Papo de Quimera #5
Pergaminhos Perdidos, por Jopes Cunha
Novembro, 2020
Olá, pessoal. Primeiramente devo dizer que completar um ciclo de nossa news letter é animador e revigorante. Agradeço aos nossos leitores, amigos e família.
Desde os anos 90, vemos a ação de hackear como algo rebelde em filmes como Matrix (1999), WarGames (1983), ou Mr. Robot (2015) . Mas ao contrário do que essas representações fazem parecer, um hack não é algo difícil ou extraordinário. Hackear é alterar um sistema que não foi criado por você sem necessariamente avisar o proprietário. Tendo essa visão, nos cabe entender que quando digo Sistema, não é apenas de computação; mas sistemas sociais também e porque não, um sistema de RPG. Até mesmo o Dungeons & Dragons, surgiu como um hack de um Jogo de Guerra, as possibilidades do que podem vir são infinitas.
Aqui no Brasil, as primeiras versões de AD&D eram jogadas com o sistema de regras básicas, mas não era incomum ver adaptações ou novas regras surgindo com a necessidade das campanhas; tanto pelo sistema não abordar absolutamente tudo quanto por problemas de tradução. Uma outra motivação para adaptar outros sistemas por aqui, também foi não encontrar referências históricas, já que a clássica fantasia medieval europeia não é a nossa história. Isso talvez também se torne um incentivo para nós usarmos da antropofagia tropicalista para deixar os jogos mais abrasileirados, mas não é a questão aqui.
As empresas não deixaram de ver esse movimento, e em meio a licenciamentos e outras maneiras de utilizar os ditos “Homebrew” (Cozinhados em casa), surgiu o Documento de Referência do Sistema. E o que seria isso? Simplificando, é um documento onde refere em que sistema foi baseado, mostrando seu básico e autorizando a utilização dele para suas criações. Em suma, não precisamos hackear sistemas sem autorização do proprietário da marca. Isso é uma forma de abrir o engajamento entre criador e público para discussões de design e mecânicas de jogo. Particularmente acredito que seja uma das formas mais geniosas dentro do meio para propagar o jogo original e relacionar com o espectador/escritor.
Hackear sistemas já se tornou um traço característico dentro do meio de RPG, visto que inúmeras Jams hackeando sistemas foram feitas. Como a de Electric Bastion Jam, ou a One-Page RPG Jam 2020, onde vários envios foram hacks de Laser & Sentimentos e Honey Heist. O cenário de RPG indie atual é empolgado em testar suas ideias até o limite! No meio OSR (Old School Renaissance) não é difícil encontrar hacks populares para as edições antigas de jogos, como o The Black Hack.
Recentemente, me deparei com um SRD para Engine Year Zero traduzido em ptbr, você pode acessar aqui. Isso já aflorou minha imaginação, ainda mais quando descobri um Jam que está para chegar. Além dela, também fui surpreendido quando o Chris McDowall lançou o SRD de Into The Odd, chamado Mark of the Odd. Fiquei tão empolgado com a ideia de Mark of The Odd que traduzi junto ao Willy para nossa língua materna, você pode dar uma olhada aqui. Outro SRD clássico que devo mencionar sem dúvida é o de Dungeon World, foi onde eu me baseei para tentar criar um jogo para Avatar, A Lenda de Aang; que infelizmente nunca foi muito pra frente por falta de tempo.
Estados Unidos, 1971. Era uma noite sombria e trovejante quando dois homens trabalhavam em um porão empoeirado. Após um tempo indeterminado de esforço, finalmente puderam levantar sua criação: um monstro formado de pedaços de outros seres. Seu esqueleto e torso eram partes de jogos de tabuleiro, os tais Wargames. A pele fora arrancada das obras de Tolkien e costurada com nada além de criatividade e esforço. Erguendo sua criatura aos céus relampejantes, Gygax gritou “Está vivo!” e então a nomeou... Fantasy Games. Mais tarde o monstro clamaria um novo nome para si, um nome eternizado por gerações: Dungeons and Dragons.
Para fins de discussão, diremos que o que Gygax e Anerson começaram a fazer era um hack – uma modificação que deu luz a uma nova obra. E enquanto que a história acima pode ser apenas levemente canônica, ela explicita um ponto importante: hackear é criar RPG. Desde os primórdios do hobby, jogadoras, mestres e imaginadores no geral têm modificado o que existe e adicionando o que querem ver em seus sistemas e cenários favoritos. O que é o RPG se não a oportunidade de viver uma fantasia criada por você e suas amizades, daquelas que vocês viram em filmes, livros ou em seus próprios sonhos? E como se aproximar dessa fantasia se não modificando o que existe e fazendo suas próprias regras?
De certa forma, estamos modificando o RPG sempre que o jogamos. Improviso e criação são partes inseparáveis do ato de jogar. Essas modificações se intensificam e assim o Hobby se movimenta e cresce. Novas opções de jogo surgem, novas visões e uma diversidade maior de jogos e experiências se tornam possíveis.
Mas como começar? Bem, minha primeira experiência com hackear completamente um sistema foi criando um sistema curto de Love Live a partir do comovente Golden Sky Stories, de Ryo Kamiya e Tsugihagi Honpo. Não foi surpresa alguma descobrir que não existia ainda um RPG que simulasse bem as histórias curtas e adoráveis de idols escolares, e ao receber essa demanda só achei algo próximo no citado sistema japonês. Foi assim que eu comecei – não com tutoriais complexos e profundos conhecimentos de game design. Começou com uma vontade, uma fagulha, e tomou vida a partir daí.
