Vila
Por que ir a um ensaio da Vila?
Por Saulo Pereira Guimarães
Se você tiver um tempo, uma quarta à noite dessas, dê um pulo na 28. Ali na esquina com a Visconde de Abaeté, de frente ao Petisco, fica um pagode desde antes do início do ensaio, que começa às 20h. É um pessoal de um bloco que eu não lembro o nome e, para curtir, é só chegar. No dia em que eu fui, contei três banjos, dois cavacos, cuíca, tantã, pandeiro e muito mais.
O couro come sem microfone mesmo, num repertório sem mistério. Uma barraquinha ao lado vende bebida. Outra, mais adiante, churrasco. E é quase certo que o botequim, do outro lado da esquina, conta com um sanitário minimamente apropriado. Uma banca fechada serve de cenário para o suburbano espetáculo. E a audiência, prestimosa, não se furta às suas afinadas responsabilidades.
Quem nasce lá na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba. E, quando você vê, está cantando e sorrindo feliz com a pequena multidão. A coisa toda é profundamente despretensiosa e, talvez até por isso, mais verdadeira. Fica todo mundo ali, dizendo que fala em nome daquela que na passarela é a porta-estandarte e lá na favela tem nome de flor, elogiando o feitiço decente que mexe com a gente e dando à própria vida um raro momento de algum sentido desprovido de qualquer finalidade. O sentido de estar ali é a alegria e a alegria existe em si mesma, sem depois.
Nisso, junta-se a mim e ao bom parceiro que me acompanha sua companheira e nossa fiel escudeira em todas as batucadas. O bangue-bangue nosso de cada dia suspendeu os trabalhos da noite e, por linhas tortas, permitiu esse reencontro. Aparecem, do nada, novos amigos com as mesmas velhas afinidades, conversas fiadas e toda sorte de coisa que momentos desse tipo nos proporcionam. Eu me pergunto porque não existe algo assim em todo lugar sabendo que, mesmo que existisse, eu ia preferir esse aqui, por todo significado que só o tempo e o amor são capazes de construir.
E, quando você vê, está se perguntando mas pra que mesmo isso tudo, hein? Carreira, plano de saúde e sonho da casa própria não resistem a 10 minutos de uma boa roda de samba. Feito do jeito certo, um pagode é capaz de convencer a qualquer um que se basta em si mesmo. Houve um momento ali em que eu cheguei à conclusão de que, com boa comida, banheiro limpo e lugar para sentar, a vida poderia se resumir àquilo sem nenhum grande prejuízo — muito até pelo contrário. Uma vida que fosse anos a fio numa boa batucada seria, sem sombra de dúvida, uma vida completa e feliz.
Caso você tenha um tempo uma quarta à noite dessas e vá ao Boulevard, não perca também o ensaio da Vila. O samba é o melhor do ano e corrige a mancada do feitiço decente de Noel, ao dizer logo de saída que macumba é samba e o samba é macumba, pode até fazer quizumba — só não pode é separar. O que vai nesse verso é menos religioso do que espiritual, na medida em que se possa separar as duas coisas. E, para entender, o melhor mesmo é ir até o pagode que rola antes do ensaio, porque qualquer explicação seria, nesse caso, superficial demais.
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Deu uma saudade braba do Rio, ler esse texto...
Pagode é tudo de bom; é uma energia maravilhosa! Viva o pagode!