Simbolismo Númerico
Introdução à Ontologia Numérica
A Tétrada Sagrada
Os números inteiros são as entidades com maior grau de essencialidade, por isso ocupam lugar tão importante entre as doutrinas iniciáticas e o Simbolismo. Cabe explicarmos o porquê desse caráter essencial de primeira grandeza, mas como este escrito se trata de uma introdução que se pretende sintética, abordaremos esse aspecto dos inteiros em outro momento. Por hora, trataremos do Simbolismo Numérico em duas partes, a primeira dedicada à Tétrada Sagrada e a segunda, à Década Sagrada, assim iremos contemplar os dez primeiros números que são o fundamento estrutural dos princípios ontológicos mais elevados. Além disso, o que se segue a partir das dezenas são “repetições” do um ao dez aplicadas a graus diversos.
No que diz respeito à Tétrada Sagrada, esta aparece de maneira explícita entre os pitagóricos e cabalistas: no primeiro caso são literalmente os números de um a quatro, abordados indiretamente na doutrina plotínica da processão; já no segundo, surge na figura do Tetragrama Sagrado composto pelas letras “Yud”, “Hei”, “Vav” e “Hei”, que forma a palavra, cuja a prenuncia é secreta, “יהוה”, um dos nomes de Deus. Portanto, combinaremos as escolas grega e hebraica para penetrarmos nos segredos de cada um dos quatro primeiros números.
O Um
Tamanha é a importância do primeiro número que podemos dizer que ele é de fato Deus - em outras palavras, uma das maneiras mais precisas de se referir a Deus é através do conceito de “Um”. Evidentemente não nos referimos aqui ao ponto de vista matemático “escolar” ou meramente quantitativo (que chamamos de “Matemática Inferior”), e sim à Matemática propriamente dita, qualitativa, àquela que é em si a Filosofia (“Matemática Superior”). Para entender por que o Um é Deus, leia nosso artigo “Simbolismo Geométrico - Segredos do Ponto e da Unidade”.
Sendo o Um Deus, o um com inicial minúscula é símbolo do Um e também da unidade, ou seja, representa a unidade contextualizada, contingente a um contexto, a um nível ontológico ou aspecto deste. Expliquemos: tanto a Criação quanto seus diversos elementos possuem unidade, não a divina, mas uma de grau inferior, que chamamos de “unicidade”. Logo, esse um, com inicial minúscula, é a unicidade de algo. Por exemplo, uma coisa específica pode ser abstraída como ela mesma, apesar de fazer parte de um conjunto que a engloba e que em si é uma outra coisa específica: o homem é homem enquanto elemento da Criação, bem como é conjunto de todos os elementos que o compõem que, por sua vez, podem ser tomadas como coisas específicas dotados de unicidade, como sua mão direita, sua alma, seus cinco “bhutas” (“भूत”) e cinco “vayu” (“वायु”), etc. Sendo a unicidade, é o princípio do qual outros derivam, assim como o dois deriva do um. Aqui há uma cadeia causal ontológica: da unicidade deriva-se a dualidade, de maneira que esta é condicionada à primeira. No homem, há várias imagens da unicidade próprias a níveis ontológicos específicos: a figura corporal é a unicidade do homem aplicada ao contexto material, sensível, a saber “Vaishwanara” (“वैश्वानर“); sua alma, “jivatma” (“जीवआत्मा“) é a unicidade aplicada ao contexto sutil, “Hiranygarbha” (“हिरण्यगर्भ”), de maneira que a figura corporal é uma imagem reflexiva da alma; seguindo a cadeia causal, o espírito/intelecto é a unicidade do home no contexto espiritual/intelectual. Então temos que ter em mente que há unicidades específicas que derivam uma das outra e que, de uma unicidade específica deriva uma respectiva dualidade específica: da figura corporal deriva a dualidade corporal sobre a qual falaremos a seguir.
