Duquesa de Tax: A história do eleitor de Trump que apoiou as tarifas e agora se arrepende
No programa ‘Fala, Duquesa!’ desta quarta-feira, 6, a colunista reage ao comentário de um produtor americano que acreditava que não seria afetado pelas tarifas. Crédito: Edição: Jefferson Perleberg/Estadão
A relação do inspetor de qualidade Matheus Gabriel dos Santos com os EUA era restrita ao básico: assistir a um filme ou uma série norte-americana de vez em quando e ouvir músicas em inglês. Aos 22 anos de idade, ele só arranha no básico do idioma, nunca pediu visto para entrar naquele país e ouvia de longe falar do terremoto causado por Donald Trump na geopolítica global. Até que, na terça-feira, 5, o tarifaço o atingiu em cheio. Chamado ao RH da fabricante de equipamentos Engemasa, foi dispensado do cargo que ocupava havia um ano.
“Foi o que eu falei para a minha mãe: ‘eu, que não tenho nada a ver com isso, primeiro tive de trabalhar mais para adiantar as encomendas e, agora, fui dispensado”, diz ele. “Sobrou para mim o que o presidente dos EUA faz com um país que não é nem o dele.”
A Engemasa diz não ter tido escolha. Com fábrica em São Carlos (SP), é uma das cinco empresas no mundo que produz equipamentos com ligas metálicas especiais desenvolvidas para a indústria pesada, como petroquímica, óleo e gás, fertilizantes e siderurgia. Com cerca de 500 funcionários, foi criada há 50 anos como uma fundição e obtém 80% de sua receita de exportações. Metade é proveniente dos EUA.
Como cada equipamento é feito sob encomenda e leva entre seis meses e um ano para ficar pronto, a decisão foi matemática. Desde abril, quando Trump começou a falar em tarifar diferentes países, as encomendas secaram. “Num primeiro momento, achávamos que o Brasil seria beneficiado, já que japoneses e europeus estavam com tarifas maiores”, diz João Baroni, diretor-geral da Engemasa. “Acreditamos que haveria uma retomada de projetos engavetados mas, com a imprevisibilidade, o cliente parou de tomar decisão de investimento.”
Com isso, a carteira de pedidos que Baroni contava para manter a empresa com uma operação mais forte no segundo semestre simplesmente não existiu− e ele foi obrigado a cortar 10% do pessoal, antes que faltasse fluxo de caixa. Até outubro, a fábrica estará operando em quase toda a capacidade. “Depois, não sei o que vai ser”, diz ele. “Estamos tentando recompor os pedidos com outras geografias, mas isso leva tempo.”
As outras alternativas não chegaram a tempo de evitar os cortes. “Aplicamos para todas as formas de financiamento para capital de giro que pudemos, sem retorno”, diz ele. O programa de ajuda do governo estadual ainda não está disponível a quem o procura na SP Desenvolve. O auxílio federal foi anunciado apenas nesta quarta-feira, 13 − e deve levar algum tempo até chegar na ponta. Sua implementação pode levar semanas, prazo que muitos fabricantes não têm.

Uma outra saída seria o mercado nacional, mas ele foi tomado por produtos chineses, diz o executivo. “A Petrobras prioriza preços e temos um diferencial de qualidade grande”, afirma Baroni. “Para se ter uma ideia, outros países que são importantes produtores de petróleo não aceitam os produtos chineses, que acabaram entrando com tudo aqui.” Também há importadoras que nacionalizam itens chineses e os vendem como se fossem feitos no Brasil para editais que têm essa exigência", diz. “A Petrobras poderia ser uma saída.”
A Engemasa conseguiu antecipar pedidos para driblar a alta na taxação e negociar com alguns clientes para as encomendas que estão em andamento. Um dos diferenciais competitivos da empresa era exatamente o recolhimento de tarifas e a entrega na porta do comprador. O tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros deixou a oferta inviável.
“Juridicamente, até estamos cobertos em uma eventual quebra de contrato por conta de força maior, mas, por outro lado, não queremos perder relevância no mercado e sabemos que o que produzimos é um equipamento crítico para o cliente”, afirma Baroni. “Em alguns casos, estamos negociando dividir a conta, em outros, vamos ter prejuízo mesmo.”
Segundo ele, alguns clientes que não querem ficar dependentes de poucos fornecedores estão aceitando a negociação.
Fábrica árabe
Entre os planos de pulverização de mercados da Engemasa está a abertura de uma fábrica na Arábia Saudita. O país privilegia a produção local, com financiamento, condições tributárias e em prioridade nas aquisições. A Engemasa já tomou a decisão de investimento. Com um sócio árabe, construirá a fábrica em Jubail, cidade na costa do Golfo Pérsico, que receberá investimentos de R$ 100 milhões e deverá ficar pronta em 2027.
Baroni diz até ter estudado se seria interessante ter uma fábrica nos EUA, Canadá ou México. A conclusão foi: não. “Um concorrente que tem planta nos EUA disse que a principal dificuldade é a mão de obra: a nova geração não tem vocação para trabalhar em manufatura”, diz ele.
Recém-chegado de um curso de formação executiva nos EUA, ele afirma que o tarifaço − seja no Brasil ou em outros países − não é um assunto presente no noticiário norte-americano. O caso Jeffrey Epstein ou a frase polêmica do dia pronunciada por Trump impactam mais do que qualquer possível consequência econômica. “O americano não percebeu o efeito que essas tarifas vão causar sobre ele”, diz.
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Na prática, por enquanto, o efeito do tarifaço da Engemasa será de estabilidade na receita anual de R$ 250 milhões, com redução na lucratividade. O que não entra na conta é a perda de mão de obra qualificada, cortada pelas demissões, ao longo do tempo. “Se o plano de expansão prosseguir, daqui a um ano e meio vou precisar contratar novamente”, diz Baroni. “Essa é uma mão de obra disputada e é sempre difícil recompô-la.”
Há vagas
Santos, que foi demitido, sabe disso. Como perdeu o pai aos 12 anos de idade, é o principal salário da casa que divide com a mãe, a irmã e a avó, desde os 16 anos. Foi menor aprendiz no supermercado Savegnago, em São Carlos, trabalhou numa metalúrgica como mecânico industrial júnior, até ingressar na área de produção da Engemasa. Ao ter uma oportunidade no setor de inspeção de qualidade, inscreveu-se num curso de especialização na área, no Senai.
“Meu curso termina em outubro e quero concluir”, diz ele. “Estou distribuindo currículos e não acredito que será difícil arrumar trabalho. Qualquer coisa, posso fazer um bico enquanto tenho seguro-desemprego.” A taxa de desemprego no Brasil está no menor nível da série histórica, em 5,8%. Sua mãe acaba de arrumar uma vaga no Senai.
Sobre a briga política no País que afetou sua vida, Santos diz não ter preferência “nem para um lado, nem para outro”. “Concordo com algumas coisas da direita e outras da esquerda”, afirma. “Mas sempre acho que os dois lados só querem favorecer a eles mesmos.”





