mulheres e suas mortes
não existe amor em sp (e em nenhum outro lugar)
“Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra
Afogada em seu próprio mar de féu
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus” — Não Existe Amor em SP, Criolo e Milton Nascimento feat. Amaro Freitas
Música popular brasileira me fez adorar o amor que só perdura em sociedade utópica.
O amor que não é simplesmente sentir, mas agir e além do que idealizar, cumprir. É o amor que transborda e não teme ao orgulho ferido.
Amor que não fraqueja com o fim, pois, sua verdade é uma absoluta que sobrepassa o final e traz o mesmo prazer que as memórias guardam.
O amor intenso e sincero da música popular brasileira é, na verdade, dependência e crueldade. O ciúme que cantam sobre ser vaidade desnecessária se transforma em um homem recolhido na própria e intocável superioridade para se juntar à mulher apenas na hora da guerra.
No dia 26 de julho de 2025, na capital do Rio Grande do Norte, Juliana Garcia dos Santos Soares foi encaminhada ao hospital com o rosto desfigurado após receber, pelo menos, 60 socos de seu namorado.
O nome do agressor é Igor Eduardo Pereira Cabral.
Sabemos muito sobre a vida de Igor. As matérias se atentam em descrever seu histórico profissional e social antes de cometer uma tentativa de feminicídio contra quem dizia amar… Mas acredito que para os jornalistas do caso é desnecessário conhecer a mulher dessa situação. Não houve preocupação em descobrir e conversar com ela sobre quem é Juliana antes do papel de vítima, por isso, não escreverei a respeito da vida antes de ser marcada pela violência, mas consigo afirmar que o que aconteceu fez a filha, amiga, sobrinha e neta de alguém se sentir na posição de acolher outras mulheres que passaram pelo mesmo.
Atualmente, Juliana está em recuperação de cirurgia e sendo prestigiada de forma que sua força em permanecer acordada no elevador do prédio onde morava seja reconhecida, mas me atrevo a escrever sobre seu caso pelo choque que me atravessou ao assistir o vídeo embaçado por menos minutos do que ela suportou.
Desde a exposição do acontecimento, fui parte do público que acompanhou a contragosto outras tragédias como esta.
Em 19 de agosto de 2025, Laina Santana Costa Guedes foi morta pelo marido no apartamento em que morava em Salvador. Ela era, além de mãe das duas meninas que presenciaram o feminicídio, contadora. Viveu por 37 anos e teria tido a chance de presenciar os próximos aniversários das filhas caso um homem não tivesse decidido assassinar ela com mais de 10 marretadas na cabeça.
Ramon de Jesus Guedes, o covarde, ainda tentou fugir pela mesma varanda do crime, mas os vizinhos impediram que ele saísse impune.
A filha mais velha do casal tentou proteger a irmã e a mãe, mas seu corpo rapidamente se transformou em alvo do próprio pai para que ela não interrompesse. Com 12 anos, essa menina seguirá a própria jornada com a lembrança desse dia.
Esses dois casos citados somam mais de uma morte, embora tenha apenas uma vítima fatal, pois, toda mulher que imaginou o mesmo acontecendo por perto, ou consigo, morreu por dentro com um parasita do horror. Algumas mulheres morreram pela revolta em ser incapazes de conseguir fazer algo a respeito.
Mulheres morrem e continuam vivendo suas vidas normalmente todos os dias.
Eu mesmo, enquanto escrevo, me limito a sentir o terror de ser mulher e morrer a cada notícia em que outras sofrem com o preconceito, abuso, violência, sequestro, tortura e outras incontáveis formas que homens encontraram de matar uma mulher — e mais do que isso, ferir a integridade pelo prazer de poder.
De meninas a mulheres não existem dúvidas que possuímos possibilidades em ser. Somos a primeira mulher aceita em uma faculdade no mundo, a primeira mulher transsexual brasileira a obter um título na área acadêmica de doutora, a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel da Paz e a primeira mulher negra eleita em um cargo político no Brasil. Somos todas aquelas que celebraram a liberdade em estar viva e agir com o nosso direito de ir e vir.