No Tetragrama Sagrado, o um é representado pela letra “Yud”, de valor numérico igual a “10”. Só este fato possui implicações metafísicas profundas, mas é evidente que o 10 possui relações íntimas com o 1. Aqui, essa letra é representada pelo fogo, princípio qualitativo intimamente relacionado ao espírito e à unidade. No “Gênesis”, esse fogo unitivo se faz presente nos primeiros versículos da “Bíblia”:
“בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים” (“No Princípio, criou Deus (…)”) (“Gênesis”, 1, 1, a)
Na verdade, esse fogo, que simboliza tanto a unidade divina, quanto a unicidade que dela deriva, estão “dispersadas” entre as palavras deste trecho e os espaços entre elas, de modo que há que se falar em “tipos de fogo”. Adiantamos que Deus em si se faz presente antes da primeira letra da “Bíblia”, “Beit”. Como se trata de um assunto demasiadamente complexo, cabe um estudo específico sobre ele (um sobre a primeira letra do “Gênesis”, e outro sobre o trecho citado).
O Dois
O dois, por sua vez, representa a dualidade. Neste caso não há que se falar em um “dois com inicial maiúscula”, pois este número não caracteriza nem Deus, nem alguma qualidade essencial a Ele. Pelo contrário, o dois diz respeito especificamente à Criação: é a “entrada” na obra de Deus, aquilo que propriamente não é Ele.
A dualidade é, antes de tudo, relação, portanto, relação entre duas coisas, sendo a primeira aquela estabelecida entre Deus e o que Ele cria. Ora, Deus existe independentemente de qualquer coisa, já a Criação não, assim essa dualidade é hierárquica. Logo, os demais tipos de dualidade também são hierárquicos, como a que ocorre entre o espírito e a alma e entre a alma e o corpo, por exemplo. Outra situação que ilustra bem esse princípio ontológico é a relação entre causa e efeito: o efeito depende da causa para existir, mas o inverso não se dá necessariamente, de maneira que esta é superior a esse na cadeia causal; a causa carrega em si o efeito em potência, sendo somente causa de fato quando há a consumação do efeito. Analogamente, havendo a Criação, Deus pode ser chamado de Criador, porém, mesmo sem essa, ele é Criador em potência, como ato puro. É por isso que se diz que a Criação “louva a Deus”. Seguindo a analogia, o efeito “louva” a causa, “presta homenagem” a esta, bem como a obra de arte “homenageia” o artista a partir de sua consumação.
É o dois a estrutura do conhecimento dialético, aquele em que se conhece algo na proporção em que esse algo é ele mesmo e não é aquilo que não é, portanto, um conhecimento relacional. O próprio dois, nesse sentido, relaciona-se à ideia de “espelhamento”, sendo uma nota simbólica fundamentada por este número.
Ainda, este dois surge como produto de uma relação intrínseca de Deus, que ocorre em sua intimidade: estamos falando do conhecimento que Deus tem de Si mesmo, sendo este conhecimento Ele próprio. É daí que surge a ideia do Verbo ser gerado, e não criado - o Verbo é Deus que conhece Deus, Ele próprio que se vê sem mediações, mas imediatamente, sendo Deus, o conhecimento de Deus por parte de Deus e Deus que conhece a Deus um único ente (as aparentes diferenças são uma possibilidade de contemplação da Divindade própria ao intelecto não divino, na medida em que este possui unicidade, logo, unidade relativa). É por esse motivo que Nosso Senhor Jesus Cristo diz:
“(…). Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho(…) (“Evangelho de São Mateus”, 11, 27)
Portando, há no Um uma “dualidade aparente”. Caso sigamos nessa análise, verificaremos os motivos de ser dito que “o um contém todos os outros números”. Ora, o um carrega dentro de si os dez primeiros inteiros, as dez leis ontológicas que fundamentam a Criação e seus elementos. No Tetragrama Sagrado, o dois aparece como sendo o primeiro “Hei”. Ensinamentos de Kabbalah informam que Deus criou o mundo “como quem pronuncia a letra ‘Hei’”, pois é o fonema hebraico que demanda menos esforço para ser vocalizado, simbolizando a onipotência divina. Isso corrobora o que dissemos sobre ser o dois próprio à Criação. Além disso, esta letra simboliza a água, elemento que estabelece dualidade com o fogo, símbolo do caos que, uma vez ordenado, torna-se cosmos. Não há que se falar aqui em uma coisa que existia simultaneamente a Deus, até porque a terminologia cronológica só é usada analogamente para descrever aquilo que se dá fora do tempo, pois este é uma das condições próprias do plano corporal.
