Com você, me reencontrei
O retorno à Mulher Selvagem através da maternidade
Olá :)
A edição de hoje está especial!
Hoje, um grupo de escritoras e escritores de newsletters, do qual faço parte, está organizando uma ação chamada newsletteraço que tem o intuito de incentivar a escrita.
A ideia é a seguinte: a partir de um (ou dois) tema(s), cada participante escreve um texto, e todos publicam no mesmo dia, em qualquer horário.
Esse dia chegou!
Os temas da vez são: FEBRE e/ou RETORNO
Abaixo uma lista das newsletters participantes — já deixo a dica de que vale a pena clicar nos links para conhecer uma galera boa demais:
Júnior Bueno escreve a cinco ou seis coisinhas
Denise Gals escreve a Aprendiz de Escritora
Nathan Elias-Fernandes escreve a PunkYoga
Leon Nunes escreve a O Substack de Leon
Marcela cor escreve a Eu não digo é nada
Wellington Mitrut escreve a Blog do Mitrut
Victória Haydée escreve a resenhas que ninguém pediu
Camila Perlingeiro escreve a O que eu queria ter dito
Lívia Reis de Sousa escreve a Colcha de Retalhos
Patricia escreve a Uma com a Terra
Lethycia Dias escreve a Uma mulher que escreve
Daniela Chaves escreve a por detrás
Paula maria escreve a Te escrevo cartas
Danilo Heitor escreve a Antes do fim
Gabriele Duarte da Silva escreve a Bom Proveito
Boa leitura e até mês que vem,
Daniela 🧡
Com você, me reencontrei
Sempre achei que você viria antes do tempo. Não sei por quê. Só sabia e pronto. Dizia que era a minha intuição. Até então, ela não havia falhado quando o assunto era você. Nos primeiros três meses em que você habitava meu ventre, enquanto enjôo e refluxo me impediam de dormir, fazia o tempo passar ao já fantasiar a vida com você do outro lado do portal-mãe e, vivia colocando suas roupinhas no carrinho online. Por incrível que pareça, mesmo sem saber que seria uma menina, todo o estilo daquele vestuário tinha um toque de menina. Até vestidos acabei escolhendo, imagine só! Coloquei a culpa na tal da intuição que nunca falhara. Portanto, estava certa de que você viria antes do tempo. O seu irmão veio, eu vim, seus tios também — é de família, confirmavam — você também viria.
Só que aí veio a espera. Astróloga nada amadora que sou, imaginava uma leonina chegando em minha vida. Poderosa, criativa, generosa. A sua essência solar conversaria com aquela casa no meu mapa natal que representa as transformações de vida, a tal casa 8, casa de bruxaria. Já idealizava como seria o seu coração — completamente iluminado pelo Sol, regente de Leão. Como você vinha antes do tempo, não havia possibilidade alguma de ser virginiana. Já existe um virginiano na família e ele, com seu senso crítico e sua visão pé no chão, basta — pensava eu sem perceber que quem calculava as previsões, era o desejo.
Portanto, desejei e esperei com a esperança de que a minha expectativa seria alcançada: você chegaria antes da hora.
Durante a espera, seu irmão já se distanciava de mim. Ele sentia e eu sabia, que algo grande estava à espreita. Sendo assim, eu desfrutava do tempo e te acariciava na minha barriga e, dentre outras coisas, escrevia:
Me ocupo com coisinhas que podem demorar muito, sem saber ao certo quais delas conseguirei terminar. Acabo pulando de um galho a outro, sempre sem muito foco, apenas esperando sentir algo que me indique que a hora é agora. Leio sem terminar o que comecei. — 18.08.2024
Nenhuma leitura me prendia. Lia uma página e já cansava, dispersava. Ainda para aquele mesmo texto, segui escrevendo:
Hoje, desci e subi escada e andei mais rápido sempre pensando que assim estou apressando a chegada, na esperança de ter algum controle sob a situação.
