Santos Dumont
No fim, o fim é sempre um começo.
Por Saulo Pereira Guimarães
Era o que, 26 de dezembro? Talvez, 27. O certo é que já havia passado o Natal e, principalmente, o aniversário da Dona Encrenca — o último em sua companhia. Nós viemos até aqui, você me deu uma Coristina D e eu embarquei para Brasília. Menos de 10 dias depois, estava morto, enterrado e com tudo surpreendentemente resolvido. Foi como se você tivesse feito tudo que tinha para fazer na vida e, assim que acabou, tivesse saído — como sempre apressado e meio sem graça — para que ninguém desse pela sua falta.
Mas não se engane: muita gente deu (e ainda dá).
O voo acabou de decolar do Santos Dumont. É Azul, como foi toda nossa vida, e, se o céu não é de brigadeiro, talvez seja porque você esteja chorando um pouco também. Se existe Flight Radar por aí, eu sei que você me monitora. Por isso, tenha certeza: eu nunca vou ter medo de avião. Nem mesmo num voo como esse, cheio de turbulência. Parecido com aquele meu primeiro, contigo, de instrução.
Dentro de um avião, eu estou sempre com você.
É o segundo meio de transporte mais seguro que existe. Só perde para o elevador.
Tenho plena consciência de que estou traindo o nosso trato contando tudo isso, mas prometo ser discreto. Aliás, como você ensinou. Não vou dizer nem seu nome. Existe até o risco de que quem não lhe conheceu não entenda nada. Mas é melhor assim.
Quem conheceu vai entender.
Estou voltando pra lá depois de dias difíceis. As coisas não melhoraram por aqui e eu nem sei se vão melhorar. Mas fique tranquilo que eu volto. Eu sempre volto. Aprendi contigo. Posso até não ser igual, porque até essa liberdade você me deu — mas não vou ser muito diferente. Não precisa fazer DNA.
O engraçado é que, se eu soubesse e pudesse escolher, teria embarcado no Galeão daquela vez. Para nossa história, faria muito mais sentido — embora também fosse bem mais previsível. Porém, quis o destino que fosse o Santos Dumont. O mesmo de onde, anos antes, parti como hoje para onde estou indo de novo agora. Colado ao Centro, onde décadas antes, eles mesmos (que aí e, só por você, devem estar juntos novamente), tinham chegado só com um sonho na bagagem.
No fim, o fim é sempre um começo.
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Que lindeza de homenagem! Emocionante! Você é dez.
Que coisa mais linda, Saulo. Tô com os olhos cheios d’água. Que texto bonito!