A morte e a morte
Sem Quincas Berro D'Água
Em uma de suas memórias mais cândidas, Nelson Rodrigues descreve a cena de um filme italiano em que uma mãe invade o velório de seu filho aos berros e começa a chupar os dedos do pé do defunto como se fossem aspargos. Começa pelo dedão e vai sorvendo dedo por dedo. A imagem bizarra introduz uma digressão nostálgica de Nelson sobre velórios antigos.
Em 1917, 18, 19, os enterros saíam mesmo de casa. Não era como agora. Agora despacha-se o cadáver pelos fundos. É uma espécie de rapto vergonhoso – como se a morte fosse obscena.
Ontem terminei de ver a adaptação de Sandman, a memorável HQ de Neil Gaiman, no Netflix. Um primor. Com o fim da saga de Morfeus, ganhamos um capítulo extra – O alto custo de viver, que pegou um spin-off de Sandman, a minissérie de três partes em que a protagonista é a irmã mais alegre de Morfeus: a Morte.
(Breve glossário para quem nunca leu Sandman: a HQ de Gaiman conta a saga de Sonho – e seus vários nomes, o Moldador, Morfeus, Oneiros – e de sua família – os Perpétuos (the Endless). Eles são sete – todos começam com D em inglês – Dream (Sonho), Destruction (Destruição), Destiny (Destino), Delírium (Delírio), Desire (Desejo), Death (Morte) e Despair (Desespero). É uma obra-prima)
Na HQ, a Morte é uma moça jovem de pele branquíssima, trajes góticos e espírito jovial. Na série, ela é negra, interpretada por Kirby Howell-Baptiste, que arrebenta no papel. The high cost of Living vale muito a pena – em qualquer meio.
A dusas histórias abordam o suicídio. Em sua crônica, Nelson conta a história de Carlinhos, o asmático enciumado cheio de espinhas, que briga com a namorada e anuncia:
- Amanhã você vai ao meu enterro!
Carlinhos toma veneno numa farmácia e morre. É uma morte hiperbólica, suburbana, brasileira, vingativa. Ou, para usar um adjetivo só, rodrigueana. A mãe e a noiva invadem a farmácia, há um conflito com unhas. A noiva tira os sapatos do cadáver e começa a beijar seus pés frios.
A HQ de Gaiman começa com Sexton, um jornalista deprimido, escrevendo uma nota de despedida para a namorada que o dispensou. Ele deixa seu apartamento com um saquinho de comprimidos letais e encontra uma trilha de livros abandonados que o leva a um depósito de lixo. Lá, pensando em se matar, ele esbarra numa jovem divertida que diz ser a Morte encarnada. Ela está em seu dia de folga, um evento que acontece a cada cem anos.
Um texto, um capítulo de série, talvez seja coincidência esse fio capaz de ligar a comédia grostesca da realidade com fantasia. Talvez.



