A última carta
Sincronicidades natalinas.
Olá :)
A edição de hoje é como um especial de Natal: uma história de família, emocionante e cheia de coincidências para trazer aquele espírito natalino, caso ele ainda não tenha chegado por aí.
Caso você tenha chegado há pouco por aqui, essa newsletter é mensal e gratuita. Escrevo pelo grande prazer de organizar ideias, buscando sempre entregar minhas emoções e a partir delas, te envolver na história. <3
Esta é a última edição de 2024. Obrigada por estar aqui, lendo o que eu escrevo, mesmo que nunca tenha compartilhado isso comigo. A você, meu abraço apertado e votos de um lindo Natal e um Ano Novo sensacional.
Boa leitura,
Daniela 🧡
Na minha família, 24 de dezembro nunca foi só a véspera de Natal.
24 de dezembro sempre foi o aniversário de casamento dos meus avós paternos e, portanto, durante muitos anos, era óbvio que toda a família Chaves se reuniria na casa deles para uma celebração dupla.
A data do casamento não foi de caso pensado, foi a que tinha. Em 1953, ano de sua união, eles namoravam à distância e portanto, se comunicaram apenas por carta durante cinco anos. A distância não era pouca coisa: meu avô Affonso tinha ido cursar Engenharia Química em Montreal, no Canadá e minha avó Julia ficou na capital fluminense. Professora de escola pública no Rio, ela nos contou que lecionava na escola em que a diretora era ninguém menos que a grande poetisa Cecília Meireles. Na véspera de Natal de 53, se casaram na Igreja do Sagrado Coração em Botafogo e partiram no mesmo dia para uma lua de mel em Nova Iorque. Continuaram morando no Canadá apenas por mais cinco meses antes de embarcar para a sua próxima estação: a Suíça. Falo estação, porque eles viajaram o mundo mesmo, mas isso é papo para outra edição. Graças à breves anotações de minha avó nos seus livros de ouro, como ela os chamava, a história deles cheia de aventuras, chegou até a virar livro.
Sempre fui muito próxima dos meus avós. Apesar de cariocas, eles moraram por muito tempo em São Paulo e, durante boa parte da minha infância e pré-adolescência passávamos uma noite por semana na casa deles. A programação era sempre igual: às sextas-feiras, eu e meus irmãos encontrávamos nosso avô na porta do colégio, enquanto minha avó ficava em casa terminando de preparar o jantar. No cardápio, apenas comidas bem gostosas e que normalmente não eram frequentes na casa dos nossos pais, como pizza, cachorro-quente ou algo bem doce de sobremesa. Batíamos altos papos durante o jantar e em seguida, arrumávamos a mesa para um belo jogo de baralho. Este sempre foi - e ainda é! - o hobby da família: desde os três ou quatro anos de vida, eu já estava sentada à mesa com todos, aprendendo as estratégias dos grandes jogos. Meu avô era um verdadeiro ás no baralho e raramente tinha alguém que ganhasse dele. Já a minha avó era mais pé frio, como dizíamos, mas ela nunca se deixava abalar e sempre se consolava dizendo um de seus ditados: azar no jogo, sorte no amor.
Em festas na sua casa ou idas à missa, sempre tinha alguém que me chamava de “Julinha”. Impressionavam-se com as semelhanças na aparência e no jeito de falar e gesticular. Eu recebia esses comentários como elogios. Gostava do toque refinado de minha vó, admirava seu conhecimento de culturas e idiomas. Ela era boa com as palavras, apesar de sempre ter deixado meu avô com os louros em confraternizações de família. Coisas da época…
Aos dezesseis anos, após minha primeira experiência fora do Brasil, lembro de algumas de nossas conversas. Ela adorava colocar as pernas para cima após o almoço e eu sempre a acompanhava quando estava em sua casa. Deitava na cama com a barriga para cima e apoiava as pernas na cabeceira, faz bem para a circulação, aconselhava. Era um bom momento para enchê-la de perguntas sobre o seu passado e descobrir mais sobre minha linhagem. Pensando em algum dia alçar voos para fora de casa, eu ouvia interessada sobre suas viagens e vivências no exterior. Intrigada, questionava por que voltaram ao Brasil, se tinha sido tão marcante e especial. Ao que ela me respondia: voltar às raízes não tem preço.
Antes de me mudar para a Alemanha para estudar Engenharia de Produção, confessei que sentia algo de mágico em segurar um envelope nas mãos que tinha viajado o mundo para me encontrar. Pedi-lhe então que me escrevesse cartas de vez em quando.
Em 8 de novembro de 2011, em Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro onde moravam na época, ela começou: “Querida netinha, estou escrevendo a seu pedido, o que não é nenhum sacrifício, já que adoro escrever…”. E assim se iniciou um período de sete meses de uma conversa à moda antiga. Não que não tivéssemos outros meios, pelo contrário: meus avós eram bem modernos e usavam e-mail e Skype diariamente.
