Não é uma alucinação, não é uma história imaginária, não é uma fake news do gabinete do ódio: a newsletter Conforme Solicitado está realmente chegando ao fim.
Foram 67 edições de alegria, quase um ano e quatro meses de diversão, praticamente duas décadas de análises sensatas e ponderadas, tecnicamente dois séculos de tradição em exagerar na hora de fazer as contas.
Falamos sobre política, hip-hop, quadrinhos, Ed Motta e gagueira. Discutimos lugar de fala, redes sociais e BBB. Andamos, de Caloi Ceci aro 26 com cestinho, onde muitos não ousariam entrar pilotando um tanque de guerra, e invadimos, armados, territórios que na verdade eram uma festa de criança, sendo depois necessário pedir desculpa para os animadores que estavam vestidos de família Madrigal do desenho “Encanto”.
Mas como toda luz que brilha com o dobro de força, nossa newsletter também irá se apagar na metade do tempo. São conflitos de agenda, são questões de organização, é Arnaldo com muitos projetos, é Gabriel estudando pra concurso, é o João escrevendo fanfic erótica da “Grande Família” onde o Mendonça tem uma masmorra na repartição. Às vezes é mesmo melhor parar enquanto estamos ganhando, ainda que a gente não saiba especificar exatamente o que ganhamos, ou contra quem era o jogo.
Nossos assinantes pagos serão todos proporcionalmente ressarcidos a partir deste final de semana, nossos assinantes em geral terão para sempre a nossa gratidão e todos nós guardaremos em nosso coração as lembranças gostosas de cada um dos momentos que vivemos juntos, com a certeza de que a verdadeira Conforme Solicitado foram os amigos que fizemos pelo caminho e a newsletter que mais importa é que a existe dentro de cada um de vocês.
Mas nossos bandoleiros das palavras, nossos coiotes da informação, nossos cambistas do conhecimento, seguem com seus projetos, claro. Você pode conferir o trabalho do Arnaldo no Instagram e no Twitter – além da exposição dele que está rolando no Bar Botica, em Botafogo, prestigiem - o João no Medium e na newsletter solo dele; e o Gabriel sempre divulga material novo também no seu Insta, moleque escreve pra revista e jornal direto, brabo demais.
E, a partir de janeiro de 2024, teremos também a “Nada de Errado Nisso”, um novo projeto onde João e Gabriel analisarão, um por um, todos os episódios da série “A Diarista”. Brincadeira, não vai ser sobre isso a newsletter, mas seria muito doido se fosse, não é? Admite, vai. Serjão Loroza e tudo mais. Mas a parte da newsletter existir é sério, pode assinar sem medo, eles vão te fazer feliz.
No mais um grande abraço e esperamos que essas edições tenham sido tão divertidas de ler quanto foram de fazer. E nunca se esqueçam: o poder é de vocês. Ou não. Ninguém aqui quer te pressionar.
Opa, alguém por aí? Como diz a internet, everything happens so much. Vamos lá.
Feriado da Proclamação da República hoje em dia é sempre a possibilidade de que os dodói bolsonaristas ameacem algo ou alguém. Escrevemos este abre antes do dia 15 de novembro e esperamos que ele não envelheça mal porque, sei lá, nazistas invadiram o STF e tentaram conjurar o fantasma de Carlos Lacerda através de necromancia.
Por outro lado, logo logo é Dia da Consciência Negra, um feriado recebido com hostilidade desde que surgiu no calendário oficial. Esse, aliás, é um bom parâmetro: quando você formula a pergunta “Quão racista é o brasileiro?”, bom, a resposta é “Ele é racista a ponto de CRITICAR UM FERIADO”, esse é o tamanho do racismo do brasileiro, minha amiga e meu amigo.
Além disso, estamos diante das manifestações mais agressivas do aquecimento global até aqui. Papo de sensação térmica de 55º, vai vendo. Aí convém recordar de gente como o arrombado do João Pereira Coutinho, por exemplo, que passou anos na Folha de São Paulo minimizando e, no limite, negando a existência do aquecimento global.
Na época, ele chamava pomposamente de “milenarismo secular” etc. Quem tem memória sabe. É aquele papo, “direita moderada” e “conservador civilizado” é igual cabeça de bacalhau: raramente se vê por aí, não adianta.
Na edição de hoje Gabriel fala sobre a direita radical, Arnaldo imagina o diário de um contemporâneo do apocalipse e João sobre novas atualizações do capitalismo. Além disso, temos o cartum do Arnaldo e as dicas da redação. Coloca a sunga, bota o biquíni e acompanhe a gente nesse grande banho de mangueira no quintal que é a Conforme Solicitado. A cerveja tá no gelo e a carne já na brasa.
Assine Conforme Solicitado: mais gostoso do que uma cumbuca de ramen do Studio Ghibli.
Na moralzinha, olha esse ramen da Ponyo. A propósito, tem receita aqui.
Meu argumento era o de que, cedo ou tarde, esse negócio iria chegar aqui e influenciar setores do bolsonarismo. Mas, antes disso, iria adquirir escala e proporção dentro do debate público norte-americano. Obviamente eu estava certo.
Embora Yarvin seja antigo conhecido de alguns direitistas brasileiros, lembro por aqui de algumas dicas entusiasmadas de seu antigo blog, Unqualified Reservations, há coisa de uns 20 anos, no Brasil ele ainda permanece como objeto de culto de uma meia dúzia de gatos pingados com simpatias fascistas e supremacistas difusas. No entanto, nos EUA cada vez mais suas ideias ganham alcance e força relativa.
Recomendo este ensaio aqui do Damon Linker (que tem uma newsletter excelente sobre política, a Notes from the Middleground), publicado no início de novembro no NYT: sobre como o Partido Republicano e o movimento conservador norte-americano foram tomados de assalto por extremistas e lelés. Nele Linker fala sobre Yarvin, mas também sobre outros radicais.
O resumo é o de que o New York Times chegou três anos atrasado à pauta que sugeri à Piauí. Acontece que, por motivos variados, acabou não rolando o meu texto. Como parte do lobby que fiz na venda dessa pauta, cheguei a escrever um, digamos assim, briefing, um resumo do resumo, do ensaio que eu propus.
Como tomei um ghosting dos camaradas, jamais fui respondido etc., publico aqui na newsletter esse textinho. Porque vai que interessa, né.
Aliás, se o tema for do gosto de vocês, quem sabe não pode virar lá na frente um material exclusivo para a galera do plano de assinatura paga?
