Qualquer palavra para mim é imensidão; assim como toda letra é infinito.
Engraçado que quando comecei a pensar neste texto, da varanda do quarto, eu sabia que queria escrever sobre o silêncio; embora eu tenha falado muito esse ano. Olhando para a avenida agitada, só pensei na tranquilidade que é viver calada em meio ao caos, olhando para dentro, cuidando de quem merece. A gente.
Falei pouco sobre o que eu estava fazendo; falei muito sobre o que me incomodava. Falei pouco sobre as minhas batalhas diárias; falei muito sobre as nossas batalhas diárias. Falei pouco sobre o quanto eu queria viver; vivi muito. Numa sequência de altos e baixos, vivi com medo, insegura, esperançosa, com vontade de desistir, fazendo, querendo, dando a volta por cima. Foi um ano que me chacoalhou mais do que o ano do burnout porque a vida desenhou que custa caro seguir as frustrações dos outros ao invés de cuidar do próprio jardim.
Lembrei que na adolescência eu carregava na carteira parte do poema “Um dia você aprende”, de Shakespeare. Pedi para minha mãe plastificar o papel para que eu pudesse ler sempre que precisava de força. Todas aquelas palavras fazem tanto sentido hoje que eu sinto que foi um exercício de manifestação. Li tanto que internalizei e, mais para frente, aprendi. E sigo aprendendo. Esse movimento de me permitir mudar me agrada.
Eu renasci, sabia? Parei de procurar no outro o que estava em mim. Passei muito mais tempo em casa, entre os meus, e a vida fluiu. Percebi que o meu caminho era desacelerar socialmente e nessa manobra chegaram pessoas especiais, quando eu nem estava mais olhando para isso.
A vida quer automatização da gente, mas a gente quer automatização da vida?
Me vi intolerante. À alimentos, histórias, pessoas. Aliás, poucas coisas são tão difíceis quanto se assumir qualquer coisa, como me assumi intolerante há alguns meses. Nada como a auto-análise. Mergulhei demais na minha vida sem deixar de me importar com quem me importa. E quem me importa é quem se importa. Comigo, com a vida, com o mundo. Engraçado, de novo, que quando a gente olha para o lado pensando nisso, no silêncio (aquela palavra não dita por cuidado), quase não sobra nada.
Aprendi a olhar para mim.
Eu não quero. Eu não vou. Eu não posso. Eu não consigo. Depois disso me ensinaram sobre descompasso. Logo eu, que sempre tive a música como ritmo de vida. Só que na vida, o desafio é dançar sabendo quais são os nossos limites até esbarrar com os dos outros. Por que você não quer? Por que você não vai? Por que você não pode? Como você não consegue?
Quero continuar esbravejando o meu silêncio assim que virar o ano. O que está resolvido em mim, não vai me abalar porque não está resolvido no outro. Eu não vou.
Eu só vou para onde tudo flui para mim. Independente de quem ficou, presente. Porque quem está presente também precisa entender sobre barreiras. Acho que isso é amor. Auto amor também. Me amar foi uma forma de encerrar ciclos que, por sorte ou sabedoria, eu não encerrei em silêncio. Só tem o meu silêncio quem não vale a minha saúde mental. Acredito que assim que deve ser.
2026 vai ser alegria; imensidão na palavra; e infinitude nas páginas do meu livro.
Nada é definitivo, gente. Tudo está em movimento.

