Conto #24 O sangue
do destino que não se pode escapar
Tico batia forte nos golpes de mão fechada e exibia dedos ágeis no cavaquinho.
Nunca conheceu o pai. Não demonstrava o mais remoto interesse em saber do que o pai gostava de fazer, do que não gostava, se tinham algo em comum, se o pai tinha algum motivo para tê-lo abandonado.
A mãe dizia sempre que o sangue era mais forte. Tico ouviu essas frases e a relacionava com a existência do pai. Com a ausência dele.
Eles tinham as mesmas expressões faciais, a mãe não podia deixar de perceber, os gestos eram idênticos e gostavam das mesmas coisas; por exemplo, exagerar na pimenta e na farinha, e comer feijão com macarrão.
Tico nunca viu o pai, nem em foto, nem ao menos sabia dizer o nome dele. Se a mãe disse o nome do cara algum dia, ele tinha esquecido.
Nunca fez falta, nunca fez… a rua me ensinou tudo, dizia a si mesmo nas vezes em que pensava no pai.
Tico brigava quase toda semana no colégio público. Às vezes retornava para casa com os lábios partidos. De outras, mostrava sua arcada dentária alva e uniforme a reluzir de satisfação pelos pequenos cômodos. Era assim quando acertava um soco à traição, e o oponente, estupefato, arrebentava-se contra o chão do colégio, feito uma jaca. Uma vez bateu no professor de português e quase foi expulso.
Tico arrumava namoradas com facilidade, passava de ano, somente depois de passar pelas provas de recuperação. E tocava de ouvido todo o repertório do pagode baiano dos anos 1990.
Aos dezesseis anos, Tico começou a trabalhar como menor aprendiz na Secretaria de Administração do Estado da Bahia. Distribuía documentos pelos prédios do Centro Administrativo, estacionava por infindáveis minutos na fila da xerox, servia cafezinhos – atividade que considerava humilhante – e comprava acarajés para as chefas no tabuleiro da baiana da Assembleia Legislativa. Cumpria suas tarefas em alta velocidade para ter mais tempo livre, para ficar sem fazer nada.
Tico começou a vender cartuchos vazios de impressora para um funcionário da Assembleia. Percebeu que eram jogados fora de maneira displicente pelas secretárias das repartições. Ele tinha ouvido que os cartuchos poderiam ser recarregados e visualizou a oportunidade de ganhar um dinheiro extra. Meses depois vendia, entre os cartuchos vazios, um novo. Chegavam muitos cartuchos, não havia exatamente um controle. As resmas eram impressas ao infinito no setor em que Tico trabalhava.
Vendeu somente cartuchos novos em uma leva. Ninguém notou nada. Passou a calçar tênis de marca. Passou a vestir calça e camisa de marca. Passou a levar as meninas para tomar milk-shake e ver filme no Shopping Iguatemi.
A bonança durou meses. Até que foi preso em flagrante. Ele nunca soube quem o dedurou, pois todo mundo do setor parecia gostar dele ou ao menos demonstrava compaixão por ele; um menino tão forte e tão pobre.
Mesmo sendo um menor de idade, Tico foi encarcerado em uma delegacia. Na primeira noite, os presos o violentaram e queimaram com bitucas de cigarro várias partes de seu corpo. Tico lutou, conseguiu acertar alguns socos…
Uma semana depois foi libertado, após uma ação da Defensoria Pública. Tico nunca foi julgado pelos furtos dos cartuchos.
O sangue é mais forte, a mãe disse ao vê-lo entrar em casa. Abraçou a mãe rapidamente e foi se deitar no quarto.
Tico prometeu a si mesmo que nunca mais seria preso. Não haveria uma próxima vez. Nunca mais daria mole daquele jeito.
Meu pai sentiria orgulho de mim, das coisas que eu ainda vou fazer, ele pensou antes de pegar no sono.
Tudo é ficção. Mesmo que tenha acontecido
Fotografia de Gordon Parks registrada no Harlem, Nova York, 1948.



Esse Tico tem é história! Conhece o CAB de CABo a rabo! Até o acarajé da ALBA ele frequentava. Será o futuro Tico Galinha?