Curtis Yarvin e o neorreacionarismo
Da mesma forma que nossa classe intelectual se enganou ao ignorar Olavo de Carvalho e o olavismo, a principal fonte do populismo antidemocrático de direita no Brasil, e perdeu de vista quando aquilo que era no máximo percebido como uma excentricidade autoritária nos confins da internet tinha se tornado responsável por indicar Ministros de Estado e pautar políticas públicas para educação e cultura, é no mínimo razoável se precaver diante do neorreacionarismo e de seus profetas. Até porque, não se enganem, como qualquer modismo intelectual de direita, se hoje ele está ganhando tração nos EUA, logo mais esse negócio chega com força cá por essas bandas.
A primeira coisa necessária para entender o neorreacionarismo é compreendê-lo como algo particular e bem diferente do movimento conservador norte-americano. Se os conservadores se posicionam como defensores das instituições, os neorreacionários não disfarçam a vontade de dinamitá-las, à moda dos radicais. Se as instituições defendidas por conservadores são majoritariamente liberais, daí decorre que todo conservador nos EUA será, ou pelo menos se parecerá, com um liberal-conservador.
O evento fundacional dos EUA celebrado com entusiasmo juvenil pelos conservadores, a Revolução Americana, é o evento liberal e republicano por excelência. Mais uma vez, um conservador nos Estados Unidos se vê obrigado a, no mínimo, pagar um pedágio retórico a valores e a princípios liberais. Um conservador nos EUA invariavelmente defenderá a Revolução Americana. Já os neorreacionários, por outro lado, são monarquistas e antiliberais — suas influências intelectuais vão de pensadores jacobitas do séc. XVII (a turma que advogava a restauração monárquica da dinastia Stuart na Inglaterra e na Escócia) a até, por estranho que soe, críticos culturais marxistas.
Ao contrário da crença triunfalista liberal de que os EUA estão sempre em uma curva ascendente de progresso, baseada em crescimento econômico e inovação tecnológica, neorreacionários são pessimistas quanto ao estado atual das coisas. Embora o movimento não possua qualquer tipo de liderança aparente, o nome com mais destaque e prestígio certamente é o de Curtis Yarvin — um ex-programador de 48 anos, que passou anos escrevendo prolificamente longos ensaios em seu blog, assinando com o nome de Mencius Moldbug.
Na maior parte do tempo, Yarvin foi ignorado pela imprensa mainstream, e foi tratado como mais um maluco filofascista pregando teorias conspiratórias para uma audiência cativa de internet. No entanto, de lá pra cá, ganhou o apoio do bilionário e ativista de direita Peter Thiel, e começou a publicar ensaios de fôlego em veículos mais tradicionais da imprensa de direita e, dessa vez, passou a assinar com seu próprio nome.
Curtis Yarvin acredita que há um complexo formado pelas universidades de elite e a grande imprensa norte-americana: esse ecossistema condicionaria o debate público a apenas um espectro muito limitado de ideias consideradas, pela intelligentsia desse ecossistema, razoáveis e toleráveis. Não à toa, em seus textos ele critica o próprio experimento democrático norte-americano e defende um governo centralizado, cesarista e abertamente despótico — para ele, a única alternativa capaz de livrar os EUA do assalto dos interesses dessa oligarquia composta pela classe intelectual e uma elite de funcionários empregados na administração pública federal.
O ponto aqui é o de que os argumentos de Yarvin e dos neorreacionários passaram das margens para o mainstream. Eles hoje em dia circulam nas principais publicações, sites e programas jornalísticos da direita norte-americana e são repetidos em rodas de conversa, em alto e bom som, por congressistas Republicanos de destaque. Aliás, convém recordar que, ao que tudo indica, Donald Trump disputará as próximas eleições. Muito provavelmente Trump terá o apoio intelectual e a articulação política de Yarvin. Para muitos neorreacionários, afinal de contas, um segundo mandato de Trump será recebido como a chegada de César em uma Roma decadente, nos últimos dias da república.
Compartilhe Conforme Solicitado: a newsletter que durante a pandemia cortava a própria franja em cima da pia.
Even better than the real thing
Arnaldo Branco
Querido diário
Arnaldo Branco (Instagram: @arnaldobranco)
Sempre citam a anotação do diário do Kafka no dia 2 de agosto de 1914 (“A Alemanha declarou guerra contra a Rússia. Natação de tarde”) como exemplo de alheamento diante de um mundo em plena ebulição, ou de como a vida precisa seguir apesar das grandes tragédias da humanidade. Mas se a gente parar pra pensar, nossas atividades rotineiras nessa volta da História fazem muito mais contraste com o estado atual das coisas.
Vamos imaginar o diário de um cidadão médio em 2023 e ver como Kafka estava muito no seu direito de curtir uma piscininha na véspera da Primeira Guerra Mundial:
Quinta-feira, 2 de novembro de 2023
Na hora do almoço a Beth do RH defendeu o assassinato de bebês como direito de defesa do estado de Israel, dizendo que existem infanticídios e infanticííídiooooos — segundo ela, tem uns que são do bem. Fiquei esperando a resposta do rapaz do helpdesk, que é engajado na causa palestina, mas aí lembrei que ele foi substituído por um aplicativo de IA, que aliás concordou com a Beth.
Terça-feira, 7 de novembro de 2023
Choveu granizo de novo, que não causou muito dano porque as pedras de gelo perdem bastante volume antes de atingir o solo por causa do calor (sensação térmica 53 graus). Mas tive que ficar horas no ponto até a tempestade passar. Quando finalmente consegui pegar meu ônibus para o trabalho fiquei preso no trânsito na Praça da Bandeira, causado pela multidão que estava participando do comício nazista.
Sexta-feira, 10 de novembro de 2023
O projeto de privatização da luz solar foi aprovado com grande maioria no congresso. A implementação deve demorar um pouco, o que vai dar mais tempo para ampliar as galerias subterrâneas onde vão viver as pessoas que não puderem pagar pelo serviço, o que corresponde a mais ou menos 74% da população. Estou pensando em financiar uma câmara de raio infravermelho em doze prestações na Magazine Luiza.
Segunda-feira, 13 de novembro de 2023
O mais novo bilionário da praça, o influencer de depilação íntima Ivanildo Prazeres, fez uma oferta de compra da cidade do Rio de Janeiro em troca da exploração dos naming rights. Sim, o município vai mudar de nome mas os moradores vão ter direito à voto, escolhendo entre três opções que remetem à parte da anatomia feminina da qual o nicho de mercado de Ivanildo se ocupa. Eu acho que Bucetópolis é um bom nome.
Sexta-feira, 17 de novembro de 2023
Por causa dos ataques terrestres ao território brasileiro, o governo declarou guerra contra os fãs da Taylor Swift. Natação de tarde.
