olhares de fogo
Carta #36 || sedutores & seduzidos; a rua em chamas; vanguardas pornôs latino-americanas
O que você vê em mim que eu não vejo?
O que você sabe de mim que eu não sei?
Maria Rita Kehl, “Masculino/Feminino: o olhar da sedução”
Paraty, 30 de julho de 2025 — Belo Horizonte, 14 de agosto de 2025.
I
Artistas desejam receber olhares. É assim. Escritores, supostamente a ala mais tímida dessa convenção egocêntrica, não escapam da armadilha: se evitam a atenção em seus corpos (caso raro no nosso século de espelhos), a anseiam ardentemente em suas obras. Mário de Andrade no inesgotável “Prefácio interessantíssimo”: Todo escritor acredita na valia do que escreve. Si mostra é por vaidade. Si não mostra é por vaidade também. Antes, eu tinha vergonha da minha vaidade. Depois de ler Mário, porém, visto-a como um troféu. Claro que sou vaidosa: sou escritora, e, como Mário, libriana. A vaidade de quem escreve, porém, é menos preocupada com o superficial das aparências e mais com a arquitetura do pensamento. Nós que empunhamos a caneta, tão orgulhosos, apreciamos a exibição. Só tornamos qualquer coisa pública depois da labuta infindável da linguagem, das revisões obsessivas, da reescrita suadíssima. Afinal, o que escrevemos será olhado, e como objeto de olhares alheios, o Texto se torna sujeito sedutor.
II
Mas artistas também desejam — talvez ainda mais — olhar. Voyeurs do mundo ao redor: vemos e somos vistos. Ser objeto & ser sujeito ao mesmo tempo. Socializada como mulher, tenho consciência que temos sido historicamente olhadas (objetos) e não olhadoras (sujeitos). Os nossos opressores têm nos mirado insistentemente e criado ficções sobre nós. Contudo, podemos apreciar o desafio entre contrários. Maria Rita Kehl: A sedução é um jogo entre dois olhares. O sedutor não se revela, mas revela alguma coisa sobre o seduzido. Desejo de conquista e escravidão, perigo e abandono.
III
Andar pelas ruas da América Latina é mirar fundo nos olhos dos outros. Reparem bem: nosso contato com a multidão de anônimos é sempre olho no olho. Não dá pra fazer isso com os gringos. Pra eles, só há duas opções após o intenso contato visual: assédio ou assalto. (Falo por experiência própria.) Pra nós, isso é o básico da existência em sociedade. Cara a cara, estamos vulneráveis à visão do próximo. Ser latino-americano é isto: caminhar entre ruas de olhos em chamas.
IV
Tudo isso estava pulsante no meu corpo e na minha mente quando li “//ADVENTURES IN THE AVANTGARDE (2)//”, um manifesto vanguardista do escritor brasileiro-estadunidense Harold Rodgers. Já falei do seu trabalho nesta Carta para navegantes antes, aqui e aqui. O Haroldo (como o chamo, em homenagem ao nosso tradutor-canibal preferido) lê a América Latina muito afiadamente como terra de inovação, extremismo, e sobretudo TESÃO. É difícil condensar meus pensamentos e leituras acerca desse debate pois estou literalmente escrevendo uma tese de doutorado sobre o assunto. Talvez em duzentas e poucas páginas a acadêmica consiga resumir tudo que pensa sobre a nossa tão suadinha audácia estética. Até a tese ficar pronta para os olhos públicos, deixo aqui minha assinatura embaixo desse manifesto vanguardista.
V
Com muita generosidade, Haroldo me insere nessa linhagem de escritores da vanguarda pornô latino-americana, e define O presidente pornô como “uma sátira lasciva da história política brasileira; uma fundição de gêneros, linguisticamente, tipograficamente, estruturalmente inventiva; quero dizer, tem sexo selvagem pra caralho neste livro. É uma comédia na tradição irreverente do herói da vanguarda brasileira Oswald de Andrade misturada com Hilda Hilst” [minha tradução]. Como esteta obsessiva, me envaideço ao ter leitores com os olhos tão apurados quanto os de Haroldo, que conhece as ferramentas da tradição e está tão ou mais atento à forma que ao conteúdo. Sim, nós latino-americanos escrevemos sobre sexo, mas como esse “wild fucking” é escrito? Eis aí a espinha dorsal da vanguarda pornô: não o enredo, mas a linguagem tresloucada, sem regras, sem amarras! ousadia & alegria, sujeito & objeto, seduzido & sedutor.
