Escombros
Oi, K.C. Esse foi o texto mais difícil de ler na minha vida. Não sei se conseguirei responder de forma adequada, tampouco sei se você gostaria de uma resposta. Nas últimas 24 horas eu só penso em você. Se eu pudesse, voltaria exatamente para o dia em que nos conhecemos, o dia em que pude te abraçar e sentir o seu cheiro. Gostaria também de voltar ao dia em que, numa chamada, lhe disse que estava a remover os escombros que me tinham sido deixados no passado, abrindo-me a novas possibilidades, porque se soubesse que terminaria assim, como aconteceu antes, nem sequer me teria dado ao trabalho. Não me arrependo de ter entregue a você, mesmo que por pouco tempo, o meu coração já muito fragilizado. Você me fez viver coisas que nunca imaginei que fosse viver. Ser capaz. Você fez eu desejar o que há muito não desejava, sentir o que há muito não sentia. E parece que na mesma intensidade que veio, você se foi. Na mesma força que me pegou, me atirou. Tem sido difícil acordar sem o seu bom dia, ficar o dia todo sem ter com quem conversar sobre o que conversávamos. É difícil, por aqui, encontrar alguém com um humor igual ao seu, um apreço por coisas que, mesmo distintas, ainda nos conectava – a música. Quando me lembro do seu toque, eu choro. Choro também por não ter certeza do motivo de você ir, da sua mensagem que soa exatamente igual a de outras dores que encarei em outras ocasiões, e que você sabe. No fundo, talvez eu saiba o porquê. Saiba que não fui suficiente em tudo o que você buscava, e isso me dói na alma, na minha e da minha autoestima. Eu respeito, mas choro porque sei que não posso fazer nada. Choro porque nada te fará voltar. Eu tenho um sério problema, que é potencializar coisas das quais fazem parte da minha rotina. Não sei se é um quadro que precisa ser formalizado, mas qualquer distúrbio na minha rotina me causa dores de estômago, ânsia. É por isso que eu resisto muito em acrescentar qualquer coisa nela, e quando acrescentei-o, temia que esse distúrbio fosse acontecer. E está acontecendo. Não posso compartilhar essa dor física com meus pais, pois minha mãe tende a se importar muito comigo diante dessas situações. Não estou dizendo isso para lhe culpar, para fazer com que você se sensibilize. Digo porque isso é parte do que estou sentindo neste exato momento em que escrevo isso. Porque é um fato inerente e que vem acompanhado de como consequência, e esse conjunto de dor me faz agir de forma que não me orgulho. É conflito interno cínico, uma dor cínica, porque me remete a humilhação. Como posso chegar nesse nível? Quando recebi sua notificação, meu estômago parecia ter sido sugado por um aspirador de pó colossal, que me arrancou as entranhas numa só sucção. É violento, e por isso talvez eu demore a me recuperar.




lindo, amigo