Algumas das atualizações incluídas no novo pacote “Capitalismo 3.0 - 64 Bits”
João Luis Jr (Medium: joaoluisjr)
Agora ninguém disfarça mais nada: Após alguns séculos tendo que inventar desculpas e justificativas como “é legal porque incentiva a competitividade” ou “somos a única opção porque comunismo é coisa de comunista”, finalmente chegamos naquele estágio econômico bacana em que o capital não precisa mais ficar fingindo que se preocupa com as pessoas.
Explorando conhecidos e também o desconhecido: Mansões? Qualquer milionário tem. Carrões? Nem precisa ter chegado a um bilhão pra conseguir. Iates maiores do que o espaço onde poderiam tranquilamente residir três famílias mas que são usados para receber apenas três modelos internacionais? Isso é coisa do passado - ainda que ninguém vá se desfazer dos seus iates e ainda vá subornar políticos pra conseguir que eles não sejam taxados.
Não, a onda agora, se você realmente é um super-super-rico, é explorar os ambientes mais inóspitos do universo, investindo nisso o máximo de recursos, enquanto explica que não há a menor condição de aumentar minimamente os salários dos seus funcionários que trabalham 12 horas por dia e não podem tirar pausa pra ir ao banheiro.
Seja uma nave espacial ou um submarino, o importante é sinalizar de maneira bem clara pra todo o resto da humanidade que, enquanto muitos deles não conseguem suprir suas necessidades básicas como moradia e alimentação, você atingiu um nível de acumulação financeira tão absurdo que não está nem comprando coisas com alguma aplicação prática ou que gerem níveis de satisfação que façam sentido pra maior parte das pessoas, mais sim investindo somas obscenas em ideias como “e se a gente pegar esse caixote metálico com controle de videogame e meter ele no fundo do mar?”. Imagina a cara da galera que não tem dinheiro pro pão vendo isso.
Agora o pessoal fica feliz ou triste com lucro de empresa: Todos nós já sabemos que o capitalismo danificou o senso de identidade das pessoas de uma forma tal que alguns dos grandes marcadores atuais de personalidade envolvem ter uma coisa x ou consumir uma coisa y, ao ponto das pessoas que pagam pela coisa x ou y brigarem entre si discutindo quem tem a coisa melhor.
Mas e se a gente conseguisse ir ainda mais longe? E se as pessoas se identificassem tanto com uma marca ou produto que o sucesso comercial dela começasse a ser uma forma de validação pessoal, já que não basta mais gostar de uma coisa, é preciso que você goste de uma coisa que é validada em forma de lucro pra você poder sentir que tem razão ao gostar dela?
Então, bem vindo ao mundo fantástico de gente que comemora bilheteria de filme americano, que vibra com lucro de conglomerado de entretenimento, que tira onda na internet quando a empresa do bilionário que ela é fã tem lucro recorde. É, nem os bilionários entendem, mas ao menos ajuda a gerar mais dinheiro pra passear de submarino.
Vai na minha
Dicas de consumo do pessoal da redação
Omertà de sacanagem
Arnaldo Branco
Assim como a máfia, a cúpula do jogo do bicho do Rio de Janeiro costumava respeitar religiosamente a lei do silêncio, apesar de muitos dos seu segredos — da mesma forma que os de sua parente de origem siciliana — serem de domínio público. Só que no caso da Camorra essa conduta mudou quando as autoridades de vários países aprovaram leis anticrime mais rigorosas, circunstância que levou vários mafiosos a delatarem seus comparsas para evitar enormes temporadas na cadeia.
Mas no Brasil isso não aconteceu: os bicheiros respondem à mesma legislação centenária que considera sua atividade master como contravenção — inclusive está em tramitação uma lei para legalizá-la, junto com outras modalidades de jogos de azar. E em relação a todos os outros, digamos, side jobs dos banqueiros de bicho… bem, é só ver quantos tubarões graúdos enfrentaram uma cana dura por muito tempo.
Isso só torna a façanha do documentário “Vale o escrito” (2023) ainda mais inacreditável. Na mesma globoplay onde a série está disponível você pode encontrar mais duas ótimas produções sobre o jogo do bicho, “Doutor Castor” e “Lei da Selva”, mas “Vale” é imbatível: consegue depoimentos dos próprios bandidos, em um festival de explanação de dar inveja aos patriotas que invadiram a Praça dos três poderes — só que os crimes confessados são um pouco piores do que defecar na mesa de um ministro do STF.
Além das indiscrições, temos personagens impagáveis como Piruinha, o contraventor nonagenário que não larga sua tulipa de chopp; o delegado Vinicius Jorge, que conta as histórias mais escabrosas da guerra do bicho com uma carinha de quem está gostando demais e a estrela principal, Shanna Garcia, a herdeira destituída de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, que sem poder chefiar a família por ser mulher, agiu nas sombras para poder recuperar parte do seu espólio.
Um elenco que não deve nada às melhores produções da HBO. Quem tem Capitão Guimarães não precisa de Tony Soprano.
God's Away on Business
Gabriel Trigueiro
A dica de hoje é “The Sunset Limited”, a adaptação da peça de 2006 de Cormac McCarthy para a televisão (para a HBO, para ser mais preciso), feita em 2011 e estrelada por Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones, e dirigida pelo segundo.
O plot é simples: Mr. White (Jones) tenta suicídio mas é salvo por Mr. Black (Jackson), daí se segue uma conversa de 90 minutos entre os dois a respeito da existência de Deus, o absurdo da condição humana e esse tipo de coisa leve.
Essa adaptação de “The Sunset Limited” não é propriamente a coisa mais inventiva do mundo, nem tampouco a direção de Tommy Lee Jones opta por soluções corajosas ou criativas ao longo do filme. Então, é claro, há o tempo todo aquele cheiro meio difícil, meio complicado, de “teatro filmado”, é verdade.
No entanto, vou repetir mais uma vez: texto de Cormac McCarthy e atuações de Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones.
E se você precisa de mais do que isso para ser feliz, tropinha, eu sinceramente acho que você tem probleminha, na moral.
Ser gostosinho não é crime e nunca vai ser
João Luis Jr. Ainda que a galera goste de subestimar, uma boa música pop precisa andar numa linha absolutamente tênue e específica, onde muito pouca gente consegue caminhar. Você precisa ser cantarolável sem ser clichê, precisa ser criativo sem deixar quem está te ouvindo pra trás. Uma boa canção pop, aquela que te pega pelo ouvido, tem a capacidade de tocar pela primeira vez e já te causar uma sensação quase perturbadora de familiaridade, não porque ela está repetindo alguém, mas porque ela se conectou com alguma coisa que sempre esteve dentro de você, e que acabou acordando quando ela começou a tocar.
