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Em filmes, livros e outras coisas mais
Compartilho alguns filmes que talvez valham a pena ver ou rever, além de outras coisinhas mais que me acompanharam esse ano.
Cine
Love lies bleeding. Estou apaixonada por Kristen Stewart, como já comentei aqui antes. Acho que a última vez que senti essa adesão juvenil ao polo masculino/masculinizado de um filme romântico numa sala de cinema foi assistindo Leo di Caprio em Romeu e Julieta. É absolutamente adorável como Stewart subverte ao mesmo tempo em que rende tributo a uma galeria de personagens masculinos que compõem os sexy, românticos e violentos duetos do macho pau-pra toda-obra e mocinha ciclotímica- True Romance, The Gateway, Natural Born Kiilers, Out of sight, só pra citar alguns. Estão ali todos os signos-fetiche da masculinidade: o silêncio, o suor, o cabelo ensebado, o cigarro, o temperamento e obviamente a capacidade de resolver todo e qualquer os B.O., com talento particular para a ocultação do cadáver. Mas está o elã sobrenatural dela, curtocircuitando tudo. Katy M. O’Brien desempenha um papel crucial nessa subversão porque, como fisiculturista, ela tampouco encarna a mocinha fragilizada. Aqui é ela que é sem passado, e trata de, digamos assim, esculpir o presente no próprio corpo, o que me fez pensar em transições num sentido mais amplo que aquela da transgeneridade. Mais do que bagunçar os papéis, o duo os explode. Ed Harris com seu charme habitual e corte cabeludo-careca peculiaríssimo é quem está lá pra testemunhar.
O dia que te conheci. Hoje em dia tem aquele adágio que diz algo como "preferia não saber ler/ver" diante de algo, na maior parte das vezes, constrangedor. Pois o filme do André Novais realiza esse desejo: o filme dele é todo um reaprendizado do olhar. Parece mesmo que você tá vendo as coisas pela primeira vez: um armário de madeira barato e bagunçado, uma luz econômica fria, uma caixa cheia de caixas de remédio e as duas versões do Michael Jackson (o negro e o branco), além de claro, um casal absolutamente banal, tendo uma conversa absolutamente banal, caminhando por locações banais, ao som de sofisticada música orquestrada do cinema clássico, transformando um encontro num milagre.
Malu. Parece John Cassavetes, o que não é necessariamente um elogio, porque eu particularmente não sou muito entusiasmada pela filmografia cassavetiana. Prefiro mil vezes o Cassavetes sendo o marido obscuro de Rosemary, mãe do infame baby que, como se sabe, tem outro pai. Mas isso aí é outra história. Como meu gosto é bastante duvidoso (vide ter passado 40 anos esnobando o Almodóvar, não curtir a Bethânia e nem o teatro), nada disso quer dizer muita coisa. A semelhança com Cassavetes, mais que elogio ou detração, é porque Pedro Freire me fez ver algo aqui que o próprio Cassavetes não conseguiu me mostrar em Gena Rowlands: a teatralização direta dos corpos no gesto. Deleuze fala na verdade do gestus como o enlace entre as atitudes por si mesmas, sem uma história prévia, mas profundamente social. Sobre o gestus em Cassavetes, ele emenda: um processo que desfaz não só a história, a intriga e a ação, mas o próprio espaço, para chegar às atitudes como às categorias que introduzem o tempo no corpo, tal como o pensamento na vida. Comolli, por outro lado, fala de Cassavetes em termos de cinema revelação: personagens que se constituem gesto a gesto, palavra a palavra, fabricando a si mesmas à medida que o filme avança. Freire revela em Malu os três corpos tristes teatralizados que secretam a história de três gerações de mulheres numa casa que nem se fez porque já nasceu ruína. Através delas, dos seus gestos, chegamos a essa estranha temporalidade do cansaço que imprime o tempo no corpo. Chiaroscuro barroco lançado sobre o cansaço ancestral no rosto de Carol Duarte continua assombrando dias depois.
Queer. O anacronismo desse filme é, claramente, um refresco. A começar por seguir o calvário de um seduzido, numa era de sedutores. Seduzido obcecado a la Morte em Veneza, pelo marinheiro, uma persona sexual igualmente anacrônica. À diferença de Morte, no entanto, trata-se de negociação entre dois adultos, que não exclui a dimensão mercantil. Depois, Queer é anacrônico pela sequência em tempo real de um intercurso sexual com direito à snowballing, e pela mistura de estilos arquitetônicos e musicais, criando uma estranha e agradável continuidade entre eles: o bistrô berlinense e o cabaré que parece saído da República de Weimar transportados para a Cidade do México dos anos 50 recriada na Cinecitá romana, a desolação noturna do adicto embalada pelo pós-punk do New Order. Soma-se a esse conto de desejo, obsessão e especialmente, desamparo, o artificialismo do neon noir dos anos 80, a dança contemporânea dos belos corpos masculinos se fundindo e voilà: Guadagnino faz até as viagens alucinógenas intragáveis de William Burroughs virarem um deleite pros sentidos. P.S. Festinha com Omar Apolo, Lisandro Alonso, Jason Schwartzman, Trent Reznor, Atticus Ross e Caetano Veloso ao som de Prince, Nirvana, Radiohead e New Order: disputo o convite a tapa. E finalmente: a alfaiataria em linho branco deveria ser obrigatória.
