#70 Sorte
ou, em inglês: Luck. <3
Esse é o Luck.
Para os íntimos, Luluck, grandão ou coisona-mar-linda-da-mãe (esse último é só pra mim mesmo). Ele é um senhor de 13 anos e, como acontece com nós humanos, o avanço do tempo começa a castigar os ossos, os músculos e a disposição. Luluck é um cachorro enorme, um senhor com alma e olhar de criança, que se encontra em cuidados mais intensivos por estar com dificuldade de andar. Meu coração anda despedaçado, mas ele está recebendo todo amor, atenção e cuidado possíveis. O texto não é (só) sobre o quanto é injusto o tempo de vida tão curto dos nossos amores de quatro patas, mas sim sobre o que eles nos ensinam. Paradoxalmente, Luluck tem me ensinado algo valioso sobre o tempo.
Eu nunca tive facilidade de viver o presente, e essa dificuldade nunca esteve tão evidente para mim quanto agora. A situação do Luluck é dia após dia, e não existe nada mais agoniante para mim do que isso. Alguns dias ele acorda disposto, outros não. Às vezes ele melhora, às vezes ele regride. Os dias frios são um castigo para a artrose dele, mas ai no dia seguinte dá uma esquentadinha e ele consegue se movimentar mais. Dia após dia.
Ele segue vivendo o presente. Enquanto isso, eu fico tentando prever o futuro. Fritando minha cabeça e buscando incansavelmente por respostas de quando e se ele vai melhorar, inventando formulas mágicas ao ler as bulas dos remédios, fazendo prompt para o Chat GPT me dar prognósticos, pesquisando incansavelmente sinais de melhora e de piora, e até mesmo tentando prever quanto tempo a gente ainda vai tê-lo por perto. Tudo em vão, claro, porque a vida é isso. Dia após dia. Não tem como acessar o futuro e todas as suas variáveis.
Em todas as áreas da minha vida, eu sou a pessoa que vivo fora do agora. Convivo com uma sensação de deslocamento temporal constante, misturada com a necessidade de me precaver de tudo que pode dar “errado”. Esqueço que o que dá “errado”, muitas vezes, é só a vida acontecendo, não tem para onde fugir. O esconderijo que eu procuro no futuro é apenas uma ilusão, o desenho de um cenário que eu nem mesmo sei se vai sair do papel e se materializar. O Luck me fez perceber o óbvio: é preciso esperar o sol raiar para saber como vai ser meu dia. Ele faz isso com o dele, sem nem pensar ou se programar pra isso.
Luluck é grande em tamanho e coração. É grande no espaço que ele ocupa em nossas vidas, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Ver ele envelhecer e ganhar limitações dói demais, mas não deveria. Ele é feliz e ainda está aqui, devorando todos os pratos de comida e cheio de vontade de ficar com a gente, aproveitando cada minuto que ele ainda tem nesta Terra, enquanto testemunha a dona se lamentar de preocupação pelos cantos por algo que ela não pode controlar: o passar do tempo.
Então, como não tem jeito, jogo minha toalha branca. Já que é dia após dia, vou tentar que meu pensamento não seja mais tão diferente disso. Me colocar no presente, por mim e pelo Luck, uma das minhas maiores sortes na vida. <3




Isabel, SORTE mesmo tenho eu, eu conhecer você e poder ler essa coisa maravilhosa . ontem mesmo eu estava caminhando com Maíra , a Weinmaraner do Gabriel que é minha enteada. Ela tem tantos anos que o povo lá nem sabe mais dizer . Ela agora tem caído durante os passeios . as vezes fica arriada na pracinha , eu coloco meus braços naquele corpanzil e converso com ela : vamos meu amor , só mais um pouquinho . ela suspira . devagar, se levanta . o amor que existe naquele par de olhos azuis que fica estatelado quando eu chego pra acariciar suas orelhas , é meio impossível de descrever . não consigo nem pensar no dia em que ela não conseguir andar mais e, por falta de opções , ela se vá . por tudo isso , estou de mãos dadas contigo ,amiga . que sempre persiga o amor e o privilégio que é dividir uma vida com um cão
que você consiga aproveitar todo o tempo que tem com luck!