Ninguém entende por que Edgar sai imediatamente da academia quando outro morador comete o disparate de entrar enquanto ele corre na esteira. Ao intruso, concede a esmola de um olhar aborrecido e ignora absolutamente o “bom dia”. Uns cinco minutos depois, no máximo, Edgar desliga o equipamento, e o barulho descendente das roletas anuncia sua despedida abrupta.
O incômodo morador, de certo prédio do bairro do Bacacheri, tem pouco mais de quarenta anos e uma calvície já bem começada. É muito magro — e assim são também suas pernas. Quem consegue observá-lo na esteira pode vê-las em rápida e curta sucessão de movimentos.
A chatice de Edgar não é apenas reativa e, caso ninguém a provoque, ele age ativamente, se preciso. Não tendo vaga própria de garagem, não vê qualquer problema em usar a dos outros. Se alguma estiver vazia, tal qual nas vagas de rua, julga-se de pleno direito para ali estacionar seu carro. O morador estupefato que manda mensagem no grupo recebe uma resposta bastante serena: “é meu, já tiro”. O advérbio é dele — e o tempo estimado também.
Edgar mora sozinho e, em seu apartamento, se arrisca a cozinhar, preferindo sempre as gordurosas e econômicas frituras: hambúrgueres congelados, bistecas de porco imersas em óleo e até a clássica porção de calabresa com cebola. O seu andar é o mais aromático e as paredes já denunciam marcas de gordura em tons um pouco mais escuros.
Aos fins de semana, Edgar gosta de ouvir música e não tem repertório muito bem definido. No volume amplificado e mal equalizado da TV, toca Adele, Ed Sheeran, Linkin Park e Coldplay, quando se anima e arrisca algum refrão.
Era questão de tempo até eu me tornar uma das vítimas da chatice de Edgar. Tolerava silenciosamente o cheiro, o som desequalizado e os maus modos na academia, sem conceber qual reação eu teria caso ele estacionasse na minha garagem. Até o dia em que divisei seu Twingo vermelho a ocupando. Reparei no adesivo de uma marca de surf da década de 90, já bem gasto.
A mensagem que imediatamente comecei a digitar deveria ser agressiva, para humilhar o alvo. Queria criticar desproporcionalmente o comportamento e, quem sabe, até depreciar o Twingo vermelho. Mas saiu apenas uma ironia leve: “esta vaga é minha, mas, como podem ver, há outro carro nela. Por favor, o dono pode tirar?”. O número desconhecido começou a digitar, até que veio a mensagem: “é meu, tô indo” — pelo menos sem advérbio.
Pouco aliviou minha raiva o passo tranquilo de Edgar, vindo do elevador e, pior, de cabeça erguida. O certo seria ele se aproximar cabisbaixo, quem sabe de joelhos. Agora sua magreza parecia uma evidente deficiência de caráter, nesse longo percurso até a minha vaga. Ele me olhou e falou com inacreditável confiança:
— Desculpa, precisei levar umas compras e tive que pôr o carro aí.
Explicou objetivamente, sem qualquer traço de hesitação. No mundo das ideias de Edgar, seu comportamento incômodo era, portanto, lógico. No silogismo, havia a premissa “precisei levar as compras”, que saltava lepidamente para a conclusão “tive que pôr o carro aí”, sem margem para “não tenho uma vaga”. Foi rapidamente também que sondei outras lógicas irretocáveis para seus hábitos incômodos.
— Tranquilo, Edgar.
Sem querer, chamei-o pelo nome e ele não estranhou.
Fato é que Edgar nunca mais usou a minha vaga, embora tenha continuado a usar outras. Voltei à academia algum tempo depois e me deparei novamente com sua compleição raquítica, quase fantasmagórica. Desta vez, ficou por alguns minutos a mais, completando todo o exercício. Só não fechou a porta direito e a deixou encostada. Interrompi o meu exercício e a fechei corretamente. Aborrecido, mas conformado.