Não deveríamos ser reduzidas à vítimas das histórias que construímos tampouco em crenças limitantes que nos restringem. Antes de tudo, somos pioneiras da história.
“E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho, teu bloco de pule
Teu dado chumbado, ponho água no bule
Passo e ainda ofereço um cafézin
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” – Maria da Vila Matilde, Elza Soares
Inicialmente, meu plano era escrever um monólogo baseado na música de Criolo, mas enquanto colocava letras em parágrafos sobre o amor contemporâneo e extraindo o meu próprio entendimento da composição, encarei as mortes das mulheres por trás disso. Não me leve a mal! Sou apaixonada pelo amor e suas ideias, acontece que estamos repetindo padrões de uma época cruel para todas as pessoas que significassem pluralidade.
Logo estaremos queimando as bruxas, os questionadores e os defensores?
Uma vez, a Gabriely Trindade — escritora do The Purple Diary of Gabi — escreveu em suas notas uma verdade de todas nós que não posso deixar fora desse texto. “Não querer saber ou falar de política é um privilégio que não atravessa a minha existência”.
Você consegue entender por trás disso?
Entendo a falsa paz que é proporcionada em desconhecer a diferença entre capitalismo e comunismo, mas política é além disso e garante nosso ato de ser mulher. Vestir uma calça, terminar um relacionamento amoroso, decidir trabalhar como professora ou cientista… tudo isso é política também. Não é revolucionário a ignorância com temas que determinam a nossa vida apropriada ou não para os espaços.
Uma mulher, negra e queer não pode passar a vida votando nulo ou em qualquer um, fugindo debates “porque é da paz” ou frequentando a mesma igreja que fez um jovem se suicidar. Ela, eu e, talvez, você, precisamos nos recusar a virar estatística com todas as chances que conquistamos.
Choramos em silêncio pelos fardos que nos pertencem e continuamos oprimindo no automático aquelas que desafiam um olhar diferente sob nossos corpos e hábitos. Morremos pelas outras e também somos nós os motivos de alguns óbitos.
Longe de mim presumir que sei a solução para todas as problemáticas que se desdobram socialmente envolvendo mulheres, mas a perspectiva masculina ainda dita os padrões autodestrutíveis que vivemos.
As músicas depreciam e justificamos com a ideia de permissão; a mídia objetifica e ignoramos pelo modo que as coisas simplesmente são; as mulheres competem umas com as outras e é por conta do homem, não dos ciclos que aprisionam em uma expectativa de ser vista pela imagem dele.
“A vida se molda ao redor do masculino.” e no tempo em que eles também sentem o peso disso, somos nós que morremos para manter o equilíbrio.
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Incrível Lety, já tinha te dito isso de antemão e agora repito novamente. Que texto potente, duro e necessário, esse é o retrato da nossa vida em sociedade, a vida é como é e nossa existência é politica a partir do momento em que somos oprimidas ou opressores. Se dizer acima ou imune a isso é no mínimo ingenuidade. Parabéns novamente!
Lety, que ensaio forte, para dizer o mínimo. Carregarei comigo a fala que as mulheres morrem todos os dias e continuam vivendo.
Gostaria que a mídia parasse de se preocupar com quem era o homem por trás de um feminicidio. Quem ele era se foi e agora ele é um assassino. Mulheres são definidas todas os dias por adjetivos e substantivos triviais, por coisas que não machucam ninguém e ainda fazem isso se voltar contra nós. Um homem assassino deve sim ser definido pelo crime que cometeu.
Esse caso me deixou revoltada pela quantidade de pessoas dizendo que era preciso ver os dois lados, como se fosse possível enxergar razoabilidade em alguém agir com tamanha violência.
Enfim, parabéns pela coragem de escrever a sua revolta, amiga. Vivemos um luto coletivo o tempo todo e é importante ter um lembrete sobre isso.