Ainda estou aqui. Tenho muitos problemas com histórias de ascensão e queda porque a parte da queda me entedia profundamente e com Ainda estou aqui não seria diferente. Mas confesso que o tédio com as enormes e protocolares elipses é aliviado pelo prazer de ver Fernanda Montenegro numa das mais comoventes atuações do ano. Uma cena que dura segundos e que se sustenta num olhar. O rosto é o afeto inserido no filme, disse o Deleuze e esse filme veio me lembrar. Quanto à parte que me entusiasma, a ascensão, Fernanda Torres naturalmente ilumina com sua interpretação em tom menor nos lembrando da dignidade da contenção. Construir um filme tão carregado de sentido extradiegético a partir de uma casa, seus sons e silêncios, suas luzes e sombras, fechamento e abertura das portas, deslocamentos e hábitos é para muito poucos.
Outros excelentes filmes de 24 foram comentados em entradas anteriores: Challengers, Last Summer, Room Next Door.
Podcast
Eu não sei vocês, mas aparentemente eu escuto entre 60 mil e 80 mil minutos anuais de audio no spotify. Parte disso é dedicado aos podcasts. Acho que o podcast repôs uma rotina que antes correspondia à grade horária televisiva. Essa rotina do broadcasting me comove porque me faz sentir pertencente a um tempo. Eu acordo e já penso na grade semanal de podcasts. Em 2024 não teve pra ninguém: 60 songs that explain the 90's - the 00's, do Rob Harvilla reinou absoluto. Ele mergulha fundo na memória afetiva que as músicas evocam, fica obcecado com determinadas pronúncias, cadências, vocabulários, signos, faz analogias muito improváveis, quando não, cria matrizes estéticas inteiras igualmente improváveis, fundadas no seu conhecimento profundo de música. Ele institui, por exemplo, a matriz estética do ‘pinto fantasma’, que é uma espécie de artefato lírico/poético que envolve fazer o ouvinte acreditar, pelo contexto, que escutará a palavra ‘pinto’ em algum momento da canção, só pra suprimi-la e lançar outra palavra no lugar, como em Mr. Brightside do Killers Mas este é um empreendimento cultural que Harvilla, como um Umberto Eco da nova era do rádio, tenta levar para além das fronteiras da música, sem total sucesso, chegando a Neruda e John Wilmot Rochester (que desconheço) e Walt Whitman. Essas matrizes tem um sentido de humor invejável, e são acompanhadas de uma gargalhada deliciosa. Como todo bom crítico, Harvilla te faz atentar para preciosidades que passam muitas vezes despercebidas numa escuta pouco sensível, por exemplo, o esplendor dos versos "I don't really miss God, I sure miss Santa Claus”, em Gutless, do disco Live Through This do Hole, só pra ficar na temática natalina (mas em chave Nietzscheana).
Livros
Ficção. As coisas que perdemos no fogo, da Mariana Enriquez (2016); Diorama, Carol Bensimon (2022); Vale o que tá escrito, Dan (2023). Tô aprendendo (finalmente!) a ser uma leitora de ficção com a newsletter do Ronaldo Bressane e com o podcast Rumor, do Pedro e do Lucas. Bressane, Lucas e Pedro me seduziram, especialmente, pela verve ensaística. Chegando meio atrasada nessa seara literária, os melhores (recomendados por eles) foram lidos e, não, publicados esse ano. No ano passado, ouvi uma entrevista com um tal Dan no Rumor, que achei absolutamente hilária e espirituosa, em que ele dizia não estar interessado em copiar o Bolaño, porque o seu interesse residia em superar o autor chileno, coisa que entendia ser perfeitamente possível, por não ter a influência (nefasta) do Borges. Parti pra leitura do seu Vale o que tá escrito logo no comecinho do ano, em janeiro, e virei groupie. Ao longo de 24, fui nas mesas em que Dan se apresentou, fiz curso de personagem com ele: onde Dan vai, vou atrás, a ponto de ele já me reconhecer nos eventos com certo desânimo, que aumenta significativamente quando levanto a mão pra fazer alguma pergunta. Vale, assim como minha outra obsessão literária, Os tais caquinhos, da Natércia Pontes, tem esse mérito de mobilizar todo um arquivo de afetos dos anos 90, que como colocou Raymond Willliams, tem uma qualidade profundamente histórica, e, portanto, social. Com estilos muito diferentes, encontrei isso em comum nos melhores contos do livro da Enriquez e no deslumbrante livro da Bensimon.