Escrevíamos de tudo um pouco e eu tentava à distância reviver nossas conversas de pernas para cima. Em uma das cartas, decidi confessar-lhe que, se tivesse uma filha, levaria seu nome. “Adorei saber que terei uma bisneta Julia!”, respondeu em 13 de fevereiro de 2012 e continuou escrevendo: “Meu avô dizia que a mulher dele - Julia - era uma guerreira (como você fala…)! Apesar de ter tido uma vida tão curta (morreu aos 21 anos) ele contava que ela destoava das outras moças da época: era muito ‘preparada’ (como se dizia antigamente para as pessoas que estudavam), sabia usar armas de fogo, adorava ir ao teatro, ler etc etc…Veja só que bagagem esse nome carrega!” Depois se pôs a contar sobre a vida cotidiana, explicando que meu avô tinha sido aconselhado pelo médico a parar de dirigir por conta de um problema no olho. Ele estava com 86 anos.
Quando o tempo das cartas era longo, matávamos as saudades numa conversa por vídeo conferência. Caso eu não estivesse online, ela usava aqueles créditos da conta do Skype para ligar diretamente no meu número de celular alemão: uma chamada internacional, coisa muito chic, como ela dizia. Em 13 de junho de 2012, minha vó Julia fez uma dessas ligações para saber como eu estava e anunciar que finalmente uma nova cartinha tinha sido entregue aos correios. Foi a última vez que ouvi sua voz.
19 de junho de 2012, era verão na Europa, mas já estava escuro lá fora. Devia passar das dez da noite quando minha mãe me ligou contando que ela havia ido embora. Fiquei sem voz, chorei sem som, ainda buscando o ar que me faltava. Não havia o que dizer, não estávamos preparados. Longe das minhas raízes, desejei naquele instante que o teletransporte fosse algo possível. Me senti sozinha. Recorri às suas cartas para senti-la mais próxima de mim, busquei conforto em suas linhas e entendi que aquela ligação tinha sido a sua despedida.
Dois dias após a sua morte, reconheci sua letra entre as correspondências na minha caixa de correio. Pelo carimbo no envelope, deduzi que escreveu e enviou no mesmo dia - determinada que só ela, não tinha tempo a perder. Por isso se foi tão depressa. Ela, que nunca ficou doente e sempre evitou dar trabalho aos seus, escreveu suas últimas linhas para mim quinze dias antes de partir. No momento da escrita, estava ainda cheia de planos futuros, nos encontraríamos dali três ou quatro semanas durante meu primeiro retorno ao Brasil desde a chegada em terras alemãs:
“Mil beijos, saudades do vovô e da vovó! Que esta encontre você bem de saúde. […] Até breve! Vovó Julia”.
Me lembro de não conseguir conter as lágrimas. Foi uma partida rápida e inesperada, precisei de tempo para assimilar sua ausência. “Saudade! Ah! Que palavra linda, mas cruel, não é? Sei o que é isso!”, revelou-me em sua primeira cartinha.
Pois é, vovó, muita saudade…
24 de dezembro de 2023, ano em que meus avós comemorariam suas bodas de vinho - 70 anos de casados! - nós descobríamos que eu carregava um ser em meu ventre, mais uma vez. Coincidência ou não, a minha menina veio.
Hoje, 24 de dezembro de 2024, a pequena Julia completa exatos quatro meses de vida. Olho para seu rosto rosado e sua cabeleira castanha, me perguntando se também se assemelhará à sua xará como eu, mesmo com esses olhinhos azuis do pai. Revendo minhas fotos de bebê, é fato que é minha filha. Se a genética for confirmada, fará então jus ao nome de sua homenageada.
Em 2025…
São muitos os planos de escrita por aqui. O principal deles é o tal livro que comentei na edição passada. Assim que a estrutura estiver pronta, conto mais dele para você.
Além disso, as newsletters mensais continuarão. Percebi que é possível organizar a rotina com dois filhos e sentar para escrever, dividindo com você minhas ideias e inquietações.
Participarei pela primeira vez de um clube de leitura (esse da Nevoeiro, olha só esta programação que a Carol Bensimon criou que especial!) e estou empolgada. Quero tentar trazer mais das conexões que os livros me permitem criar. Vamos ver!
No mais, te desejo um 2025 cheio de saúde e felicidade <3
Até a próxima edição!
Um beijo,
Daniela



oi Dani, belo texto. queria ter tido essa vó tbm!!!
Dani, acabo de chegar no seu texto e a palavra é essa: emocionada. Pensei tanto na minha avó....não troquei cartas, mas tenho as melhores lembranças e bilhetes de aniversário. Minha avó não era muito fã de pessoas, mas a mim sempre abraçava forte. Sem dúvidas suas cartas são abraços carinhosos da sua avó, e que um dia a Júlia poderá apreciar com os próprios olhos e coração. Desejo um excelente 2025 a você, sucesso nos projetos e....seguimos por aqui!