As leituras de 2025 (parte 1)
Livros, quadrinhos e mangás que me acompanharam pelo ano
Sou uma pessoa metódica no que fiz respeito a leituras. Ler é algo que me ajuda a manter a cabeça organizada e funcional. Um provável antídoto à bagunça mental criada pela comunicação ligeira, desordenada e rasteira das redes sociais. Em 2025 resolvi direcionar meu guia de leitura com temas, autores e séries. Comento alguns dos mais interessantes abaixo:
New Weird
Aproveitei o lançamento na gringa de Absolution, quarto livro da até então trilogia The Southern Reach escrita pelo estadunidense Jeff VanderMeer, para reler tudo numa tacada só. Os três primeiros saíram com capa nova belíssima lá fora e com introdução de autores famosos. Aqui no Brasil continuamos com a versão antiga publicada pela Intrínseca. Sigo achando Aniquilação, o 1º livro, uma leitura essencial para quem quer entender de ficção científica e weird contemporâneos. Ele é um livro fechado em si mesmo, então não é preciso ler o restante da série. E, bem, sobre o restante, é um grande exercício de paciência que só recomendo a quem estiver nessa por motivos de pesquisa. Num ano em que debatemos muito a importância da forma que apresenta o conteúdo, acho que o VanderMeer pesa a mão demais, demais, demaaais na forma. Absolution parte de uma boa ideia, uma boa dupla de personagens principais e uma baita história, mas a forma, rapaz. As camadas kafkianas fazem sentido para o que é contado, mas sentido às vezes é algo superestimado. Já Aniquilação encontra o equilíbrio perfeito, e por isso segue sendo meu favorito do universo da Área X.
Insólito
Outra exploração prazerosa foi ler a autora japonesa Yoko Ogawa, que estava parada no meu kindle fazia tempo. Li os três títulos que achei em ebook em português. O museu do silêncio foi o favorito entre eles e uma das minhas leituras favoritas do ano. Algo como uma distopia moderna que trata de luto e memória, tema recorrente na obra da autora. Não sei se o chamaria de surrealista, mas há algo de insólito na escolha dos elementos que vão compondo seu mosaico de personagens e situações. O museu em si é dedicado a preservar a memória de pessoas que já morreram. Isso é feito expondo objetos roubados que representem o morto. O protagonista, um curador contratado por uma senhorinha nos últimos anos de vida, vai morar num vila isolada para dar corpo ao museu. Personagens vêm e vão e há um senso de perigo constante no ar, com direito a um psicopata à solta (embora o livro não seja nada parecido com o que eu esperaria se lesse “psicopata” e “senso de perigo” numa resenha). Polícia da Memória é o mais famoso da autora, mas achei O museu do silêncio muito superior.
Queer
Encontrei algumas das minhas melhores leituras do ano em livros e quadrinhos com protagonismo LGBTQIA+. Os brasileiros vou deixar para a parte 2 desse post junto com o que venho chamando de “literatura assombrada brasileira”.
De estrangeiros, Sob as árvores de udalas, da autora Chinelo Okparanta, é outro que entrou fácil no meu top 5 do ano. Um romance queer passado na Nigéria, muito bom e muito triste, conta a história de uma mulher que descobre sua sexualidade quando menina, no meio da guerra, ao começar uma amizade com uma menina órfã que cruza seu caminho. Com o tempo, para agradar uma mãe narcisista extremamente cristã que está enfiada num luto eterno, e também por medo de ser assassinada, ela se entrega à pressão da sociedade nigeriana e se força a viver uma vida heteronormativa. Como sabemos, negar a si mesmo é insustentável no longo prazo e essa pressão começa a matá-la por dentro e ela precisa decidir se escapa da sua rotina de morta-viva ou se se entrega de vez à condição anestesiada da apatia.
É um livro muito rico em contexto social e histórico, com personagens complexos (inclusive os que despertam raiva), e com isso consegue demonstrar a complexidade de ser uma pessoa QUEER num país perigosamente homofóbico. Além da questão queer, fala de racismo entre as etnias locais e de como isso ficou depois da guerra. Fala do peso do machismo sobre mulheres e também sobre homens. No que tange a mulheres consegue costurar o quanto as reflexões sobre vida queer têm a ver também com mulheres heterossexuais, fala do papel que a religião cristã desempenha para reforçar mecanismos de controle e o que isso tem a ver com a cultura capitalista. Tem um final good vibes que me irritou um pouco, mas porque eu não tive meu final good vibes na questão familiar e não por ser um final ruim. Selo livrão de qualidade. Foi publicado pela editora Kapulana.
Mais um que me chamou atenção foi Me chama de Cassandra, livro de Marcial Gala. O autor cubano, um homem hetero e negro, traz como protagonista uma pessoa branca, loira, de olhos azuis e que está se percebendo como mulher transexual.
Nascido Raul na pequena e pobre cidade cubana de Cienfuegos, o protagonista é o estranho da turma, o mais fraco, aquele que sempre apanha, que gosta mais de livros e poesia do que esportes e brigas. Seu pai é um homem, branco e loiro baixinho e violento que bate nos filhos e na esposa quando sóbrio e quando bêbado. Com os anos, Raul começa a se vestir de mulher e querer ser uma mulher, o que o coloca sob risco de morte da Cuba de Fidel Castro onde ser “viado” é crime e até a família de um “viado” é condenada a cair em desgraça. Conforme vai vivenciando em oportunidades arriscadas sua vida de mulher, Raul percebe que é a reencarnação de Cassandra, a profetisa capaz de ver o futuro, ver as desgraças que recairiam sobre os outros. Nas histórias de Cassandra, ela é punida por Apolo, que retira dela o dom de persuadir quem a escuta. Em outras palavras, Cassandra está sempre certa, mas ninguém acredita nela.
