“Caio Fernando Abreu queria ser um mago e, de certa forma, ele o foi”
Um papo bônus (publicado no jornal A TARDE, 2009) com a jornalista Paula Dip sobre a biografia Para sempre teu, Caio F. O Madame K faz uma pausa hoje e retorna em 2026
Madame K - Lembro que entrevistei Caio F. há um montão de anos, aqui em Salvador, e ele me contou o sonho que havia tido na noite anterior. Achei aquilo mais que charme de escritor excêntrico, um modo de se relacionar com a realidade e com as pessoas. Concorda? Como era o Caio que você conheceu?
Paula Dip - Que sorte a sua ter entrevistado Caio. A maior parte das pessoas que me entrevista não o conheceu...então você sabe que ele era um verdadeiro ator. Tinha um senso dramático enorme. Era personagem de sua própria vida. Acredito que o sonho que ele te contou era sim um certo charme (ele adorava isso) mas deve sim ter sido verdadeiro; ele era super analisado, falava desse assunto (e de milhares de outros) com muita sabedoria e propriedade, era muito culto. Ele sabia encantar as pessoas quando queria e estava de bom humor. De mau humor podia ser uma naja, ficava mal humorado, e se escondia até passar o bode. Mas todo mundo que o conhecia sabia que ele era assim. Para mim, nunca fez diferença, eu gostava dele sempre. E quando ele era mais agressivo, quase sempre pedia desculpas, mandava flores, era um lorde. Mas muita gente não o entendia e ele também fez alguns inimigos por causa desse seu jeito.
MK - Quando sentou para escrever, compor o mosaico da biografia, pensou em gênero, em distanciamento, coisas assim?
PD - O livro foi saindo, de uma forma meio orgânica, no início era mais uma questão de juntar as cartas que trocamos, entrevistar pessoas ir atrás de arquivos e fotos para compor um painel do nosso tempo. Não pensei muito em gênero nem distanciamento, pelo menos nessa fase, quando a coisa foi fluindo devagar. Levei seis anos para escrever o livro. No final, quando minha personagem se impôs e ficou claro que era parte da historia, tive um papo com minha editora, a Luciana Villas Boas, da Record, e a gente optou por manter o clima emocionado, a proximidade extrema e a minha inclusão na história. Já ouvi críticas sobre o fato de ter participado da biografia do Caio como personagem. Tem gente que acha que biógrafo tem que ser neutro, frio e distante do seu objeto de estudo. Mas no nosso caso, isso era impossível.
MK - Você falou sobre seu livro, que é o primeiro, como a montagem de um grande quebra-cabeças. Sente que conseguiu montar com perfeição ou ficou faltando aquela pecinha que corre para baixo do sofá e desaparece de vista?
PD - Quebra cabeças são imprevisíveis, alguns demoram mais que outros, às vezes faltam peças, mas um livro é um processo mais orgânico, a gene vai montando, juntando histórias, criando personagens, relembrando histórias. Uma hora a gente tem que fechar, é como uma tese acadêmica, tem data para ser defendida e a gente faz o melhor possível dentro daquele período de tempo, com o material que a gente conseguiu coletar. É claro que depois que o livro foi publicado surgiram outras historia outra pessoas, se fosse continuar a escrever, teria um outro livro pronto.
MK - Uma coisa que me intriga em Caio F é que seus textos conseguem suplantar a época em que foram escritos, embora ele a traduza como poucos. O que, em sua opinião, é essa marca transcendental na obra de Caio?
PD - Caio queria ser um mago e, de certa forma, ele o foi: ele era meio visionário, falava de amor livre, de ecologia, de um jeito que ninguém falava. Ele parecia saber que certas coisas iam mudar, não me pergunte como, mas ele falava como um profeta, alguém que acredita que o futuro vai ser melhor e mais belo. E também mais difícil. Dito isso, ele sofria muito, era de sua natureza acreditar que o escritor precisa sofrer para poder contar sua história. Era um romântico, no sentido histórico do termo. Brilhante, inspirado, divertido, bem humorado, e vice-versa: às vezes era a pessoa mais desesperançada do mundo. Parecia um adolescente como aliás todos nós. Acho que as pessoas que foram jovens nos anos 80 nunca viraram completamente adultos. Não sei se foi a ditadura que nos roubou alguns anos de juventude e a gente acha que tem o direito de vivê-los agora, ou se fomos os primeiros a descobrir que íamos viver muito, sei lá. Tenho um amigo que diz que vamos ter que ser abatidos a tiros, porque não queremos sair do palco. Caio era assim. Acho que jovens de todas as idades se identificam com ele um pouco por isso, e também porque eles escreve muito bem, é um apaixonado pelo texto, um escritor delicioso de se ler e seu texto não ficou datado. Ele é um ícone da literatura urbana brasileira dos anos 80. E sabia ser amigo.