No “Gênesis”, o dois como água aparece no que se segue ao trecho já citado:
“אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ” (“os Céus e a Terra”) (“Gênesis”, 1, 1, b)
Entendemos que isso pode causar confusão, uma vez que até este momento do texto bíblico não foi citada a água, porém, especialmente no que concerne o primeiro capítulo da “Bíblia”, cada versículo anterior é um resumo dos posteriores e o posterior é um detalhamento do que foi dito anteriormente. Assim, as águas sobre as quais pairava o “Ruach” de Deus (“Veruach Elohim”, “רוּחַ אֱלֹהִים”) são elas mesmas aquilo que é diferenciado em “Céus e Terra”. Para compreender melhor esse trecho, leia nosso artigo “Simbolismo Cristão”.
O Três
Uma das representações mais conhecidas do três é sua manifestação geométrica, a saber o triângulo. O vértice superior represente o um do qual o dois provém, ilustrado nos outros dois vértices paralelos e inferiores. Portanto, o três simboliza a proveniência da relação a partir da unicidade: da causa provém o efeito, que é relacional em si (é efeito de uma causa sobre outra coisa).
O três também aparece como estruturante da ideia de “analogamento”, pois duas coisas se analogam em torno de um logos analogante. No Simbolismo, esse analogamento ocorre através do símbolo, portanto em torno de uma perfeição, como ensina Mário Ferreira dos Santos, em “Tratado de Simbólica”. De qualquer maneira, quando há relação entre duas coisas, estas se reconhecem mutuamente em torno de uma semelhança: o vinho interage, reconhece, a taça naquilo que ela tem de material por meio de sua materialidade. Há que se falar em graus de relação, havendo aquelas que se dão em torno da materialidade dos objetos (como no exemplo anterior), outras de natureza intelectual nas quais as coisas se reconhecem intelectualmente, como ocorre na Simbólica, etc. É o três o ternário, estrutura ontológica da relação, e, assim sendo. algo que podemos vislumbrar em Deus. Voltando ao que fora dito do conhecimento que Deus tem de Si, Deus que se faz conhecer e Deus que conhece Deus São analogados pelo conhecimento de Si mesmo, sendo esse conhecimento o próprio Deus.
No Tetragrama Sagrado, o ternário figura na letra “Vav”, que simboliza o ar, elemento relacionado à alma no que compete a faculdade da comunicação, como explicamos no terceiro episódio de nossa série “Antropologia Tradicional”. Vale ressalvar que o ar não precisa está relacionado diretamente à alma, mas, em geral, simboliza a comunicação, seja conforme sua dimensão psíquica, seja sob sua dimensão intelectual, afinal ela é multifacetada e se perfaz gradualmente ao longo da Ordem do Ser, sendo seu primeiro grau o que Deus comunica a Si mesmo sobre Si mesmo. Desse modo, quando se fala em ternário, fala-se em relação e em comunicação, pois, no estabelecimento de uma relação, um polo comunica algo sobre si ao outro e vice e versa. Não é à toa que na figura do triângulo há três relações que subsistem em uma: aquela entre as coisas analogadas e entre o analogante e cada analogado. Para exemplificarmos isso, tomemos dois exemplos:
O leão e o rei são analogados através do Sol: primeira relação, que aponta para um vértice superior;
Segue-se disso que, se o leão pode ser simbolizado pelo Sol, possui uma semelhança com o rei: uma segunda relação;
Concomitantemente, o rei, sendo simbolizado pelo Sol, também possui semelhança com o leão: terceira relação simultânea a segunda.
Quando o vinho interage com a taça, ambos interagem através de suas materialidades: primeira relação;
o vinho é material, participa da materialidade, possuindo uma semelhança com a taça: segunda relação;
a taça é material, possui, consequentemente, uma semelhança com o vinho: terceira relação.
