Andanças #149: O fabuloso destino de Amélie Poulain
Sobre sonhadores e ossos de vidro
Faz muito tempo que eu assisti O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, 2002, dirigido por Jean-Pierre Jeunet) pela primeira vez. Nem consigo me lembrar quando, na verdade. Também não sei o que me fez escolher ele, especificamente, para esta semana. Olhei, pensei e pá: você. Mas sei lá. Talvez seja o corpo, a mente e o espírito já meio exaustos pedindo por um passo mais lento. Não que Amélie seja um filme lento, muito pelo contrário. Mas tem algo aqui de diferente. Algo que nos enlaça e leva e, quando percebemos, já estamos em outro ritmo.
Nossa heroína de máscara, Amélie (Audrey Tautou), caminha por uma Paris do século 21 tão agitada quanto aquela de Anna Karina décadas antes. Só que esses tempos a gente conhece mais de perto. Nunca fui a Paris, mas imagino o caos turístico dessas pequenas ruas de pedras ao redor do Deux Moulins, o café onde Amélie trabalha. As escadarias de Montmartre então, nem se fala. Mas, de alguma forma, tudo isso fica meio suspenso ao longo das andanças de nossa protagonista. Apenas um pano de fundo. O que temos é uma perspectiva dessa cidade em tons opostos de verde e vermelho em um mundo próprio todo seu que talvez simbolize mais a vida interior da nossa protagonista do que a realidade, que não é bem o foco aqui.
Mas vamos por partes.
Amélie foi uma criança sensível cujos pais, acreditando que ela tinha uma doença do coração, a criaram isolada. Sozinha, ela criou um mundo todo seu para viver. Já adulta, Amélie descobre uma antiga caixa de pequenos pertences infantis em um esconderijo de seu apartamento e resolve procurar o dono para devolvê-la. Uma coisa engata a outra e Amélie decide que vai ajudar as pessoas ao seu redor. Mas ela tem uma forma toda própria de ver o mundo, assim como também o tem essas pessoas de seu cotidiano, cada uma com suas histórias e manias. Um dia, seu caminho se cruza com o de Nino (Mathieu Kassovitz), um misterioso colecionador de fotos rasgadas de máquinas automáticas. Algo surge ali, no reconhecimento de um igual no meio da estação de trem. Mas para desbravar um novo mundo é preciso largar um pouco do chão firme conhecido que a sustenta em seu próprio universo - algo que vai deixar a andança da nossa heroína um pouco mais complexa.
Mas você provavelmente já conhecia tudo isso. O duende viajante, a fantasia de Zorro, a paleta de cores, as framboesas nos dedos, os “tempos difíceis para sonhadores”. Amélie foi uma musa absoluta no tumblr dos anos 2000 e segue o seu reinado pelas páginas do Pinterest. Ela é quase uma Clarice Lispector cult-cinematográfica pelas rotas da internet, algo que faz a gente deixá-la um pouco de lado pela saturação.
Ainda assim, em pleno 30 de novembro de 2025, eu me vejo voltando para ela…
…e ficando.
A vida nunca é perfeita. Cada um tem um jeito de acalmar os nervos.
Eu não quero ficar aqui falando da correria dos nossos tempos e aquela coisa toda. Nós todos sabemos disso e, especialmente neste mês, ela fica ainda mais intensa. Eu também estou aqui correndo para fazer tudo que não dei conta em 2025. Confundo os finais de semana de dezembro, já todos cheios de coisas para acontecer. Penso que vai dar tempo, sabendo que não vai. Tem coisa na lavanderia, tem coisa na costureira, tem presente pra comprar, tem coisa pra trocar, tem coisa pra jogar fora, tem trabalho e mais trabalho pra terminar, tem exame marcado, tem vontade de ficar mais saudável agora, no meio do caos. Tem a agenda de 2026 já na bolsa, porque vai quê.
Na rua cotidiana ao meu redor, um caos de black friday, atrações natalinas (especialmente caprichadas neste ano em Curitiba), provas finais e vestibulares, jogo de futebol, últimos shows do ano, calor de 30 graus e tempestade de granizo (no mesmo dia), concurso público, maratona, ruas fechadas, comércio aberto além do horário… e ufa. É difícil tudo isso não entrar na gente, ainda mais quando nós realmente estamos envolvidos em pelo menos uma dessas coisas.