E é mais ou menos essa sensação que você tem quando Julio Secchin, na 2ª faixa do seu novo disco “Erupçando”, solta um “escolhi o Yoshi, e a vida com você”. Um lance fofo sem ser brega e que é gostosamente familiar, não por ser um clichê, mas porque o artista tá ali acessando sentimentos que você entende mas talvez nunca tinha articulado antes, muito provavelmente porque seu único contato com a música foi naquelas aulas de flauta doce que todo mundo ficou meio aliviado quando você desistiu depois de duas sessões.
Sequência do primeiro álbum de 2019, “Festa de Adeus” e dos singles “Jovem” e “Meus Boletos”, “Erupçando” é um disco curtinho (menos de 26 minutos) mas tão gostoso que você sente vontade de deixar tocando por tempo indeterminado e ir descobrindo as coisinhas novas e ao mesmo tempo familiares que ele tem pra oferecer. Se música gostosinha for um crime, tá aí um cara que vai acabar sendo preso.
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Mas não só de propaganda vive a nossa edição de hoje, já que também temos Gabriel falando de rap e autenticidade, Arnaldo discutindo os boicotes da direita e João debatendo algumas ansiedades recorrentes em época de aniversário.
Além disso, também temos cartum, dicas e muito amor no coração. Fé em deus, DJ.
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Boicote e ignorância
Arnaldo Branco (Instagram: @arnaldobranco)
Em mais uma tentativa de engajamento, influencers do campo da direita estão convocando um boicote contra artistas de esquerda. É uma boa ideia, e a esquerda poderia fazer algo semelhante se fosse fácil encontrar artistas de direita que valessem a pena boicotar. Convenhamos que é bem tranquilo ignorar a obra da banda Ultraje a rigor.
Vamos fingir que a gente não sabe que a grande maioria desses caras prometendo sabotar o novo filme do Lázaro Ramos ou os shows do Diogo Nogueira nunca tiveram a intenção de botar a cara nesses eventos. Pra eles também é fácil deixar de frequentar lugares que eles nunca tiveram a intenção de frequentar — o que garante o sucesso da empreitada mas diminui bastante o potencial de danos contra a conta bancária do ator e do sambista.
Na verdade a bronca dos conservadores com a classe artística é uma confissão velada da sua incompetência na área. Afinal existe uma fatia enorme do público composta por desavisados que não fazem ideia da orientação ideológica dos criadores, e o fato de que a briga dos caras é com as artes de forma geral mostra o quão pouco eles confiam no próprio taco na hora de seduzir pessoas com sua própria produção cultural.
O maior exemplo é a guerra contra a lei Rouanet, provavelmente o item de legislação mais mal interpretado desde a regra do impedimento. Não adianta explicar que o dinheiro tem origem na renúncia fiscal de empresas que dificilmente liberariam investimento para uma cinebio do Che Guevara, por exemplo.
Tanta gente já desmentiu a informação de que a Rouanet é uma espécie de fundo infinito para financiar lacração que é impossível que tantos tenham passado incólumes por uma dessas explicações. Acho que a insistência no ataque é preguiça de achar outro bode expiatório.
Aliás, para muitos conservadores fingir demência é a única forma de continuar consumindo certas obras de que não conseguem abrir mão. Para seguir gostando de Guerra nas Estrelas é preciso ignorar todas as entrevistas do George Lucas falando que a Aliança Rebelde é uma representação do exército norte-vietnamita.
Ou podem fazer pior (como aliás costumam fazer): afirmar que os artistas de esquerda que produzem obras de que eles gostam não entendem o próprio trabalho. Normal: quando você é burro você tem a certeza de que todo mundo é também.
Um gênero na adolescência
Gabriel Trigueiro (Instagram: gabri_eltrigueiro)
Uma imagem do Majin Boo gordinho, a propósito de nada
Na segunda temporada de “Atlanta”, no episódio mais badalado da temporada, “Teddy Perkins”, há uma fala sobre o rap, como gênero musical, que jamais esqueci: “I found it never quite grew out of its adolescence”.
É engraçada, e algo cruel, sobretudo quando você leva em consideração que “Atlanta” é uma série feita por um rapper, sobre rappers e, mais abrangentemente, sobre a cultura rap, como ecossistema cultural complexo e criativo.
Não me sinto à vontade em dizer isso nem nada, mas a verdade é que sempre quando penso com calma, tendo a concordar com essa declaração.
Não me entenda mal, eu tou aqui falando do meu gênero musical favorito e tal, portanto repare que essa é uma crítica feita con amore, mas a verdade é que o rap com muita frequência se organiza a partir de princípios bobos e com muita frequência artisticamente infantis.
O mais deletério de todos talvez seja sua obsessão com autenticidade. Há uma certa tendência no universo do rap em, por um lado, valorizar quem vive aquilo que canta (rima) e, por outro, em desqualificar qualquer um que tenha uma biografia percebida como incompatível com a, digamos assim, crueza desse universo.
Um universo, é claro, que frequentemente mistura fanfarronice masculina com afetação de street cred.
Arte, desde que ela existe com esse nome, é fingimento. É fabulação e a capacidade de criar mundos e de ficcionalizar narrativas. Quando o rap se abraça intransigentemente à realidade, ou àquilo que ele percebe como a realidade (que evidentemente é apenas uma fração achatada da dita cuja) ele se limita e se barateia.
Por isso, aliás, que artistas como MF DOOM e Madlib são tão importantes e interessantes — ambos criaram personagens, redefiniram fronteiras e expandiram a linguagem do gênero.
Como Jonny Greenwood disse uma vez em uma entrevista antigona:
Não querendo nos comparar a ele, obviamente, mas tem várias histórias sobre Miles Davis indo na academia Juillard e estudando partituras clássicas na biblioteca. Meio que se evita falar desse lado dele para favorecer o lado “vida louca”.
Se esse tipo de armadilha intelectual já existia na época de Miles Davis, esse mito do “bom selvagem criativo”, de lá pra cá esse negócio pouco mudou e talvez tenha até piorado.
Depois a galera ainda queria criticar a bell hooks quando ela dizia que não gostava de hip hop.
PS: De alguma forma eu acho que este texto conversa com esse aqui, que escrevi há mais de quatro anos. Se por acaso você estiver de bobeira e tiver interesse, dá uma espiadela.