Não ficção. Shy radicals, de Hanja Ahsan. Essa foi mais uma indicação do Beto, meu consultor para assuntos estratégicos. A timidez aparece aqui como uma orientação estético-política que tenta forjar uma coletividade discreta e silenciosa que sucede tantas outras coletividades políticas, desde as sufragistas até os Panthers. Nesse manifesto-provocação contra o supremacismo extrovertido, Hanja Ahsan explora diferentes gêneros literários (entrevista, o texto constitucional, a crítica literária) e mira suas armas (a ironia, sobretudo) contra o mainstream estridente. Eu que imagino torturas infligidas a toda e qualquer pessoa que ouve audio no celular sem fone, não poderia aderir mais a essa causa. Para além da causa a favor do silêncio, Ahsan não economiza nem contra o mercantilizado gay pride e nem contra a extroversão supremacista negra de Pharrel Wiiliams e Beyoncé, propondo, no lugar, o gay shame e a aliança entre o brancos sensíveis (Morrisey, Elliott Smith, Kurt Cobain) e os rappers politizados do Public Enemy.
Show
Boogarins toca Clube da Esquina. A oposição dirá que é puro imperialismo goiano: no mesmo dia em que o Clube da Esquina se apresentava no Centro de Convenções, os Boogarins faziam seu show elegíaco no palquinho do Infinu. Por meio de relatos dos correspondentes especialmente enviados, pude constatar que o show do Boogarins foi muito melhor. Que arranjos chiques! Esperei que o show fosse reproduzir o disco, mas ele é bem mais amplo que isso. Passeia pelos projetos solos de Beto Guedes, Milton e também por outras configurações dos seus membros, especialmente o projeto do Toninho Horta e do Beto Guedes com o Danilo Caymmi, com a etérea Serra do Mar e a mesmerizante Ponta Negra. O efeito desse set list atento às assemblagens foi a multiplicação das potências estéticas da política da amizade que o Clube institui. Fé cega faca amolada foi de chorar. Trem Doido, Amor de Índio, todos os presentes desabamos, mas me tocou particularmente Saídas e Bandeiras, que elevou a hipnose da original à enésima potência. Simplesmente queria morar nesse looping azul (essa foi a cor escolhida pela iluminação). Um girassol da cor do seu cabelo já sabíamos que seria o clímax, mas quando esse finalmente chegou, foi ainda melhor que a nossa fantasia (delírio) coletivo havia antecipado. Foi um bom dia para estar viva, esse sábado.
Residência do Akhi Huna no Barito bar. Esqueça os Tiny Desks. Eles são jovens, irmãos e gentis e às quintas-feiras, eles plugavam baixo e guitarra bonita entre as roupas vintage, os artigos de antiquário e as plantas exuberantes do Barito com os humores suaves da batidinha eletrônica. Por momentos, a impressão que se tinha era de estar no Brooklyn (que nunca estive) testemunhando a ascensão de uma estrelinha do neo soul estilo Khruangbin.
Newsletter
Nevoeiro. Aos 45’ do segundo tempo cheguei a Nevoeiro, da Carol Bensimon. Acho que é uma unanimidade. Ouvindo uma entrevista da autora (pois é, ando meio obcecada), ela tava comentando que utiliza o formato pra falar um pouco das suas experiências como uma imigrante numa zona meio rural da Califórnia, já que para os livros, tem outras intenções e ambições, especialmente relacionadas a não perder o vínculo com o Brasil. Nevoeiro também é um Clube do Livro (a lista das leituras do primeiro semestre d e25 já está divulgada).
Invenções de Morel. Agora que os cadernos de cultura dos jornais foram dinamitados, tenho a impressão que blogs (os escritos, não os em video) e as próprias newsletter resgataram a arte perdida da crítica. Morel é a newsletter do Ronaldo Bressane, vinculada à revista de mesmo título, que reúne especialmente análises de obras literárias, mas não só. Bressane tem uma verve ensaística e cronística e muitas vezes relaciona as impressões sobre as leituras a eventos cotidianos, fait divers, fenômenos midiáticos, sempre com olhar lúcido, bem humorado e principalmente, distante dos julgamentos apressados e das opiniões prontas do X e congêneres.
Blog do Merten. Seguindo a mesma linha do comentário anterior, Luis Carlos Merten com seus oitenta anos continua sendo um farol no desertificado terreno da análise cinematográfica. Os filmes na TV, no streaming, nas telonas, as estreias e os festivais, as lembranças, nada passa incólume por seu olhar amoroso e pela conversa que ele inicia a partir dos filmes, entre eles, e com eles.
Séries. Nenhuma, naturalmente.
Até 25!