Eu não sei se em algum dia dos meus 20 anos eu imaginava que a vida adulta seria tão caótica. Talvez, na minha adolescência de tumblr, eu imaginasse uma vida adulta a la Amélie Poulain, com todo o seu mundo sonhador e espaço para as pequenas coisas da vida. Eram outros tempos para os sonhadores.
Assistindo, volta e meia me vinham pensamentos intrusivos. Pensava que a aeromoça MUITO dificilmente teria tempo para, ela mesma, visitar pontos turísticos dos lugares, quanto mais carregar um duende de cerâmica por eles. Hoje, eu provavelmente seria Georgette, contando meus eosinófilos altos por conta da alergia incessante, vitamina D baixa e tendências hipocondríacas. Fico pensando em qual seria a introdução do meu personagem:
Esta é Luisa. Luisa gosta de: bolos de chocolate e usar as coisas até o último suspiro delas.
Luisa não gosta que andem em sua direção como se ela não estivesse ali e de perceber que outra opção era melhor do que aquela que escolheu.
Nada glamuroso, nada cult, nada digno do meu tumblr de 2008. Apenas uma adulta cheia de manias, bagunçada e cansada.
Talvez ela faça de tudo para arrumar a vida dos outros. E ela? E as suas desordens? Quem vai por em ordem?
Essa vida adulta caótica me fez olhar com muito mais atenção para os outros personagens do filme. Amélie tem suas peculiaridades adoráveis, mas todas as outras pessoas também. Ela também é irritante em alguns momentos, assim como os outros. Todos tem seus pontos cegos, suas cascas grossas, seus mundos internos dos quais eles não conseguem sair. Amélie puxa para si a tarefa de mostrá-los outras possibilidades sem que ela mesma consiga fazer isso para si.
E aí está todo mundo aí, andando nesse mesmo lugar chamado cidade.
Assistir o filme de novo depois de tanto tempo me fez pensar em uma não-literalidade daquilo que eu via. Acho que antes, com um olhar mais inocentemente sonhador, os elementos do filme eram mais facilmente catalogáveis em caixas específicas, o que inclui também a cidade e o modo, especialmente de Amélie, de transitar por ela. Parece ficar mais fácil ver as metáforas por trás dos exageros sem os óculos da romantização (o que inclui também as arestas meio mais ou menos e pontos fracos do filme em si).
Ao mesmo tempo, também me peguei pensando sobre como, da mesma forma que os personagens não são essas caixinhas, eles também não necessariamente são pessoas. Talvez tenha mais a ver com o que eles representam, como se fossem todos divertidamentes na cabeça de nossa protagonista. São símbolos, exageros de algum tipo de sentimento ou versão de nós colocadas na vida na calçada. Pode ser uma grande viagem, mas me fez ver Amélie não como essa personagem intangível, mas como alguém muito mais próxima dos outros e todos eles de mim também, como se representassem partes do que eu sou. Eu saio correndo quando não sei o que dizer para alguém também, como Amélie. Eu sou meio hipocondríaca, meio paranóica, meio esperançosa, meio fofoqueira, meio obsessiva, meio colecionadora, meio perfeccionista, meio exigente, meio passiva. Vivo excessivamente no passado, travo para ir lá fora, olho os vizinhos pela janela. Cada um desses personagens são como a personificação de alguma dessas características e sentimentos que vemos em todos nós em medidas diferentes.
Como uma cidade interna toda nossa.
(Seria essa Paris apenas a cabeça de Amélie? Fica ai o questionamento).
Não acho que tenho mais a inocência para o mundo sonhador que se criou a partir do universo criado em Amélie Poulain, aquele que habitava as horas que eu passava à toa na internet no início dos anos 2000. Mas algo nesse caos me fez querer voltar para cá também, pelo menos um pouquinho. Como um mundo seguro, um lugar de recarregamento de baterias.
