Alice
Nasceu inteira. Dois braços, duas pernas, tronco, cabeça, cabelos. Tinha todas as partes de fora e de dentro. E mais importante de tudo, se sentia inteira.
Foi uma criança arteira, como diziam os adultos. Brincava de inventar mil mundos, construía máquinas de papelão, fazia do barro, argila, desenhava nas paredes.
Todas as suas partes estavam preservadas. Os adultos cuidavam de tudo para que a pequena Alice pudesse viver sem saber que, do lado de fora da casa, a vida era caos e incompreensão.
Chegou a fase adulta pronta para viver tudo o que houvesse disponível em sua frente. Entrou na faculdade, se apaixonou, viajou, trabalhou, saiu de casa e reproduziu em seu próprio apartamento aquele mundo seguro.
Até que veio a primeira queda. Uma pequena rachadura, decorrente de um patrão abusivo. No começo, fez que não viu. O resto parecia intacto e aquele pequeno vinco não parecia causar riscos.
Seguiu vivendo, mas a vida, ah, a vida, a vida tem dessas. E foi então que veio a segunda queda. Não sabia ao certo se o problema era ter amado, amado demais ou amado errado. Mas se apaixonou, se jogou, e descobriu, da pior forma possível, que estava há poucos centímetros do chão.
Bem no meio da coxa, a perna descolou. Apavorada, Alice foi pedir ajuda para uma amiga, que chegou em sua casa e se assustou. Como aquilo havia acontecido? O que poderia ser feito para resolver essa situação?
Pesquisaram na internet e descobriram que dava para colar. Joana, a amiga, foi logo buscar a cola na loja mais próxima e, com o passo a passo bem explicado, conseguiram resolver a questão.
Alice respirou aliviada, ainda que muito assustada com o que poderia acontecer assim, de repente.
Seguiu trabalhando, pagando as contas, voltando para casa cansada, dormindo na frente da televisão, depois de vinte minutos de um seriado bobo, que aliviava a tensão do dia.
Não estava preparada, mas quem estaria preparado? E então, a terceira queda.
Seu pai adoeceu. Não havia luz no fim do túnel para ele. Era duro demais. Depois de tantos anos de amor e conexão, depois de tantos anos de cuidado e carinho, ele que era o seu mundo, estava frágil como uma borboleta. E em um dia quente de verão, com o ventilador ruidoso no quarto, que girava de um lado para o outro sem parar, seu pai se foi.
Dessa vez, o estilhaço. Micro pedaços espalhados pelo chão. Parecia um pó de vidro que mal se enxerga, mas é capaz de te cortar inteiro, de adentrar o peito. No desespero, tentou novamente o tutorial. Buscou algum caso parecido, e não conseguia encontrar nada. Sentia o vento que passava por sua barriga. Pegou alguns pedaços maiores, que davam para colar, e foi criando uma nova espécie de arte. Mas não tinha jeito, uma parte estava perdida, impossível de ser corrigida, e foi quando Alice entendeu que esta seria a sua nova realidade.
O tempo passou. Um ano, dois anos, três anos. O coração de Alice se apequenou. Aquele mundo, cheio de ideias e de fantasia e de possibilidades, aquele lugar seguro em que nasceu, aquele amor que sentiu, tudo isso parecia uma outra vida.
Foi em uma festa do trabalho que Alice avisou Leonor pela primeira vez. Sua intuição levou seu olhar para aquela moça intrigante, antes mesmo que notasse o buraco. Deu um jeito de encontrá-la no bar e puxou uma conversa qualquer.
Foi só ao chegar bem perto que conseguiu reparar no brilho que surgia por entre os botões da camisa. Era mesmo um buraco. E se sentiu sem jeito ao perceber que a moça acompanhava seu olhar.
Se essa história fosse um filme da Disney, ambas conversariam sobre suas experiências. Aqueles corpos corrompidos, diferentes dos demais que pareciam perfeitos, seriam o ponto de conexão. Leonor e Alice se tornariam melhores amigas. Viajariam juntas. Frequentariam cinemas, museus, bares e a casa uma da outra. Essa amizade seria de igual importância para cada uma.
Estariam presentes em seus casamentos. Carregariam os filhos que cada uma, em seus corpos quebrados, cuidadosamente gestariam. E provavelmente terminaria com as duas já idosas, sentadas na varanda da casa de campo, tomando um chá e acompanhando mais um sol se pôr.
Mas este não era um enredo mágico. Não era pra ser. Não teria esse caráter de salvação, transformação, redenção ou o que quer que seja.
Na vida real, ambas continuaram a ser o que eram: colegas de trabalho. Se acompanhavam à distância, com olhos às vezes curiosos, às vezes cautelosos, às vezes intrigados. E mesmo assim, de longe, mesmo sem trocar confissões, sem almoçarem juntas, mesmo sem confessarem suas angústias, Alice e Leonor sabiam: não estavam sozinhas nessa experiência.
Um buraco que crescia e diminuía. Uma rachadura que nunca seria corrigida. O vazio. O medo. A dor. O não retorno. E a luz que atravessa.
Essa edição faz parte do amigo secreto entre escritores de newsletter. E eu tive a alegria de tirar uma pessoa que admiro tanto, Júnior Bueno, que entre coisas lindas que escreve, deu vida a Leonor. Te convido a ir ler esse conto lindo e a assinar o cinco ou seis coisinhas .
De fora para dentro
Este foi um ano cheio de desafios, muito diferente do que imaginava quando escrevi essa edição, também de amigo secreto, no dezembro passado. 2025 mudou tudo de novo, me mudou por dentro e por fora, e neste estado afórmico, a escrita desorganizada e caótica tem ficado mais no caderno do que nesta querida newsletter.
Apesar das palavras que me escapam, a leitura tem aquecido meu coração. E para terminar essa última edição do ano, vamos a algumas recomendações.
eu espero que você consiga, da sempre certeira nathalia
Você sabe quando é hora de ir embora, porque a gente sabe mesmo, da querida Surina Mariana
Como recomeçar do nada, pura poesia da ALL THINGS AWE
Obrigada por chegar até aqui 🌻
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Que lindo isso tudo amiga. Amei ❤️✨
Que lindo, amiga! É bom saber que não estamos sós.
Beijo!