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Pequenos momentos de consternação da época de aniversário
João Luis Jr (Medium: joaoluisjr)
Surpreendido pela festa surpresa: você pode tentar negar, buscar um viés de otimismo, até mesmo dizer que é paranoia, mas toda festa surpresa bem-sucedida significa apenas e simplesmente uma coisa: sua família, amigos e parceiro/parceira são capazes de combinar e realizar operações complexas, diretamente relacionadas a você, sem a sua consciência ou consentimento.
Se sua mãe foi absolutamente convincente ao dizer que estaria viajando com o pessoal da igreja quando na verdade estava se deslocando para o seu apartamento, ela não seria ainda mais convincente ao mentir sobre quem é seu pai biológico? Se seus amigos conseguem fingir que esqueceram seu aniversário, o que mais eles podem estar fingindo? Será que eles são mesmo seus amigos? Será que esses são mesmos os nomes verdadeiros deles? “Rafael” parece um nome inventado, não parece? Uma namorada que consegue, sem que você note, esconder um bolo dentro da sua casa, o que mais ela pode conseguir esconder? Armas? Explosivos? Conexões com milicianos? Você tem mesmo certeza de onde ela estava quando aqueles 32 ônibus eram incendiados na Barra da Tijuca? O amigo Claúdio dela, será o governador Cláudio Castro??? Em suma, festa surpresa é um negócio esquisito, não gosto de festa surpresa.
Meus marcadores tradicionais de vida adulta estão mortos, tens o que é preciso para esmagar minha sensação de que não sou uma pessoa de verdade: Antigamente era mais ou menos simples. Adulto era quem tinha emprego, adulto era quem tinha casa e carro, adulto era quem tinha filho. Mas aí o tempo foi passando e foi ficando cada vez mais complicado arrumar trabalho, cada vez mais caro ter casa, galera quer 60 mil num Ford Ka, meio que pararam de obrigar tanto assim o pessoal a ter filho.
Daí você chega num ponto em que é óbvio que cronologicamente você está pra lá de adulto, dado seu consumo de relaxante muscular, mas não consegue reconhecer em si mesmo várias das coisas que, na sua cabeça, sinalizariam isso. Seu pai na sua idade já tinha dois filhos e você não tem nenhum, seus amigos estão discutindo carro e você nem carteira tem, nas séries de TV rapaziada da sua idade já estão no segundo divórcio e só agora você chegou no estágio da vida de morar junto com alguém. Você pensa se não deveria se sentir mais maduro, se não deveria ter mais certezas, se não deveria usar mais roupa social, sei lá.
Racionalmente você sabe que não tem nada de errado nisso, claro. Grande parte dos marcos da vida adulta são criações do sistema capitalista e você é muito feliz fazendo as coisas no seu ritmo, sem ter que viver por uma lógica temporal alheia, por mais que as vezes você realmente se sinta como duas crianças, uma em cima da outra, dentro de um sobretudo. Pensamento esse que é interrompido por um áudio do seu afilhado de quatro anos comentando sobre o Homem-Aranha, que você responde com outro áudio, e ele manda mais um, e você mais outro, e num dado momento você se pega pensando “é bom demais conversar com alguém que me entende assim”.
Esqueci de me convidar para o meu aniversário: Hoje em dia parece complicado acreditar, mas houve uma época em que quase todo mundo tinha Facebook. Era praticamente na antiguidade clássica, claro, um tempo onde os dinossauros ainda existiam, o Twitter era uma rede social de gente alegre e descolada e o Instagram servia para postar fotos. E nesse período marcar uma festinha ou convidar as pessoas para tal festinha era uma operação simples: você criava um evento, você disparava os convitinhos – o Face te deixava até filtrar por localização, pra ajudar – e pronto. As pessoas tavam informadas, geral confirmava virtualmente, você até sabia mesa pra quantos precisava reservar.
Mas aí, da mesma forma que o Twitter virou ambiente pra linchamentos e crimes de ódio e o Instagram virou uma rede de propagandas e vídeos do TikTok com fuso atrasado, o Facebook morreu, ou ao menos perdeu 80% dos usuários abaixo dos 60 anos. E agora para organizar um eventinho maroto você vai precisar convidar algumas pessoas pelo Instagram, porque elas demoram pra responder Whatsapp, outras pelo Whatsapp, porque elas não tem Instagram, algumas vão estar em grupos e aí você chama juntas, uma você teve que chamar por email, pessoas que são desafetos não vão mais poder ver a lista de confirmados do evento para que possam se evitar, e aí assim que você posta as fotos no Instagram e aquele amigo curte, você percebe que acabou não chamando a pessoa e está quase fazendo outra festa só por isso.
Não bastou a ascensão da extrema-direita destruir vidas, ela precisou avacalhar com o jeitinho mais prático de marcar festa de aniversário sem esquecer ninguém. Malditos fascistas.
Vai na minha
Dicas de consumo do pessoal da redação
Enterro digno
Arnaldo Branco
Sou fã do Kleber Mendonça Filho antes de conhecer seus filmes, como leitor do site de resenhas Cinemascópio, que também é o nome de sua produtora. Nas suas críticas ele era econômico e sutil para enaltecer obras que gostava e agia da mesma forma pra desmontar as que via com reservas, como um boxeador trabalhando o oponente.
Sua obra como cineasta revela dois grandes interesses: a própria sétima arte e a especulação imobiliária, e os dois estão de mãos dadas em Retratos Fantasmas (2023) filme-réquiem feito para os cinemas de rua de Recife e para o passado de sua própria família, através da história de um apartamento.
Por cima de uma colagem feita de registros amadores, imagens do seu acervo, stills de produções nacionais e estrangeiras e fotos de velhas marquises o diretor narra sua relação profunda com o assunto em um tom resignado, de quem sabe que está se referindo a um mundo extinto, a uma cidade fantasma. Esse registro consciente serve para fugir de um saudosismo fácil e para emprestar humor a uma narrativa que na superfície é bastante melancólica.
Numa época em que cinéfilo virou xingamento em rede social, Kleber canta o fim da era analógica sem parecer uma carpideira. Um enterro digno.
A revolução foi branca
Gabriel Trigueiro
Estou terminando de ouvir um podcast chamado “Starting a Riot”, de uma mina brilhante chamada Fabi Reyna, da banda Reyna Tropical.
A ideia dela é bem excelente e interessante: contar a história do movimento Riot grrrl, do início da década de 1990, quando uma cultura punk underground de zines e bandas misturava indie rock e feminismo da terceira onda e passou como trator por cima de quem ficou na frente.
“Starting a Riot” funciona como uma história oral do movimento. Conta com depoimentos de insiders, mas examina também um ponto cego da época: raça.
