Por que o Brasil Não Cresce?
O Brasil não faz sentido, mas faz sentido porque o Brasil não cresce
Uma pergunta simples, com uma resposta complexa. Esse talvez seja um dos meus clichês preferidos (junto com as capas da The Economist) dentre os incontáveis que permeiam a discussão sobre crescimento econômico e Brasil. Outros comuns são: Custo Brasil, voos de galinha, produtividade, desindustrialização, educação, produtividade, infraestrutura, poupança e um pouco mais de produtividade.
Durante a minha vida, eu devo ter escutado essa pergunta trocentas vezes, sempre seguida de dezenas de respostas diferentes marcadas com os clichês acima. É uma constante na vida de um brasileiro, uma incógnita permanente pairando sobre nossas cabeças. Independente das centenas de horas de podcasts, programas de TV, livros e artigos que já foram dedicados a respondê-la, eu sei que a ouvirei de novo. É uma certeza brasileira.
Mesmo assim, eu quero arriscar minha própria resposta, de uma maneira simples e descontraída, explicando os diferentes clichês e termos que costumamos ouvir, tentando encaixar tudo numa visão holística do problema.
O Brasil que deu certo?
Primeiro, vamos analisar se o Brasil realmente não cresce:
O gráfico é avassalador. A média de crescimento do PIB entre 1950 e 1980 era mais de 7% ao ano. Hoje, o governo comemora um crescimento de 3.5% em 2024. O problema se apresenta também em termos relativos. Comparando a renda de um brasileiro com um americano, vemos que alcançamos nosso pico em 1980.
Além disso, a cada ano cresce o número de países que antes eram mais pobres e agora nos ultrapassaram…
No geral, a narrativa brasileira é de um “milagre econômico” no pós-guerra seguido de uma estagnação constante desde os anos 80, com uma pequena pausa entre 2000 e 2010.
O que mudou? Por que não crescemos mais como antes?
Podemos analisar o crescimento econômico dividindo-o em 3 partes:
Capital físico - fábricas, infraestrutura, etc…
Capital humano - aumento na quantidade e qualidade da força de trabalho
Produtividade Total dos Fatores (PTF) - Quanto conseguimos produzir a mesma quantidade de capital e trabalho
Basicamente, o PIB ou cresce por termos mais fábricas e pessoas produzindo, ou por produzirmos mais com os mesmos recursos. No longo prazo, para crescer de forma sustentável, a produtividade é o fator principal. Que por sua vez, depende no longo prazo da taxa de investimento. Para crescer é necessário investir em um capital físico melhor, pessoas mais qualificadas e empresas mais eficiente em combinar os recursos da economia.
Vamos analisar o caso brasileiro do pós-guerra:
Focando no período de 1950-1980, eu destaco a contribuição do Capital e da PTF para o crescimento. Podemos ver como a contribuição do Capital despenca depois de 1980, enquanto a PTF também cai mas volta a subir depois do Plano Real. O que aconteceu?
Nós tivemos o nosso Êxodo Rural e altas taxas de investimento até 1980, para depois uma hiperinflação nos anos 80.
Em 1950, 60% da população empregada trabalhava na agricultura, 20% nos serviços e 20% na indústria. Ao mesmo tempo a produtividade de um trabalhador rural era 1/6 da de um operário na indústria. Portanto, o Brasil possuía um “exército” de pessoas pouco produtivas e ganhando quase nada que, ao migrar para as grandes cidades, causou uma explosão de crescimento da produtividade e da renda.
O Êxodo Rural é o processo de mudança estrutural da força de trabalho da agricultura para setores mais produtivos. O “milagre brasileiro” de 1968-1973 foi em grande parte um aumento da PTF, e por consequência da produtividade, por conta dessa mudança estrutural, junto a um grande investimento público à industrialização.
Porém, esse processo só acontece uma vez. Com o esgotamento do Êxodo Rural nos anos 70, o governo Geisel decidiu por aumentar a contribuição do capital físico para compensar a perda de crescimento da PTF. A taxa de investimento determina a formação de capital físico. Dessa forma, o crescimento de 1973-1980 foi marcado por altas históricas da taxa de investimento brasileira, ficando em mais de 20% do PIB, puxado principalmente por empresas estatais com base em empréstimos de estrangeiros. Infelizmente, isso causou um aumento significativo da dívida externa que resultou, nos anos 80, em uma crise da dívida, hiperinflação e nas medidas heterodoxas para combatê-la, que tornaram impossível o crescimento. Por isso a década de 80 é considerada a “Década Perdida”.