O charme de Amélie Poulain é justamente todas as esquisitices que habitam esse mundo verde e vermelho. E esse charme existe e pode existir do lado de cá também, na paleta de cores da nossa própria existência, com nossos tiques nervosos, uns sumiços aqui e ali, umas ideias repentinas, uns desejos peculiares. Nossas características marcantes que fazem com que sejamos reconhecíveis instantaneamente, assim como ela.
Ao mesmo tempo, sei que eu só estou aqui falando de mil correrias e sendo esquisita porque este ano foi de quebrar todas as paredes do meu próprio mundo interno (que, eu diria, tem tons de rosa). Mas as paredes imaginárias, não os ossos reais. Percebi, ora, que meus ossos não são de vidro como eu começava a pensar que eram. Que pancada atrás de pancada atrás de pressão atrás de estresse me trouxeram várias coisas que vão ser lidadas com o tempo, mas não me quebraram. Não me desfiz em pó.
Então, minha querida Amélie, você não tem ossos de vidro. Você pode levar as pancadas da vida. Se você deixar essa chance passar, eventualmente, seu coração vai se tornar tão seco e quebradiço quanto o meu esqueleto. Então vá!
Acompanhar essa andança hoje, no meio do caos, também tem um gosto mais doce do que antes, quando a vivência do mundo lá fora ainda não existia. Tem suas questões, mas também tem uns momentos que são como abraços que a gente nem sabia que precisava.
Amélie foi. E descobriu que a realidade pode ser muito mais interessante do que o que ela imaginava de dentro do seu mundo particular. E foram também os outros, com mala e cuia para ver o mundo e viver o que há de ser vivido enquanto há tempo, cada um do seu jeito. A romantização de Amélie talvez fizesse sentido apenas lá atrás, de dentro de um quarto adolescente de uma cidade pequena. Hoje, me parece mais claro que tudo que ela (e os outros) nos dizem é para abraçar quem somos e nos abrir para o que o mundo pode nos trazer. Porque ele vai trazer coisas de qualquer forma, afinal. Por que perder tempo tentando ser outra coisa?
E esse mundo vai ser tão caótico quanto esse texto. Tão caótico quanto o caos interno de cada um. Assim como a cidade ampla e bagunçada. Assim como essas ruas apinhadas de gente.
Mas como elas estão lindas assim, cheias e iluminadas até tarde da noite.
Até o próximo passeio :)
Onde assistir
Para escrever esta edição, reassisti O fabuloso destino de Amélie Poulain em DVD da minha coleção. Ele também está disponível para alugar no Prime.
Links extras
- Uma das inspirações para a paleta de cores do filme são as pinturas do brasileiro Juarez Machado, que coincidentemente é um pintor da minha cidade natal, Joinville. Como joinvillense, tenho minhas questões, mas a beleza das pinturas é inegável. Se algum dia você passar por lá, não deixe de visitar o Museu Juarez Machado.
- As locações do filme em Paris.
Aqui na Andanças temos três tipos de edições: as andantes, como esta, e as expressas, que são abertas e enviadas a todos quinzenalmente; e os nossos cafezinhos, também quinzenais, que são edições exclusivas para os apoiadores da newsletter. Se você quiser ler (e assistir!) os últimos e os próximos cafezinhos na íntegra, considere apoiar a Andanças. Custa apenas 10 reais por mês (dois cafezinhos!) <3
Outros passeios
Chegou na Andanças por essa edição? Você também pode gostar de:










Lembro de assistir no ensino médio, ali por volta de 2010/2011, indo na onda dos colegas que indicavam, o encantamento com a Amélie, os "sonhadores". Outra cabeça, outra internet, outro mundo...
Seu texto me deu a vontade de rever, pois confesso que, além da paleta de cores, pouca coisa ficou guardada rs. Uma ótima oportunidade!
Aproveitando o período pra tirar o atraso das newsletters que acumularam entre novembro e dezembro. Que 2026 te traga boas andanças, Luísa! Fiquei muito feliz de encontrar alguém que gosta de filmes das pessoas andando, conversando, vivendo (e quanta gente gosta!). O que tenho lido aqui me ajuda a repensar muita coisa da vida, da relação com a minha cidade, das cidades que quero conhecer andando por suas ruas, livrarias, sebos, cinemas, feiras.
É muito bom ter essa curadoria e companhia!