Ao mesmo tempo em que bandas como Bikini Kill, Sleater-Kinney e Bratmobile lideravam uma revolução feminista importante, a vanguarda dessa revolução era irremediavelmente branca.
Fabi Reyna, ela mesma mexicana, conta a história dessa época, mas segundo a sensibilidade e a perspectiva de uma mulher não-branca.
Como documento histórico é coisa finíssima. “Starting a Riot” é muito bem pesquisado e estruturado, além de divertido à vera e, claro, tocante para um caralho.
Obras que te atropelam e você não consegue anotar a placa
João Luis Jr
Uma das coisas mais bacanas de um relacionamento, além de cafuné, beijinho, companheirismo e uma pessoa pra assistir “The Bear” contigo e repetir com você “meu deus, primo”, sempre que acontece alguma coisa com o primo, é o intercâmbio cultural que um namoro proporciona.
Afinal, está ali do seu lado uma pessoa com gostos diferentes, que assistiu coisas que você não assistiria, ouviu músicas que você não conhece e leu lances que você nem tinha ouvido falar, e conviver com ela é permitir que todo esse mundo de outras influências e outros gostos comece a se fundir com o seu, te transformando numa pessoa que agora entende os memes sobre “Orgulho e Preconceito”, acompanha polêmica envolvendo a Flora Mattos no Twitter ou apenas se pega citando “Crepúsculo” em momentos inesperados.
E um livro que acredito que jamais teria descoberto se não fosse minha namorada é “A vegetariana”, da autora sul-coreana Han Kang, que saiu no Brasil em 2013 mas é tranquilamente uma das coisas mais interessantes, complexas e mentalmente desgraçadoras de cabeça que li nos últimos tempos.
Centrado na personagem Yeonghye, uma dona de casa que subitamente decide parar de comer carne, o livro aborda a complexa teia de consequências dessa decisão, que afeta não apenas a vida da protagonista como também seu casamento e a realidade de várias pessoas ao seu redor, levando a questões sobre arte, família e principalmente a opção (ou não) de existir como um ser humano no mundo em que vivemos.
Com uma trama que vai ganhando em intensidade e tensão conforme passamos da perspectiva do marido de Yeonghye para a do cunhado de Yeonghye e por fim da irmã de Yeonghye – sem que nunca possamos entender exatamente o que sente ou pensa a protagonista – é um livro desses que, mesmo depois que você vira a última página, ainda continua na sua cabeça por bastante tempo.
Conforme Solicitado: a única newsletter que também já recebeu foguinho do Neymar no privado
Outro dia uma @ liberal do twitter tentou culpar o governo Lula pela recuperação judicial da Starbucks com esse argumento:
Sim, no estágio atual do capitalismo não basta que você participe do sistema ativamente, você deve facilitar o trabalho do capitalista sendo otário pra fazer a economia girar. Antigamente os ideólogos liberais defendiam o princípio da concorrência como um dos pilares do mercantilismo, hoje em dia eles ficam botando pilha pra você consumir o mais rápido possível antes que comece a pensar em questões como custo e benefício e margem de lucro de barista multinacional arrombado.
E como todos nossos textos de abertura esse aqui também é um lembrete de que assinar Conforme solicitado apresenta um índice de aproveitamento excelente pois nossa newsletter é barata (R$ 15 mensal, R$ 150 anual ou R$ 250 anual plus) e apresenta um volume de texto razoável, pra não dizer excessivo.
Nesse número Arnaldo imagina alguns plots de filmes de Sessão da Tarde adaptados para a realidade brasileira, Gabriel comenta as relações de raça em Dungeons & Dragons e João divide aí seus sentimentos sobre Matthew Perry, o eterno Chandler Bing daquela série Turma da Mônica.
É isso. Todo dia um otário e um malandro saem de casa, e se eles se encontram sai negócio. O problema é que o otário somos nós.
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Sessão da tarde, but brazilian
Arnaldo Branco (Instagram: @arnaldobranco)
Muitos dos filmes da Sessão da tarde partem de fórmulas consagradas e clichês de gênero para deixar a gente naquela zona de conforto gostosa que só um final feliz pode garantir. O problema é que se tratam de produções americanas e certas premissas não migrariam muito bem para o contexto brasileiro. Abaixo vemos alguns modelos gringos adaptados para fazer sentido por aqui:
Freaky friday luta de classes
Um pobre de direita, que ama o capitalismo mas não é correspondido, deseja todas as vantagens econômicas desfrutadas por seu vizinho, um socialista de iphone. Por causa de um aplicativo mágico instalado em seu celular xiaomi ele consegue trocar de identidade com o sujeito, tomando posse de seus bens mas ao mesmo tempo adquirindo consciência de classe — o que atrapalha um pouco o gozo do seu novo status social, já que fica com uma imensa vontade de dividir seus recursos com os mais desfavorecidos.
Mas aí ele descobre a culpa burguesa — um mecanismo que o libera de fazer isso já que se preocupar com os outros parece ser um tributo pesado o suficiente, e fica tudo bem.
De volta para o CLT
Filmes de viagem no tempo geralmente exploram os grandes temas: um cidadão médio testemunha a queda da Bastilha, um sobrevivente de Auschwitz volta para matar Hitler, um herói de ação ganha a guerra do Vietnã sozinho, provando a incompetência do exército americano pela segunda vez. Mas um viajante temporal partindo de terras brasileiras não ia querer porra nenhuma com a história da humanidade.
Brasileiro é um bicho escaldado: voltar ao passado para alterar o destino da nação? Ele já tentou isso sem precisar viajar no tempo, nas tais jornadas de 2013 por exemplo, e deu no que deu — obrigado mas não, obrigado. O negócio é ir para uma época onde a situação era melhor, ou pelo menos tão boa quanto possível, tipo no primeiro mandato do Lula, e ficar lá quietinho, aproveitando coisas que não voltam mais, como direitos trabalhistas e seus parentes mentalmente estáveis antes do advento das redes sociais. Voltar para 2023 e descobrir que o importante é a viagem e não o destino? Não fode.
O clímax vai ser em 2013, quando o viajante em questão deixará de ir nas manifestações para comprar bitcoin com intenção de revender antes da bolha estourar.
Policiais que se odeiam forçados a cooperar
A dupla de policiais que se odeia e é obrigada a trabalhar em parceria talvez possa funcionar nos Estados Unidos, onde pelo menos podem se detestar enquanto esperam para ganhar um fundo de pensão razoável — tanto que não tem um filme desse tipo em que os tiras não fiquem na viatura fantasiando sobre passar o resto da vida pescando depois da aposentadoria.