A hiperinflação é talvez a pior coisa que pode acontecer à uma economia. Não só ela impede o investimento e crescimento econômico, mas também causa uma perda extrema do PIB per capita (podendo chegar a 50% de redução). Por esse motivo o Plano Real foi essencial para o Brasil. Sem a estabilização macroeconômica, qualquer crescimento é impossível. Infelizmente para nós, mesmo após o Plano Real, nunca conseguimos voltar às taxas de investimento anteriores.
Resumindo, antigamente o Brasil cresceu principalmente por uma alta taxa de investimento, comparada à hoje, e pelo Êxodo Rural que causou um aumento significativo na produtividade.
Crescimento no Brasil contemporâneo
O crescimento desde o Plano Real foi puxado principalmente pelo componente do trabalho, com uma contribuição modesta do Capital e, impressionantemente, negativa da PFT.
Como podemos ver no gráfico, o crescimento entre 1997 e 2011 se deu principalmente pelo aumento na quantidade e qualidade da força de trabalho brasileira. O grande crescimento do trabalho nesse período é reflexo do famoso “Bônus Demográfico”. O decréscimo na taxa de natalidade depois dos anos 60 causou um aumento da proporção da população apta a trabalhar a partir dos anos 80, permitindo o crescimento do PIB, mesmo sem aumento da produtividade.
Infelizmente, de novo, essa dinâmica demográfica está acabando. Podemos ver que de 2012 a 2019 o crescimento por conta do trabalho é quase nulo e deve passar a ser negativo em alguns anos com o aumento da porcentagem de idosos. Não podemos mais contar no crescimento da população, por isso temos que focar no aumento da produtividade.
Agora chegamos na questão mais preocupante. Entre 1997 e 2019 a PFT caiu cerca de 1% ao ano! Isso é inacreditável. Na China a PFT cresceu cerca de 2% ao ano no mesmo período. A nossa produtividade não apenas estagnou nos últimos 40 anos, mas parece que somos cada vez piores em alocar nossos recursos. No Brasil o pouco acúmulo de capital e o crescimento da força de trabalho são desperdiçados pela má alocação dos recursos. Um exemplo clássico nas capitais brasileiras é do engenheiro que dirige Uber.
Como tudo, o pico da nossa PFT foi em 1980 e desde então estamos numa morte lenta.
Quando comparamos a decomposição do nosso crescimento à de outros países, o problema brasileiro fica óbvio.
A nossa formação de capital físico é muito baixa e nossa PTF é uma piada. Os principais culpados são a pequena taxa de investimento e o famoso “Custo Brasil”. A quantidade e complexidade dos impostos, das regulações, os encargos trabalhistas, a insegurança jurídica, as tarifas de importação e tantos outros aspectos da nossa sociedade podem ser incluídos no termo “Custo Brasil”. Isso tudo significa que os recursos que já temos são mal alocados e o pouco que investimentos nem sempre é bem investido.
Nesse texto, no entanto, eu gostaria de focar mais no aspecto do investimento, que não é aparente no dia a dia, mas ainda assim é tão relevante quanto.
Por que o Brasil não investe?
A nossa taxa de investimento é muito baixa quando comparada à países que crescem. China, Japão, Coréia e Alemanha tiveram que sustentar taxas de investimento superiores a 30% por décadas para se desenvolver. A China é o caso mais destoante, com o investimento total representando quase 45% do PIB em 2010.
Enquanto no Brasil, o investimento oscila entre 15% e um máximo de 23% desde 1980. A taxa em 2024 foi de 17% e as projeções são de manutenção desse nível.
Olhando de forma relativa, hoje investimos muito pouco comparado ao passado pós-guerra, quando tivemos nosso maior período de crescimento. O gráfico a seguir está em uma escala diferente, portanto ignore o número, mas repare no nível relativo.
Por que isso acontece? Basicamente a economia brasileira é voltada para o consumo, não sobrando dinheiro suficiente para investir. O Brasil tem uma poupança doméstica, a soma do dinheiro guardado para investir pelas famílias, empresas e o Governo , muito baixa, entre 14% e 20% (14.5% em 2024).