Preso a essa vida em que vive pela metade para agradar os outros, incapaz de quebrar o rito de inércia no qual se encontra, Raul se alista no exército cubano e vai para Angola numa missão. Nas suas visões, ele sabe, é lá em terra estrangeira que encontrará o seu destino nas mãos de um militar que se encantará pela aparência herdada do pai machão.
Gostei muito de como o autor quebra a linearidade do tempo por conta da própria condição de Raul/Cassandra que é, foi e será, que conhece seu passado e seu futuro e se vê incapaz de fugir dessa “maldição”. A mistura de cultura cubana e de mitologia grega dá todo um charme ao livro que só não levou 5 estrelas porque recai em algo que acontece muito quando pessoas de fora de uma minoria escrevem sobre aquela minoria, que é perceber e denunciar as violências que a minoria passa, mas não conseguir ver seus personagens como pessoas capazes de agir e reagir. Faz total sentido pela metáfora cassandrística, mas quando espelho para a vida real isso me incomoda.
Outro que eu estava pronto para gostar, mas bateu na trave foi Vidas tardias, de Brandon Taylor. A escrita do autor se apoia muito no cinismo de certa literatura estadunidense que não é a minha praia, e isso me afastou. Mas o livro tem pontos positivos: tem muitos personagens gays, todo mundo transa com todo mundo sem isso ser um ó, meu deus, e as cenas de sexo são realistas e não idealizadas (o que é muito, muito raro em livros assim). A questão racial está presente e é atravessada por todas as suas complexidades de gênero, contexto social e, principalmente, de classe. As de classe em particular dão uma dimensão mais realista ao assunto e o autor discute dentro das histórias o quanto é complexo ir além das caixinhas que andaram moldando a performatividade das redes sociais, conseguindo entrar no âmbito do que nos individualiza sem transformar cada parte da nossa individualidade em um material de performance.
Não entrou nos favoritos, mas acho que vale citar aqui para entrar no radar de outras pessoas. Brandon Taylor, autor negro e, acredito eu, gay, foi finalista do Booker Prize com o livro Real Life (Mundo Real) e é considerado um dos grandes nomes da literatura estadunidense atualmente. O livro saiu pela editora Fósforo.
Quadrinhos
Li poucos quadrinhos esse ano. Dois mangás boy’s love que misturam máfia e putaria (sempre imagino a cara dos Yakuza lendo um negócio desses): Afterglow, que tem um traço lindo, muitas cenas de sexo e pouca história, e Pássaros que cantam não podem voar, que tem um traço mais característico, muitas cenas de sexo e muita história. Mas os destaques do ano foram mesmo os dois volumes de Minha coisa favorita é monstro.
Livraço. No traço de caneta bic da autora e artista Emil Ferris, nós acompanhamos a vida de Karen Reys numa conturbada Chicago dos anos 1960. Fã de filmes de horror e de “arte de museu”, Karen se retrata no seu diário desenhada como uma lobismoça de traços estereotipados, o que diz muito a respeito de como ela se vê sendo latina numa cidade racista. Valendo-se dos códigos da ficção, Karen tenta entender o mundo violento e conturbado no qual existe. Cada página do quadrinho é um registro do dia a dia de Karen, dos personagens pitorescos com que vai encontrando, das amizades que constrói, dos amores que mexem com seu coraçãozinho lupino (oi, protagonismo queer) e também do tanto de problema que a cerca.
Embora muitos assuntos se cruzem ao longo de mais de 400 páginas, são dois os ganchos principais da história: a relação de Karen com Diego, seu irmão mais velho que é um mulherengo delinquente, mas também seu grande herói; e a morte de sua vizinha Anka Silverberg, uma sobrevivente do holocausto. Investigar a morte misteriosa de Anka leva Karen a conhecer mais do submundo do crime de Chicago e da relação da cidade com a Alemanha nazista. Gangsters, drag queens, artistas, ricaços estranhos, músicos, policiais sinsitros, valentões de escola, o mapa de personagens é extenso, mas muito bem costurado por Emil Ferris.
Aliás, a história de Emil Ferris e de como ela chegou ao estilo que usa no quadrinho é interessante por si só. Se você nunca leu um quadrinho na vida, se gosta de boas histórias, se curte e pesquisa horror queer, se está de bobeira pensando na sua próxima leitura, cai dentro.
Saiu pela Quadrinhos e Cia, selo de quadrinhos da Companhia das Letras.
Li em inglês no digital numa promoção de assinatura do Kindle Unlimited, mas quando esbarrar numa promoção vou reler em papel, porque o traço é bonito demais.
Encerro essa edição por aqui e se a próxima não ficar pelo caminho nas correrias de fim de ano volto com a lista de livros de literatura assombrada brasileira e o bônus latino-americano.
Um abraço e até a próxima,
Eric Novello








Irei atrás!
Fiquei curioso com a origem do nome "Chinelo".