Além de brutalizar um cidadão ou outro, a rotina de um policial americano lotado em um grande centro urbano não é tão estressante quanto a de um brasileiro, para quem se envolver em tiroteio é uma situação tão comum quanto cobrar propina de traficantes fortemente armados.
Aqui, se dar mal com um colega de trabalho pode acabar em tragédia — não só porque talvez pareça uma boa ideia matar um parceiro chato pra não ter que dividir o arrego, mas como também porque pode ser bem preocupante entrar em uma troca de tiros com uma facção criminosa dependendo da cobertura de um desafeto.
No Brasil nosso filme poderia até começar com a premissa original, mas a chance é grande da trama terminar na cena do enterro de um dos protagonistas.
Vilão que luta contra um cachorro
A figura do vilão extremamente malvado que trama contra um cachorro carismático e que é mais inteligente do que as autoridades competentes — uma premissa bem verossímil aliás — não teria moleza contra os tuiteiros brazucas que ficam hiper sensibilizados pelo sofrimento animal mesmo com a concorrência de todas as tragédias humanitárias que a gente enfrenta regularmente.
O cachorro nem ia ter que liderar uma turminha de crianças espertas em uma grande aventura para acabar com os planos malignos do bandido, a Luisa Mell pode muito bem cuidar disso sozinha.
Não compartilhe seringas, compartilhe Conforme solicitado
Esta semana escutei este episódio de Code Switch, um excelente podcast da NPR que discute temas raciais de um jeito bem original e divertido, e gostei muito de como os maluco costuraram o tema de sempre (raça e racismo) com a história de Dungeons & Dragons, mais conhecido como D&D, tu sabe, provavelmente o RPG mais famoso que há.
Sabemos que Gary Gygax, um dos criadores de D&D, se considerava um “determinista biológico”. Era um camarada que falava para quem quisesse ouvir que o cérebro de homens e mulheres eram diferentes e que, portanto, homens e mulheres não poderiam ser tratados como iguais.
Além disso, não é de se estranhar que “raças” como orcs, por exemplo, fossem descritas como selvagens, não-civilizadas e inerentementemás. Aliás, a lógica aplicada era a seguinte: se você fosse filho(a) de um orc, logo você iria herdar essa disposição para o mal e a selvageria, o que é, aliás, a definição básica de um determinismo biológico racialista de almanaque, plmdds.
Pense ainda na caracterização, não somente física mas igualmente psicológica, dos elfos negros e de como ela lembra determinados tropos racistas de fundamentalistas religiosos cristãos e aquele papo de Marca de Caim e tal.
Nesta matéria antiguinha no Gizmodo, Linda Codega fala, por exemplo, sobre os problemas de “racial coding” em D&D e explica didaticamente o conceito:
Em um fórum de Perguntas & Respostas de 2005 (repare, não da década de 1970) Gygax argumentou que era razoável, e até moralmente justificável, um personagem com uma tendência Lawful Good executar prisioneiros mulheres e até crianças, se elas fossem de uma raça inerentemente má.
O detalhe é que ele justificou essa opinião arrombada com a expressão “nits make lice” (“lêndeas geram piolhos”), dita originalmente pelo Coronel John Chivington, durante o Massacre de Sand Creek, em que centenas de crianças indígenas tiveram o extermínio justificado com a frase “Kill and scalp all, big and little; nits make lice” (“Matem-nas e arranquem seus escalpos! Das grandes e das pequenas! Lêndeas geram piolhos”.
A coisa mais maluca de se estudar raça é o fato de que alguns discursos e dinâmicas passam a ser impossíveis de desver. Raça, você começa a entender, é um troço que tá na cultura e que se manifesta em qualquer coisa criada pelo engenho humano. Não tem jeito.
Não seria diferente em mundos habitados por dragões, beholders e sujeitos longilíneos de orelhas pontudas. Ainda mais quando existe o racial coding — uma forma de ser racista sem ser pego no teste do bafômetro, vamos colocar assim.
E já que você chegou até aqui, aproveito para recomendar “Leopardo negro, lobo vermelho”, do autor jamaicano Marlon James. É uma tentativa, muito bem sucedida, me parece, de escrever um épico de fantasia medieval a partir de uma cosmogonia africana. Escrevi aqui a respeito.
0 bolas de ouro, indiretas de duas ex e do presidente da república
Arnaldo Branco
Sobre coisas que a gente sente e não esperava sentir
João Luis Jr (Medium: joaoluisjr)
Sentimento é sempre um negócio meio complicado.
Primeiro porque, na maior parte das vezes, você não tem exatamente muito controle sobre o que está sentindo. Você sente que tem motivos pra estar feliz mas mesmo assim fica triste, você tá balbuciando pra si mesmo “calma, calma” enquanto vai ficando progressivamente mais puto, o teste da Revista Capricho deu que era hora de focar nos estudos mas não apenas você é um homem de quase 40 anos que não estuda mais como é aí que você fica loucamente apaixonado por uma pessoa que mora em outra região do país e lá vamos nós, agora você está pesquisando a diferença entre anel de casamento e aliança de noivado.
Depois porque os sentimentos escapam, em grande parte, da nossa capacidade de análise, ao menos dentro de uma lógica mais ou menos cartesiana. Você sente coisas que não consegue explicar, porque muitas vezes não consegue nem mesmo entender, e aí não sabe exatamente o que fazer, porque você não entendeu e não consegue explicar pra alguém o que não entendeu. Sua terapeuta diz que todos os seus sentimentos são válidos, mas você olha pra alguns deles e tudo que você consegue pensar é “não, não, não, isso daí não pode ser válido não, me desculpa, eu sei que a senhora tem um diploma, mas sem condições essa porra”.
Então muitas vezes você se pega sentindo coisas que, se você colocar no papel, não fazem tanto sentido assim. Preocupação com situações que não aconteceram e muito provavelmente não vão acontecer, irritação com lances que só existem na sua cabeça, simpatia intensa com gente que você mal conhece e etc. E nesta semana vários de nós foram acometidos por um caso bem específico que é luto por ator americano que nenhum de nós conheceu ou interagiu pessoalmente na vida.
Isso porque com a morte de Matthew Perry, famoso por ter interpretado o personagem Chandler na série “Friends”, bateu em bastante gente - e me incluo abertamente nessa galera - o sentimento de estar vendo partir uma pessoa querida, alguém que fez parte da sua vida em algum grau. Talvez não um irmão, um grande amigo, mas ao menos um tio ou primo querido de quem você tem boas lembranças e que você gostava de saber que estava bem, tranquilo, ver uma foto dele curtindo a vida de vez em quando.