Tínhamos recém-entrado na nossa casa e os livros ainda estavam em caixas. Sem a demanda do seu irmão e com espaço para distrações, resolvi organizá-los. Foi quando então redescobri o livro-oráculo da Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que Correm com os Lobos”. Se não houvesse uma dedicatória linda da tia Teté na contra-capa, provavelmente, ele também teria sido vendido junto com todas as outras coisas antes de nos mudarmos para o carro-casa, lá em meados de 2022, quando você nem nos planos estava. Que sorte a nossa que não o vendemos, porque esse livro sussurrou em meu ouvido naquela mesma madrugada de espera e de escrita, uma semana antes da sua vinda. Você ainda vai saber o que é isso, filha: tem livros que chamam a gente. Imploram para serem lidos, porque a hora deles chegou.
Diferente das outras vezes, decidi começar o livro do começo. Até então, ele havia sido utilizado como oráculo poderoso: num determinado momento, olhava para ele na estante e percebia o chamado. Pegava-o nas mãos, fechava os olhos, respirava fundo, folheava as páginas com o dedão direito até sentir quando parar. E então, parava. Abria os olhos e o livro na página escolhida. Lia em voz alta a primeira mensagem que me saltasse aos olhos.
Entretanto, desta vez, não foi assim. Queria ler essa obra inteirinha, afinal, tempo era o que eu tinha. Não sabia quanto dele você me daria, minha pequena, mas ainda assim o tinha.
As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros. — Clarissa Pinkola Estés
Logo no primeiro parágrafo, esbarrei nessa frase. Li com atenção. Uma, duas, três vezes. Ela estava falando comigo. Desculpa, minha filha, implorei, enquanto te acariciava na minha barriga. Você não precisa me agradar. Mamãe sente pressa, impaciência, mas venha quando quiser vir, te acolhe no seu refúgio até que o seu sino interno te desperte avisando da sua hora.
Assim como nas outras leituras, desisti dessa naquele instante. Já era tarde da noite e eu precisava descansar. Sabia-se lá quando é que você resolveria nascer.
//
Observava os movimentos no céu, fantasiava que você viria na lua crescente, como eu. Mas ela passou. Ah então, será na lua cheia do dia 19/08/2024, sempre gostei do dia 19, será esse o dia, conversava comigo mesma. Contudo, ela também passou. Ou melhor, quase. Ela está esperando seus pais chegarem, brincava seu pai. Ele estava certo. Sensível que só ele, foi na noite após a vinda dos seus avós que as primeiras contrações vieram.
Eu tinha sido traída pela tal da intuição: você não viria antes do tempo. E por conta dessa traição, naquele dia inteiro de ondas que iam e vinham avassalando meu ventre, vagava sem saber mais como é que se revelava aquilo que deveria saber sem saber que sei. Não levava a sério aquelas dores e desconfiava de estar realmente experienciando o meu segundo trabalho de parto.
Quando a lua estava quase formando um ângulo de 90 graus com o sol, quase nos exibindo o seu quarto minguante, você resolveu olhá-la com os teus próprios olhinhos lá no céu. Na madrugada do dia 24, com o Sol já transitando no signo de Virgem, você veio, minha pequena.
Eu havia me enganado, filha. Não era para a sua essência conversar com a casa de bruxaria do meu mapa natal, para o seu Sol iluminar as minhas grandes transformações de vida. Era para o seu mapa ser todinho o contrário do meu. Os nossos sóis estão opostos um ao outro, como num cabo de guerra que eu escolho transformar numa gangorra. Enquanto eu sonho oceanos piscianos, você se orienta através dos ciclos e ritmos da natureza Virgem. O meu ascendente em Capricórnio, que brilha através de um plano racional e bem estruturado, é lindamente nutrido pela forma como você incorpora e demonstra as emoções do teu carangueijo. Ah, minha virginiana com ascendente em câncer, você precisou vir para me trazer mais paciência e me mostrar a diferença entre intuição e desejo.
