Não há uma lógica conceptual na divisão dos quatro EP Techno Logic, The People’s Mixtape, Hidden Out! e PopUp Shop, também reunidos no álbum duplo Off the Record, uma edição tripartida entre a XL Recordings, a International Anthem e a Nonesuch.
Dez anos depois de In The Moment o ter projectado no campo grande do jazz, e de se ter afirmado como arquitecto sonoro das peles, as quatro peças unem-se como fim através do improviso extensivo, mas cada uma tem um tempo e cumplicidades próprias a definir o diálogo. Em Techno Logic, a tuba de Theon Cross tem o peso de um colosso. Em Technology, ouve-se Ben LaMar Gay a incitar “feel that, it’s going technology”, em tom de profecia afroespiritual. Se existir uma ordem, e este for o primeiro EP da fila, fica evidente que McCraven seguiu apenas a intuição, desinteressando-se da organização da informação. Em Boom Bapped, vénia à escola dos 90 do hip-hop, somos reenviados para a informalidade do acid-jazz e, claro, um certo charme de Miles Davis enquanto se imaginam pedras de gelo a derreter no Moscatel.
Se Techno Logic foi gravado a três tempos em Londres (2017), Berlim (2024), e Nova Iorque (2025), The People’s Mixtape é um filho bastardo do serão comemorativo de In The Moment, em janeiro deste ano em Brooklyn. McCraven reencontra-se com o contrabaixista Junius Paul e o trompetista Marquis Hill, peças essenciais nesse disco, com Joel Ross, com quem vem interagindo desde Universal Beings (2017), e com o mágico dos sintetizadores Jeremiah Chiu. Fascinante caleidoscópio de hipóteses, o EP vive da interacção com o outro, muito mais do que da definição de rotas. O compasso lento de What a Life dá lume a um potencial beat de hip-hop estampado por Mobb Depp ou A Tribe Called Quest.
A consistência de Off The Record está na identidade própria e valor acrescentado de cada uma das peças. Hidden Out! anima-se nas cordas de Jeff Parker, guitarrista essencial da cena de Chicago, e nos silêncios inteligentes. Na aparência, talvez seja o mais clássico dos quatro mas a homogeneidade não só é eficaz no todo como resulta da excelência não-virtuosa dos intervenientes - de novo Junius Paul, Marquis Hill no trompete e electrónicas, e Josh Johnson no saxofone e electrónicas.
PopUp Shop é o velho samurai dos quatro, ao resgatar material estreado em 2015 em Los Angeles. Uma fotografia da evolução de McCraven de músico emergente para maestro do jazz actual, mas o retrato de diferentes momentos não se queda à individualidade e celebra também a energia colectiva que diferentes personalidades e sensibilidades podem gerar. A pós-produção é assumida, mas não rouba o calor do momento nem o prazer da troca. Se esta colecção arruma gavetas e faz a ponte para um outro futuro, então o melhor continua por vir. Como tem sido recorrente nele, aliás.
Makaya McCraven actua no Teatro S. Luiz a 12 de novembro. O concerto está integrado na programação do Misty Fest
Achados da semana
Hillary Woods - Night CRIÚ
Tal como há roupa mais adequada ao outono, como camisolōes e sobretudos, há música que cai bem na estação. É o caso de Night CRIÚ, procissão de sombras que faz do escuro casa e dos fantasmas vizinhos, animada por uma atmosfera ficcional e vultos cinematográficos como o de Twin Peaks. David Lynch e Laura Palmer haveriam de se entender com a irlandesa.