Na tabela abaixo, repare como a taxa de investimento é maior que a poupança doméstica (Total). Isso significa que, mesmo para atingir nossos baixos níveis de investimento, o Brasil depende de capital estrangeiro para se financiar.
Além disso, uma importante parte do tipo de investimento necessário no Brasil é a importação de bens de capital para a nossa economia. Máquinas para a indústria, tratores para a agricultura e computadores para os serviços. Investir no Brasil implica importar. Ou seja, somente em anos que temos superávit considerável na balança comercial, exportamos muito mais que importamos, é possível investir e importar mais sem gerar déficits grandes demais na Conta Corrente.
Isso tudo significa que uma maior taxa de investimentos reflete um déficit cada vez maior na Conta Corrente brasileira, tanto por conta do capital estrangeiro necessário para investir mais que nossa pequena poupança interna, quanto nas importações de bens de capital.
A conta corrente é a parte do balanço de pagamentos que registra todo o fluxo de renda “real” entre o país e o resto do mundo em um dado período. Se o saldo é positivo (superávit), o país é credor líquido — acumula ativos externos; se é negativo (déficit), precisa se financiar através das contas de capital e financeira, tornando-se devedor líquido frente ao resto do mundo. (explicação do ChatGPT sobre Conta Corrente)
O gráfico abaixo mostra a conta corrente em relação ao PIB brasileiro. Tivemos poucos anos com uma conta corrente positiva e que os anos de maior déficit são os com maior crescimento e investimento.
Quando o governo Geisel aumentou o investimento da economia brasileira através das empresas estatais nos anos 70, elas precisaram contrair dívida externa, pois não havia no Brasil dinheiro suficiente sendo investido para financiar uma taxa que precisamos para crescer intensamente. Infelizmente, não é possível contrair um monte de dívida externa sem preocupação, como descobrimos nos anos 80.
O boom das commodities do primeiro governo Lula é evidente no gráfico, já que é o último período de superávit da Conta Corrente. O aumento do preço das commodities pela excessiva demanda da China permitiu uma melhora significativa nos nossos termos de troca, exportamos muito, o que possibilitou um maior investimento e compra de bens de capital exterior do que normalmente.
Ao mesmo tempo as medidas “neoliberais” do governo FHC e Lula I resultaram em um aumento no fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, novamente permitindo um maior investimento do que antes. Por isso crescemos entre 2000 e 2010. Foi um período de reformas que proporcionaram um aumento da PTF, junto a uma maior taxa de acumulação de capital graças a uma Conta Corrente.
Portanto, a nossa baixa poupança doméstica e necessidade de importar bens de capital criam um limite para o quanto do PIB conseguimos investir e, consequentemente, crescer. Não há soberania nesse modelo econômico, o Brasil depende do cenário externo para investir mais.
Por isso não crescemos
O gráfico abaixo é intimidador, porém não se assuste, ele apenas resume tudo que foi discutido até agora. Ele apresenta a taxa de crescimento do PIB, eixo de baixo, para diferentes níveis de taxa de investimento e crescimento da PTF, baseado nos dados históricos desde 1950. A área em cinza representa as taxas de investimento já apresentadas pela economia brasileira.
Por exemplo, se a PTF crescer 2% ao ano, linha de baixo, para o PIB brasileiro crescer 3.5% ao ano, precisaríamos de menos de 20% de taxa de investimento. Já se a PTF não crescer, 0% e linha de cima, para crescer os mesmo 3.5%, a economia brasileira precisaria de mais de 30% de taxa de investimento.
Com esse gráfico, para mim, fica aparente o limite imposto pela nossa taxa de investimento e PTF. Começando pelo fato que o Brasil não tem um crescimento da PTF em 2% desde o Êxodo Rural na Ditadura e que, desde 1997, tivemos uma diminuição de 1% ao ano na média. Da mesma maneira, nós nunca tivemos uma taxa de investimento superior a 30% do PIB.
Levando tudo em consideração, ao menos que o Brasil implemente reformas que diminuam o “Custo Brasil” e aumentem a Produtividade Total do Fatores, será difícil crescer mais que 3% do PIB ao ano de forma consistente. Para crescer mais que 5% ao ano, ou 10% como a China, precisamos de ambos um aumento significativo ano após ano da PFT e uma alta taxa de investimento. Sem aumento da produtividade não há crescimento econômico expressivo.