//
Semana passada, o livro que agora nem de oráculo servia mais e passou ao cargo de “apoiodemonitor” pelo fato de ser grosso e estável, me fitou de novo. Resolvi tirá-lo dali debaixo do monitor e abri na página marcada pelo marcador vermelho de cetim. Não demorou muito e logo me lembrei da última vez que o segurei em mãos. Era naquela noite, enquanto todos dormiam e eu estava à sua espera. Constatei que o cansaço da gravidez já muito avançada tinha me impedido de passar da página quatro. Acaso ou não, um ano depois, esse livro quis voltar para as minhas mãos. Continuei a leitura de onde havia parado há um ano e de novo, uma mensagem estava lá. Ela falava comigo, era para mim:
Para encontrar a Mulher Selvagem, é necessário que as mulheres se voltem para suas vidas instintivas, sua sabedoria mais profunda.
[…] o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora do controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis.
Enquanto lia, você explorava o mundo ao seu redor. Te observei, sorri. Tudo começou quando te carregava em meu ventre e, hoje, posso, enfim, compreender a tal mulher-mãe que nós gestamos juntas:
Uma mulher que, […] quando imagina ter sentido a tal da intuição, lhe abre espaço. Que acredita na união da razão com a emoção e que enxerga nela mesma essa poderosa integração. — 29.06.2025
O chamado para o livro foi o lembrete que eu precisava para seguir entendendo que basta colocar o pé para que Deus coloque o chão. Ainda vivo apressada, cheia de vontade de fazer tudo para ontem, deixando de lado o descanso necessário para concretizar tantos desejos. Por vezes, ando desconectada do corpo e, diante das demandas diárias, minha mente voa, filha, e portanto, nem com você eu permaneço presente. Mesmo com esses seus olhinhos azuis cor de mar me encarando, tem horas que não os vejo e até esqueço do oceano que me habita para além dos meus pensamentos.
A última peça do meu quebra-cabeça veio há pouco, bem próximo da tua primeira revolução solar, durante um aprofundar dos meus conhecimentos astrológicos, quando descobri que o signo de Virgem representa também aquela que não tem dono, que não pertence a ninguém.
Você brincava à minha volta e não pude evitar perceber: nem um ano você tem, minha pequena, e já é isso que demonstra. Ninguém te diz o que, nem quando, fazer, você é quem determina. E assim, você me ensina: a retornar para a minha natureza selvagem, a escutar meus limites, a seguir os ritmos do coração da Terra. Me redescubro dona de mim mesma nessa minha segunda matrescência*. Através de você, filha, da tua presença e existência, estou reencontrando — dia sim, dia não — uma versão minha já existente, que agora pede amor, cuidado e atenção. Com você, estou aprendendo a me pertencer de novo e me valorizar sem a necessidade de me enxergar através do olhar do outro.
Que possamos juntas nos lembrar sempre da nossa natureza. E que, como afirmou Clarissa: “Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”
Sempre com amor,
mamãe ❤️
Para ouvir…
A Malú Lomando, uma mulher multiartista incrível (e que eu tenho a honra de chamar de amiga), lançou no ano passado um EP muito top.
Já faz algumas semanas que ouço a música abaixo no repeat. Assim que terminar a leitura, clica no link e se dá esse momento de presente ao som da voz dessa musa:
Abaixo um trechinho do qual me arrepio inteira ao ouvir e, que até conversa com a edição desse mês:
Mãe, eu vi o teu olhar na cachoeira
O teu pranto me lavou da solidão
me encheu de ouro
da tua luz, me fiz inteira
e do teu canto
a canção do coração
— Malú Lomando



Dani, querida. Estou sem palavras. Que texto mais lindo!
Sabe que estou com o MQCCL na cabeceira, querendo ser relido, tem um tempo. Vocês tem me convidado, frequentemente. Eu acho que estou pronta!
<3
Que todas nós lembremos sempre da natureza que Somos <3