E ainda que algumas pessoas no Twitter provavelmente estejam usando esse momento pra discutir a qualidade da série Friends ou imperialismo cultural norte-americano, a verdade é que existe algo até importante nesse sentir. Na ideia de conseguir se conectar de verdade com algo, na ideia de conseguir ser tocado pelo trabalho de alguém, na ideia de uma pessoa ser parte de uma coisa tão importante pra você que a perda dela se torna quase pessoal, e não apenas “cultural”, vamos dizer assim.
Num mundo tão cínico e onde tanta gente se esforça tanto pra desnaturar e racionalizar tudo até o limite do absurdo - “ah, então você tá triste pelo cara de Friends mas não chora PELAS PESSOAS NA PALESTINA??????” - sentir alguma coisa, por mais complicado que seja de explicar ou por mais bobo que possa parecer, acaba se tornando sim um desses pequenos exercícios de humanidade.
Porque sentimento é sim, quase sempre, um negócio complicado. Mas também é um negócio bonito e uma das coisas mais importantes que a gente pode ter.
Vai na minha
Dicas de consumo do pessoal da redação
Mes amis mes ennemis cherchez l'etoile du matin
Arnaldo Branco
“Desabrigo” (1945), a novela de estreia do escritor Antônio Fraga, faz parte de uma estranha caça ao tesouro: toda década é “redescoberta” e ganha uma nova edição em vez de entrar logo para o cânon da literatura brasileira.
Talvez o motivo seja a vergonha da academia por ter tratado Fraga como uma mistura de curiosidade literária com figura trágica — o que é uma meia verdade, o escritor dava impressão de viver uma vida miserável de propósito para não perder contato com seu principal objeto de estudo: os malandros, os marginais, os despossuídos.
E Fraga era o Guimarães Rosa desses tipos sociais, misturando erudição, coloquialismo e gírias obscuras — além de desprezar a pontuação — para compor uma prosa riquíssima, que exigia atenção mas não era nada indecifrável, como no trecho abaixo:
Dividido em três partes (“Primeiro round”, “Segundo tempo” e “Terceiro ato”) o livro narra o triângulo amoroso entre Oscar Pereira, vulgo Desabrigo; seu rival Cobrinha; e a musa dos dois, a prostituta Durvalina — além de descrever a disputa territorial entre os dois vagabundos de rua. Seu estilo tem algo do escritor Damon Runyon, o cronista dos wiseguys de Nova York, mas com figuras muito mais pé-rapadas.
É a “Ópera do Malandro”, mas trocando o ponto de vista da zona sul pelo da zona do mangue mesmo. Um clássico.
“Meu estilo é pesado e faz tremer o chão”
Gabriel Trigueiro
A dica da semana é o documentário “Our Vinyl Weighs A Ton: This is the Stones Throw Records”, de Jeff Broadway, sobre a cultuada gravadora californiana especializada em hip hop cabeçudo. Como já disseram uma vez, a Stones Throw cresceu como uma espécie de “Motown do rap underground”.
Ou talvez estivesse mais para uma mistura de Impulse! Records com Warp Records. Foi a gravadora responsável por lançar “Madvillainy” (a obra prima conjunta de Madlib e MF DOOM) e “Donuts”, o incensado disco póstumo de J Dilla, para citarmos apenas dois pesos-pesados.
Embora a Stones Throw jamais tenha sido exatamente um grande sucesso comercial, daqueles que emplacam hit após hit na lista da Billboard, ela sempre foi a queridinha artsy da galera mais autoral do rap.
Isso fica evidente nos artistas que aparecem ao longo do documentário e em seus depoimentos entusiasmados: Tyler, the creator; Kanye West (na época em que ainda valia a pena escutar o que o bicho dizia); Questlove, Mike D, dos Beastie Boys, e Common.
“Our Vinyl Weighs A Ton” é um lembrete de como não só existe vida, mas todo um universo rico, amplo e complexo para além das convenções engessadas do mainstream e daquilo que foi definido um dia como sucesso comercial.
Talvez o verdadeiro sucesso seja os bons episódios que fizemos pelo caminho
João Luis Jr
“One hit wonder” é uma classificação muitas vezes usada de forma meio condescendente, num tom de crítica, pra sinalizar um artista que fez sucesso uma vez e depois nunca mais. Mas o lance é, que se você for pensar, até fazer sucesso uma vez, por conta de uma coisa, é bem mais do que a maior parte de nós vai fazer nessa vida. Afinal, quanta gente você conhece que atuou num filme que fez muito sucesso, que lançou um livro que vendeu pra caramba, que compôs aquela canção que ficou uns dois meses na cabeça de todo mundo?
Sucesso é uma combinação muito complexa de fatores que vão desde talento até oportunidade, timing e sorte, e mesmo experimentar isso uma vez que seja, é algo que acontece com uma parcela realmente ínfima das pessoas que estão aí todo dia criando, escrevendo, atuando, compondo.
Agora imagine o quão incomum é a experiência de ser, por uma década, parte da coisa que possivelmente mais estava fazendo sucesso no planeta? Foi mais ou menos isso que viveu todo o elenco de Friends, tanto quanto à oportunidade imensa de ganhar dinheiro e fazer sucesso como pouca gente já fez, como com a pressão que deve vir logo depois para continuar ganhando dinheiro e fazendo sucesso nas mesmas proporções.
E todos os os trabalhos pós-friends do elenco de Friends - e quase todos eles estiveram envolvidos em ao menos mais um bom projeto depois da série - o meu favorito, até por ser ele o ator que eu mais gostava entre eles, é sem sobra de dúvidas “Studio 60 on the Sunset Strip”, a série de Aaron Sorkin que Matthew Perry protagonizou entre 2006 e 2007.
No papel de Matt Albie, o roteirista que lutava com sua dependência química enquanto tentava salvar uma versão ficcional do programa “Saturday Night Live”, Perry se mostrava não apenas perfeito para o tipo de diálogo que tornou Sorkin famoso, como também demonstrava uma química incrível como atores do naipe de Sarah Paulson, Bradley Whitford e Amanda Peet, numa série que funcionava tanto como drama quanto como comédia - ainda que as esquetes fossem terríveis, preciso admitir. Lance “Zorra Total” na época ruim mesmo.
Então pra quem quer descobrir uma das melhores performances de um ator que muitas vezes é lembrado “apenas” por seu papel de maior sucesso, vale muito a pena conferir o que Matthew Perry fez em “Studio 60”, mais uma dessas grandes séries que foram canceladas muito antes da hora, o que é bem ruim, mas ao menos te permite assistir “a série completa” em bem pouco tempo.