, só para concluir a ideia, era apenas um parafuso que havia se soltado um pouco, e o atendente apertou rapidamente e não cobrou nada. Havíamos já suposto que algumas economias não planejadas saíssem dos nossos bolsos naquele dia, mas esse desfecho também não poderia ter sido mais feliz.








Se o título desse texto já era o suficiente para me deixar encantada, a leitura dele foi como um abraço. Holanda está no radar de destinos por aqui e ler cada linha do que você compartilhou só fez crescer a vontade. Obrigada por compartilhar dicas-experiências-vivências!