MK - O que atrai tantos adolescentes aos textos de Caio? São leitores que, quase por tabela, caem nos textos de outros autores da época, como Ana C.
PD - Os adolescentes estão procurando respostas, querem acreditar no amor, e ao mesmo tempo são críticos e temem se envolver, se apaixonar, Caio era exatamente assim e sua literatura é quase que inteiramente sobre esse tema: “ O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor”, ele dizia. Ana C e Caio foram amigos. Tinham ideias parecidas sobre a vida e a morte, mas ela era mais radical do que ele. Matou-se aos 28 anos. Ele ficou muito revoltado. Dizia: “como ela pode fazer isso? Logo ela que tinha a literatura para segurá-la viva...” ou algo assim.
MK - Há um lance que diferencia, na minha opinião, seu livro de outras biografias. Primeiro, ele transborda emoção, chega bem pertinho do personagem e você é também personagem. Há quem diga que com seu livro se inaugura nova forma de biografia. O que acha dessas descrições?
PD - Fico emocionada com sua descrição elogiosa do livro. Não sei se inventei alguma coisa, sei que essa era a única maneira que eu teria de contar a historia. Quando decidi escrevê-la a minha e a de Caio, algo que havíamos combinado de fazer) sabia que meu livro teria um ponto de vista privilegiado, pois fui amiga bem próxima dele. Eu ainda não sabia que eu também seria personagem, isso foi acontecendo aos poucos, e uma hora, rolou e deu sentido ao livro, pois contextualizou nossa cartas e toda uma geração da qual nós fizemos parte, a geração pré-aids. Não consigo explicar muito bem de onde vieram as ideias: é parte do processo criativo, aquele gênio que mora nas paredes de nossas casas e nos ajudar a contar essas histórias mágicas.
MK - Retomando aquela coisa da perenidade da obra de Caio, da identificação dele com sua época, queria falar um pouco sobre os vários mestrados e doutorados que fazem sobre seus livros. O que desperta tanto interesse acadêmico nas histórias de Caio, em sua opinião?
PD - A contribuição de Caio para a literatura brasileira do final do século 20 é preciosa. Ele inovou na arte da escrita e na forma como seu trabalho se entrelaça com sua vida e a vida de sua geração. Sociólogos, antropólogos, e é claro, jornalista e escritores se interessam pelo tema e ele hoje é campeão de TCCs e teses de mestrado e doutorado em várias universidades, aqui e no exterior. Uma das primeiras teses que li sobre ele antes de escrever o livro foi de uma socióloga, Isabella Marcatti, “Cotidiano e Canção em Caio Fernando Abreu”, defendida em 2000, na USP, orientada por José Miguel Wisnik. É um trabalho maravilhoso que fala da grande importância da música na obra de Caio. Depois descobri o professor Jaime Ginzburg, que analisa o viés político da obra de Caio, e Nelson Luis Barbosa, que fala da “autoficção”, um misto de autobiografia com criação literária, que está bem presente na obra dele. E ainda li o trabalho de um inglês, Stephen Wassall, da universidade de Liverpool que defendeu uma tese nos anos 90 sobre o amor em Os Dragões não Conhecem o Paraíso. Há dezenas de estudiosos do Caio, com teses recém-defendidas sobre astrologia e literatura, os poemas de Caio; as suas cartas, etc. Hoje há cerca de 50 teses sobre ele na academia, entre as já defendidas e que as ainda estão sendo trabalhadas nesse momento.





Entrevista porreta! Não sabia da existência dessa biografia. Interessante que ela cita o gênero de auto-ficção, isso há mais de 15 anos.