Do avesso
A vida nasce aqui
Acordo com um choro intenso, doído, alto e desesperado.
Não é a primeira vez. A vontade que dá, principalmente com noites picadas, além de trabalho remunerado, família, escrita, marido, primogênito e meu corpo exigindo presença, é de responder na mesma moeda à menina de um ano que se descabela colada à mim.
Não o faço. Ao invés disso, respiro fundo. Uma, duas, três vezes.
Enquanto sinto o ar enchendo o peito, deixo que os primeiros pensamentos do dia cheguem. Esvazio o peito e permito que eles se dissolvam. Ao meu lado, o choro continua.
Sinto o caos à minha volta, me concentro no movimento do diafragma — o único balão que não estoura. Quando ele murcha pela segunda vez, recaio meus olhos sobre o gigante pinheiro no nosso jardim, mais conhecido como abeto-de-douglas. Dizem que ele pode chegar a até mil anos e um exemplar dele ocupa o posto de terceira árvore mais alta do mundo, com seus quase cem metros. Quantos anos teria esse nosso abeto no jardim? Quantos caos matutinos já presenciou? A natureza, então, é gentil comigo: enquanto observo essa majestade pela minha janela, os raios de sol do amanhecer entram em cena e lhe tocam as folhas-agulhas finas e achatadas, refletindo um dourado único, digno de uma rainha.
É neste momento que ouço o sussurro da Nike, minha comadre, que assim como eu, equilibra todos os pratinhos do cotidiano de uma mãe de dois:
“Me falta tempo, me sobram palavras”.
Inspiro pela terceira vez, o choro ainda estridente me consome os ouvidos, quando as palavras aqui escritas emergem. Finalmente, expiro. Como o abeto, o choro ainda reina o meu despertar. No entanto, calma e serena, dou bom-dia à menina sonolenta e descabelada ao meu lado, abraçando não só a ela, mas também a vida que aqui do avesso nasce.
Agora, com um chá quentinho em mãos e um silêncio atípico, volto à exuberância do meu abeto-de-douglas e à companhia da minha comadre.
Desfrute desse encontro com a querida Munike.
Um abraço de comadre,
Daniela Chaves
Do avesso
por Munike Ávila
Me falta tempo, me sobram palavras.
E quando me sobra tempo, elas se esvaem junto ao vapor do café quente.
O sol atravessa a cozinha, riscando a mesa de dourado. Um unicórnio de pelúcia, uma boneca pintada de canetinha, três livros — nenhum deles para adulto — e um bebê, que olha atentamente o reflexo dos raios nos objetos à sua volta. Somos (sempre) os primeiros a amanhecer.
Contemplo o silêncio. Tão raro que chego a estranhar. Eu sei que ele logo será quebrado pela menina de quatro anos demandando atenção e tem que fazer xixi e tem que sentar na mesa e eu quero comer isso e aquilo e pega isso pra mim e eu não posso agora tô amamentando e o papai acabou de sair com os cachorros e mãe lê um livro e você pode comer a fruta por favor?
Lembro de amamentá-la, tão miúda, nos meus primeiros dias de matrescência, e ser acometida por uma emoção avassaladora, como se sentisse as dores de todas as mulheres que vieram antes de mim — minha avó, minhas tias, minha própria mãe.
Nos atravessa.
Vira do avesso.
Nenhuma de nós sai ilesa.
Um rasgo, um corte, um berro.
Uma força incontrolável.
Criamos vida.
Somos capazes de tudo.
Naquele dia, despida de vaidade, derramando leite e jorrando lágrimas.
Naquele dia, segurando minha primogênita nos braços — tal qual minha mãe, tal qual minha avó.
Naquele dia, renasci.
Naquele dia, me juntei a elas.
Me tornei uma delas.
Meus olhares se cruzam a outras como nós. Nossos olhares confortam as que estão no caminho. As que gestam amor, então o expelem e descobrem que amor é uma palavra muito curta para descrever o infinito que se sente.
Cutuca o fundo da alma.
Resgata algo adormecido.
Ancestral.
Nos vira e revira do avesso.
O rombo no corpo é então preenchido por essa imensurável sensação. O que liga uma mãe a uma filha e a mãe dela a sua, nesse resto de cordão umbilical que forma um elo mesmo depois de dividido.
Como quando minha mãe me escreve em dias tempestuosos ou quando ouço sua voz ao ler um livro pros meus.
Causa um rebuliço.
Revolução.
Renascimento.
//
Agora na mesa, um gato de pelúcia.
Por que os dinossauros morreram? Por que no Brasil ainda é noite? Por que o mano tá chorando?
Acudo o bebê com os braços enquanto as mãos servem leite para a garota curiosa.
A mesma que, naquele dia, me tornou outra enquanto se tornava alguém.
Seu irmão se uniu a ela para multiplicar o infinito.
Junto deles, compreendi: minha paz reside no caos.
Me falta tempo, me sobram palavras.
E para que não se esvaiam, as engarrafo em uma térmica.
O meu café segue quente. As minhas palavras nascem aqui.
Vai ver o avesso sempre foi o lado certo.

A comadre que te escreve hoje
Sou Munike, mas todos me chamam de Nike.
Moro na Suécia, onde me sinto turista ao ver neve, trabalho como designer, viro lagarto em busca de sol no inverno e brasileira em busca de sombra no verão. Aqui também crio dois seres humanos e dois vira-latas. Escrevo quando as palavras transbordam. Entre um trocar de fraldas e um quebra-cabeças. Nas brechas da vida, sobre a própria vida cheia de brechas.
Acontecendo na Comadreria
Sabia que já enviamos outras seis edições com relatos íntimos e vulneráveis das nossas comadres? Na última segunda-feira, a comadre Paola Z. Behs trouxe um relato íntimo e poderoso sobre os seus lutos e o aprendizado de que a dor só diminui quando compartilhada. Vale a pena conferir o texto na íntegra!
Aliás, semana que vem, dia 22, publicaremos a última história dessa nossa série de lançamento. Caso você não tenha nos acompanhado de pertinho ao longo das últimas sete semanas, aproveita para ler (ou reler) os outros relatos lá na página da Comadreria. Está ficando lindo, lindo!
Toda sexta-feira, estendemos o Varal da Comadreria lá no nosso chat. O varal é um espaço para pendurar e divulgar sua escrita, encontrar outras comadres que escrevem e tecer belas conexões. Para acessá-lo, basta instalar o aplicativo do Substack e procurar por nós. Além disso, acabamos de abrir uma nova roda de apresentações lá no chat. É tanta comadre nova chegando que, até quem já se apresentou nas últimas, está convidadíssima a repetir a dose <3
E por falar em tecer conexões, o Atlas das Mães que Escrevem no Substack será atualizado todo mês — a atualização de setembro já já estará pronta. Portanto, se você ainda não faz parte dessa cartografia viva da escrita materna, te convidamos a preencher esse formulário e colocar seu nome e sua escrita no mapa.








Munike querida! Que presente em forma de palavras. Revirada, por aqui. Obrigada!
“ Meus olhares se cruzam a outras como nós. Nossos olhares confortam as que estão no caminho. As que gestam amor, então o expelem e descobrem que amor é uma palavra muito curta para descrever o infinito que se sente.” Te leio e releio e fico presa aqui. Isso é gigante, querida. Obrigada ❤️