Por isso parece que o Brasil somente dá “Voos de Galinha”. Quando o cenário externo é positivo, e o interno não está uma bagunça, nós conseguimos crescer mais, como no primeiro governo Lula. Infelizmente, uma hora ou o cenário externo piora ou alguma crise interna por políticas horríveis acontece, dando um fim ao momento de crescimento.
Algumas Soluções?
Como aumentar a poupança interna? A principal resposta dada por economistas é uma reforma da previdência junto a um ajuste fiscal. No Brasil, a poupança pública é negativa, o que significa que o governo brasileiro diminui a nossa já pequena poupança doméstica.
Os principais gastos do governo são focados no consumo. Ao pagar funcionários públicos, distribuir aposentadorias e programs de auxílio, o governo está estimulando o consumo. As pessoas mais pobres e mais velhas em sua maioria usam toda a sua renda para viver, enquanto os funcionários públicos ou não ganham tanto, e estão na categoria de brasileiros que gasta tudo o que ganha, ou ganham muito e não investem devidamente, pois tem uma aposentadoria garantida com o salário integral.
Além disso, o governo brasileiro tem déficits crônicos, portanto ele busca se sustentar tentando aumentar o imposto, que inside principalmente sobre os mais pobre, diminuindo a renda disponível para investimento para a maioria dos brasileiros, ou contraindo dívida, que “desvia” parte do investimento privado, que deveria ir para investimentos lucrativos, para sustentar o governo, que por sua vez gasta com consumo. Fora isso, a deterioração da relação dívida pública/PIB aumenta o “Risco Brasil”, ou seja, os investidores requerem maior juros para financiar os gastos do governo, que por sua vez aumenta o custo para empréstimo, desincentivando o investimento privado no Brasil.
Ao mesmo tempo, a previdência é um dos maiores gastos do governo. O sistema atual é simplesmente uma transferência da população empregada para sustentar o consumo dos mais velhos. Dessa maneira, ele diminui a poupança privada. As pessoas não guardam e investem o dinheiro pensando na aposentadoria, elas esperam financiar seu consumo quando aposentadas com o imposto sobre a população que trabalha.
Portanto, uma transição para um modelo de capitalização, onde cada um guarda seu dinheiro e investe para usar quando aposentado, aumentaria significativamente a poupança, já que milhões de brasileiros começariam a investir ao invés de consumir. Ao diminuir um dos principais gastos do governo, seria mais fácil uma consolidação das contas públicas e manter uma politica de superávit.
Dessa forma, o governo teria dinheiro para investir em infraestrutura ou outros bens públicos necessários para aumentar a produtividade, ao mesmo tempo que teria uma diminuição da dívida/PIB. Isto, por sua vez, diminuiria os juros da economia brasileira, aumentando a capacidade de tomar empréstimo e investir, e atraindo capital externo para financiar uma maior taxa de investimento na nossa Conta Corrente.
Isso tudo permitiria um aumento significativo da poupança interna e da taxa de investimento, aumentando a formação bruta de capital na economia, que é metade do problema brasileiro.
A outra metade
A discussão sobre PFT e produtividade no Brasil estenderia demais esse texto, que já está muito longo, por isso vou deixar para uma outra publicação no futuro para discutir a PFT, produtividade, indústria brasileira e comércio internacional.
Em conclusão, o Brasil possui um limite para o tanto que pode investir por conta da nossa pequena poupança doméstica e déficit da conta corrente. Combinado a uma falta no crescimento da produtividade e piora da alocação de recursos desde os anos 80 e o fim do “Bônus Demográfico”, o horizonte de crescimento brasileiro é muito pequeno daqui para frente.
Enquanto não implementarmos reformas que aumentem nossa produtividade, diminuindo o “Custo Brasil”, e nossa poupança doméstica e déficit público, somos totalmente dependentes no cenário externo para crescer mais que 3% ao ano.
















Belo texto. Eu que não sou da área consegui entender bem e foi bastante esclarecedor. Conseguiu aprofundar em um tema que muitas vezes se resume em conversa de bar, apresentando dados e justificando os pontos que levantou. Além disso tem uma ótima escrita