No último exemplo, havendo a interação a nível material, o vinho “se revela” à taça através da materialidade, o contrário sendo válido. Analogamente, quando o leão e o rei são simbolizados pelo Sol, ambos também se revelam um ao outro através do símbolo, relação que não é de ordem material, mas espiritual. A analogia anterior é válida pois é estruturada ontologicamente pelo ternário da mesma maneira que o segundo exemplo. Podemos ir além e dizer que ambos os dois tipos de relações exemplificadas são analogadas em torno do ternário.
O Quatro
Antes que falemos especificamente do quatro, vamos desdobrar alguns conhecimentos pitagóricos provenientes da figura do triângulo. Fora a questão abordada dos vértices, o triângulo é formado por três pares. Isso representa o dois como princípio do três, como constituinte de sua essência. Por outro lado, o próprio triângulo em si é uma figura, o que representa o um como constituinte do três. Em termos numéricos, o um atribui a essencialidade do três, permitindo que este seja um princípio, um algo específico, e o dois a sua “numeralidade”, a capacidade de ser quantificado e relacionado - é por isso que entre os pitagóricos se dizia que o primeiro número é o dois, pois é dele que provém de fato a numeralidade. Seguindo essa lógica, o quatro se relaciona ao quadrado, figura constituída por dois triângulos isósceles de bases congruentes. Logo, fica fácil percebermos como o três participa do quatro, assim como, sucessivamente, o dois e o um.
Observando o quadrado originado pelo posicionamento de um triângulo isósceles abaixo de outro, temos a unicidade que gera a dualidade e esta que produz uma nova unicidade, inferior à primeira, conforme o esquema que segue:
Sendo o polo de cada dualidade uma unicidade em si, estas geram outras dualidades, nas quais cada polo é uma unicidade em si, porém inferiores especialmente por serem unicidades que são polos de uma nova dualidade, logo, unicidades provenientes de outras duas unicidades de grau superior, conforme o esquema abaixo:
Naturalmente, esse encadeamento segue de maneira indefinida, e caso o modelo seja expandido, irá culminar em uma figura circular, formada pela irradiação de dois pontos que partem de um anterior. Observemos que, segundo essa esquemática circular, esse padrão não pode ser deduzido do primeiro ponto central (quantos pontos partem do centro necessariamente?), o que cria uma relação de “incomensurabilidade” entre as unicidades que produzem o “fractal circular” e o centro do círculo. Isso ilustrar o que dissemos acima sobre o Um possuir unidade, ou “unidade absoluta”, e os demais pontos que seguem dele possuírem unicidade, ou “unidade relativa”. Nesse esquema, o centro é Deus, e os pontos que o orbitam são os elementos da Criação, dotadas de unicidade, mas dispostas sob uma cadeia necessariamente relacional. Este é o simbolismo secreto do quatro: a possibilidade da criatura ser criadora - assim como ela participa da unidade através da unicidade, do Ser pelo seu ser, também é subcriadora, ou mais especificamente, submantenedora.
O quadrado, portanto, como esquema geométrico essencial do quatro, sintetiza a ontologia desse número. Caso rotacionemos esse quadrado em quarenta e cinco graus, teremos sua disposição convencional, na qual há dois pares de vértices, um superior e outro inferior, símbolo do ciclo. Notemos que o “quadrado dos ciclos” é proveniente, por assim dizer, do “quadrado da causalidade”, estando submetido a este, o que revela que a aparência “repetitiva” da ciclicidade é só aparente e quando esta é vista apartada de sua causa ontológica anterior. Concluímos assim que todo ciclo é, na realidade, um movimento que se inicia em um grau e culmina em outro de grandeza diferente: se for um movimento centrífugo, há uma descida na Ordem do Ser, se for centrípeto, uma subida. No entanto, não há possibilidade real de se fugir do Ser, pois, na medida em que os pontos do círculo esquemático citado se desenvolvem indefinidamente, há a tendência ao infinito. Este conhecimento iniciático revela a natureza do cosmos, da atividade criadora de Deus, do Céu e do Inferno.
Como deve ter ficado patente aos nossos leitores, cada trecho desse estudo pode ser desdobrado em aprofundamentos específicos, tarefa que cabe a nós em breve, assim esperamos.