Desde então, tenho experimentado com sistemas que facilitam o hacking como algo central. É o caso do famoso Fate Core, da Evil Hat, que pode ser baixado inteiro de graça, incluindo toolkit com regras opcionais e boas ideias de modificações. Além disso, possui um SRD muito intuitivo em português. Também vale citar The Resistance Toolbox, de Rowan, Rook e Decard (os criadores de Spire RPG). O livro é praticamente um tutorial de como criar jogos sobre resistência na adversidade, e poucas pessoas sabem que pode ser adquirido no formato pague-o-que-quiser. Essas opções são apenas sugestões, mas não as deixem te limitar. Pense em algo que quer, se inspire em materiais que respeita e comece a criar. Mais cedo ou mais tarde você também poderá erguer seu próprio monstro.
“Poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam; poetas ruins estragam aquilo que tomaram, e bons poetas transformam aquilo em algo melhor, ou ao menos algo diferente.” - T.S. Eliot, tradução livre.
- Rachi, contato: rachibirpg@gmail.com
Tales From The Loop
Quando nos lembramos de Stranger Things, os personagens do ato das crianças é um dos que mais nos chama a atenção. Crianças que, apesar de terem seus problemas próprios, ainda têm de lidar com os efeitos sobrenaturais de sua cidade por causa de um laboratório local. Quem não ficou emocionado com essas aventuras? Enquanto assistia pensei o quão seria divertido jogar um RPG naqueles moldes
Não precisei esperar muito. No ano seguinte da série, enquanto assistia uma aula sobre Retrofuturismo no meu curso de Design de Ficção, o professor passou entre os alunos um livro de RPG que se passava em um anos 80 alternativo que havia sido criado um acelerador de partículas. Esse livro não era nada menos do que Tales From the Loop e foi paixão à primeira vista. Enquanto lia, percebi que não era algum dos RPGs tradicionais d20, mas sim vindo de uma empresa Sueca chamada Free League que tinha uma base de sistemas usando principalmente d6, onde o sucesso é simplesmente tirar o resultado máximo. E tudo isso, passando por inúmeras artes incríveis feitas pelo Simon Stålenhag (até hoje não consigo pronunciar esse nome), no qual o RPG foi baseado.
Lendo os princípios, um dos que mais me chamou a atenção por ser destoante dos RPGs que costumava jogar, é de que os personagens dos jogadores não podem morrer. Apesar de achar estranho, entendi enquanto narrava meu primeiro mistério o porquê disto. As crianças se sentiram mais motivadas a se envolver nas investigações, e ao terminar a campanha, todos estavam vivos, mas alguns de corações partidos e outros realizados ao som de Enya, Oniorico Flow. Foi sem dúvidas um dos finais de campanha mais satisfatórios que já tive.
Agora com a tradução feita pela Sagen Editora em parceria com a Galápagos Jogos, só aumenta a vontade de ter o livro físico e narrar outras inúmeras aventuras pelas terras do Loop, e inclusive adaptá-las pras cidades brasileiras. Tenho certeza que caso deem uma chance, irão se encantar pelo livro também.
Sugestão de álbum, ouça [[aqui]]
O que ta rolando pela cena?
Geleia do Futuro!
Produzida pelo grupo Speculative Futures de Brasília, uma gamejam para jogos cyberpunks terá um palco online pelo Itchio nesse final de semana de sexta-feira 13. Apesar de gamesjams tradicionalmente serem feitas de jogos eletrônicos, aqui vemos a possibilidades de jogos de mesa como RPG. Ansioso para ver os resultados à segunda-feira.GygaxJam!
Uma jam um pouco diferente, aqui não estamos montando jogos, mas sim cenários para jogarmos neles. Seguindo algumas instruções sugeridas pelo falecido Gygax através de um livreto, as criações vão durar por 5 semanas. Apesar de já ter começado, pelo longo período é tranquilo entrar no momento! Se quiser saber mais, escute o Podcast Café com Dungeon sobre o assunto clicando aqui.Catarse - Into The borderlands
A vertente OSR de RPG repensa os jogos antigos de maneira para manter a sensação de estranheza, ao mesmo tempo que com um design novo e mais amigável do que nos dias que foi feito. E é exatamente isso que é proposto em Into The Borderlands; uma expansão do clássico módulo The Keep in the Borderlands, com um design marcante e ilustrações fantásticas. Essa é a primeira zine de três, e no preço atual é uma pechincha, visto que ao lançar vai ser quase o dobro do preço. Primeiro financiamento do Alex Damaceno, mas espero que não o último, já está 61% completo, porém a apenas 14 dias de acabar. Espero que consiga completar e eu também receber minha zine física, haha.Catarse - Skyfall RPG 2º Temporada
Já um marco do RPG nacional, Skyfall se encontra nos seus últimos dias de apoio. Criado pelo Mestre PedroK, o cenário pretende-se desprender da clássica fantasia medieval e num certo tom de Magic Punk, o cenário se expande desta vez no sistema de Tormenta20. Estou não apenas empolgado para ver a continuação dessa saga, mas também para receber os livros e jogar num sistema nacional.O que vem por aí








Parabéns pelo conteúdo!