VI
Blás-blás-blás da teoria à parte, vamos à literatura, o que realmente interessa. Encerro esta carta com uma pequena ficção de Carne (Letramento, 2019), um livro-objeto que teve apenas 50 exemplares e cuja diagramação fabulosa foi concebida pelo desdobrável cérebro de Octavio Cardozzo. Entre textos que hoje leio como muito violentos (em 2018, a autora sentia muita raiva, será por quê?), lembrei deste que, em seu esplendor ficcional, resume essas teorias todas. Um tratado (manifesto?) sobre a sedução, que me denuncia leitora dos jogos de Lygia Fagundes Telles e das touradas de Pedro Almodóvar. Eis aí.

VII
o seduzido não sabe onde pisa. ele me olhava, fundo, forte, bufando, me olhava intenso, fumaça saindo das orelhas, hummmm hummmm, e a plateia em volta gritando, todo esse teatro para o outro, a turba em ebulição, e ele me olhando, me olhava fundo
sabe, bem, meu pai era jogador, um homem lindo, lindíssimo, jogava sempre no oito, o número da sorte, filha, ele dizia, sopra os dados pro papai, sopra, e eu soprava, feliz da vida, e ele sempre perdia, sempresempre, mas pai, não era o número da sorte, porque que nós perdemos, filha minha filha, hoje nós perdemos, mas amanhã a gente ganha, amanhã, sabe, bem? o jogo
aqueles olhos.
o que fazer daqueles olhos.
fundos.
piscinas negras rutilantes
o que.
fazer.
olha aqui, dona, não vai ter como bordar isso aqui não. como não? o tecido é muito delicado, é muito vermelho. dá dó de estragar. mas não é estragar, é deixar mais bonito, entende? eu preciso desse nome bordado aí. precisa? preciso. vou tentar, dona, mas e se estragar? não tem problema. estraga, então.
20 de septiembre. Sevilla. Se necesita voluntarios.
o seduzido sabe que se aproxima uma CATÁSTROFE. ele me olhava, caçador, rodeando, rodeando, e a multidão aplaudindo, puta que pariu, porque eu resolvi me inscrever nessa merda, eu já sabia, a história já me conta, a cultura, cinquenta por cento de chance de se fuder, cara ou coroa, vermelho de sangue, rasgou-se, pingou
sabe, bem, a ânsia de vencer, a adrenalina da roleta, os toques faíscas nos dados, nos dedos, respirando, pulsando, ah, ah meu deus, vai dar oito, oito bem, mas os dados não param, vão girar pela mesa até o infinito, o coração batendo adoidado, girando a capa vermelha, o seu nome nela, bem, minha derradeira declaração, a arena, a mesa, estou inspirado, minha filha, hoje não deu mas amanhã a gente ganha, faço um oito com o vermelho no ar, os olhos em chamas, as patas na areia, os aplausos, e ele me olhando, sedutor.
carta na garrafa
respostas de leitores às últimas cartas
Bela carta, baita abertura. Os áudios são uma preciosidade! A homenagem ao Ângelo me lembrou do curta da Mariana, que vi em algum festival online no começo da pandemia. Pesquisando, vi que agora está disponível no vimeo da diretora:
— Davi Cândido, 24.07.2025
Bruna, eu amo te ler. Naturalmente, ler sua newsletter é um dos compromissos que assumi comigo mesma; porque me diverte, porque me ensina caminhos para ler o mundo de outras formas. Gosto da forma que escreve e dos insights que guiam suas palavras. Você é grande! Um abraço!
— Jaiane Beatriz, 24.07.2025
Quem conhece o oceano não se contenta com a profundidade ilusória da piscina.
Vem nadar comigo!
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com amor, Bruna K
p.s.I. leia as outras cartinhas aqui.
p.s.II. compre O presidente pornô autografado aqui.



Como não ter vaidade diante do nosso trabalho com o texto? Não é para qualquer pessoa...