Platão e Aristóteles: Continuidade e Descontinuidade
Esses dois gigantes da filosofia antiga devem ser lidos não como rivais, mas como aliados em um mesmo projeto metafísico.
Introdução
A relação entre Platão e Aristóteles é, ao mesmo tempo, de ruptura e de continuidade. Tradicionalmente, costuma-se interpretá-la como oposição radical: de um lado, o platonismo das Ideias no âmbito inteligível; de outro, o aristotelismo das formas imanentes nas coisas sensíveis1.
De fato, a diferença central de suas metafísicas está nesse ponto. Para Platão, a essência (ousia) não se esgota nas coisas do mundo sensível, mas remete ao inteligível (através da participação), acessível apenas pela dialética e pela contemplação. Já em Aristóteles, a essência não está separada: encontra-se nas coisas em si, como forma substancial que estrutura cada ente, dentro da composição matéria e forma (hylē–morphē). Daí a célebre dicotomia representada na pintura da Escola de Atenas.
No entanto, como mostra Lloyd Gerson2, a relação entre os dois não é apenas de descontinuidade. Aristóteles, embora critique aspectos da teoria das Ideias, permanece dentro do horizonte platônico: reconhece a existência da substância imaterial, da alma como princípio vital, da ordem teleológica (telos) e de um Bem supremo (agathon).
Aristóteles é, na verdade, um Platônico
Por isso, em vez de interpretar Aristóteles como alguém que “corrigiu” Platão, o mais adequado é compreendê-lo, como sugere Gerson, como “outro platônico”. Sua filosofia pode ser lida como uma variação ou aprofundamento das questões abertas por Platão, não como uma negação delas. Assim, existiria uma certa descontinuidade no modo como tratam a essência e o inteligível, mas também uma profunda continuidade em seu projeto comum: uma metafísica que reconhece a ordem racional do real e a necessidade de um princípio último:
No que diz respeito às evidências, não se deve subestimar a suposição universal da autenticidade da carta de Aristóteles a Alexandre, o Grande, Sobre o Universo (Peri kosmou), que em muitos aspectos manifesta uma orientação profundamente platônica. Isso também é claro no tratado de Alexandre de Afrodísias com o mesmo título, que existe apenas em tradução árabe; ver Genequand 2001, introdução. Genequand observa que suas “duas características mais marcantes [...] são, assim, a doutrina da imitação e a do poder divino que permeia o universo. A ideia platônica de imitação fundida com a teleologia aristotélica torna-se a força motriz do universo, assegurando sua coesão não apenas no plano psicológico, mas sobretudo no plano cosmológico” (p. 19–20). Genequand está aqui falando da compreensão que Alexandre tinha de Aristóteles, baseada em parte nessa carta (provavelmente) espúria; no entanto, ninguém, incluindo Alexandre, considerava a carta como expressão de uma doutrina anômala. Sem dúvida, é por isso que não tiveram dificuldade em aceitar que fosse genuína.
GERSON, Lloyd. Aristotle and Other Platonists. Ithaca: Cornell University Press, 2005, p. 30, n. 31, tradução própria.
Essa nota de rodapé demostra bem a tese central de Lloyd Gerson: a fronteira entre platonismo e aristotelismo não é rígida, e a tradição antiga muitas vezes não enxergava contradição entre ambos. O caso da carta atribuída a Aristóteles (Peri kosmou) é exemplar. Mesmo sendo provavelmente espúria3, ela foi recebida sem resistência porque exprimia uma visão de mundo que não destoava da filosofia aristotélica tal como era entendida: a fusão entre a mimesis platônica e a teleologia aristotélica.
O mais significativo é que nem Alexandre de Afrodísias, o maior comentador de Aristóteles na Antiguidade, viu na carta uma “anomalia”. Pelo contrário: ele incorporou em sua leitura a ideia de que o universo é coeso por imitação e finalidade. Isso mostra que a tradição aristotélica antiga não percebia como incompatíveis elementos que, numa leitura moderna, seriam rotulados como “platônicos”.
Assim, através desse pequeno exemplo é perceptível que a chamada oposição entre Platão e Aristóteles é em grande medida fruto de uma construção posterior, sobretudo moderna, que exagera as diferenças e minimiza a continuidade. Como vimos, na própria Antiguidade a proximidade entre os dois era considerada tão natural que textos de inspiração platônica puderam ser aceitos como aristotélicos sem levantar suspeitas.



