Na Força do Ódio
A volta por cima de Dunga, o craque movido a rancor, capitão da Seleção Brasileira no Tetracampeonato de 1994
"O Homem que Xingou a Copa do Mundo".
Era esse o título do texto dedicado a Dunga, o capitão do Tetra nos Estados Unidos, numa revista sobre o Brasil nas Copas.
Não me lembro de mais nada daquela revista. Ficou na lembrança apenas uma grosseira discrepância na homenagem a Dunga em comparação aos demais figurões da Seleção.
Todos os outros receberam artigos tão laudatórios quanto pouco memoráveis.
Dunga? Foi enaltecido de uma forma tão sarcástica que eu, criança, tive dificuldade de entender as ironias e precisei de ajuda do meu pai.
O camisa 8, cria da base do Internacional, foi pintado como um volante bom, mas limitado; o retrato perfeito de um time burocrático, que triunfou apenas por causa do gênio de Romário.
Aceitei aquilo como verdade. Por que não seria? O Dunga que eu conhecia era um técnico turrão, autoritário, sempre de mau humor nas falas públicas.
Sua reputação morreu para mim naquele mesmo ano, após a derrota brasileira na Copa do Mundo de 2010. Meu parecer negativo se agravou na sua segunda passagem pela casamata da CBF: péssimos resultados e a velha mania chata de suspeitar até da própria sombra.
Foi só em 2018 que a minha percepção sobre Carlos Caetano Bledorn Verri começou a mudar.
Nessa época, retomei o hábito de assistir a íntegra de jogos antigos na internet. Com isso, descobri que Dunga havia sido jogadoraço. Um volante inteligente, aguerrido, de ótimo chute e visão. Uma rocha na marcação e um maestro na criação.
É dele o recorde de mais desarmes (57!) e passes (589!) certos em uma edição de Copa do Mundo, justo o torneio de 94 no qual saímos campeões.
Dunga fez isso após anos de estigma e perseguição midiática pelo período fracassado de Sebastião Lazaroni à frente da Seleção, apelidado caricaturalmente de "Era Dunga”.
Em 1990, ele tinha 26 anos e já havia vestido as camisas de Inter, Corinthians, Santos e Vasco. Deixou saudades em cada um deles.
Partiu pro futebol italiano, o mais forte do mundo na época. Lá, salvou o modesto Pisa do rebaixamento e levou a Fiorentina a final da Copa da UEFA.
Esse currículo pouco importava à imprensa nacional, que o elegeu como culpado pela eliminação na Copa de 90: devia ter feito falta em Maradona na jogada do gol argentino. Pouco importava se os outros jogadores também falharam no lance, até mais grosseiramente. Dunga era a Geni a ser cuspida e escrachada, criticado até pelo seu ídolo de infância, Falcão - o novo treinador da Seleção.
Dunga desmoronou mentalmente. Anos depois, em 1995, confessaria à Placar que passou os três dias seguintes trancado em casa, sofrendo com crises profundas de gastrite e ataques de pânico.
Ao fim da via crucis maradoniana, jurou para si mesmo que iria calar a boca de seus críticos jogando o melhor futebol possível. Apesar de ter nascido em Ijuí, a um passo do Uruguai, Dunga sangrava verde e amarelo e iria provar isso dentro de campo.
Parreira assumiu a Seleção e, ao lado de Zagallo, bancou a volta de Dunga, importante na classificação pro Mundial.
EUA '94: Após fazer uma primeira fase esplêndida e ficar com a faixa de capitão após a saída de Raí do time titular, Dunga encarou a responsabilidade de pôr fim ao jejum de 24 anos sem título.
Dentro de campo, organizava o time com interceptações e lançamentos brilhantes; fora dele, incutia foco no grupo.
Com o coração na ponta da chuteira, o Brasil foi avançando. EUA, Holanda, Suécia. Sempre com garra, técnica e tática.
Chegou a grande final contra a Itália, um jogo modorrento de erro-zero, sob o sol escaldante da Califórnia. Pela primeira vez, decisão nos pênaltis.
Dunga não se omitiu: bateu e converteu. Chute firme, no canto. Vibrou com um soco solitário e correu para incentivar seus companheiros.
O fim da história, todos conhecemos. Brasil Tetra. Dunga, o general da conquista. O Patton dos Pampas completou sua volta por cima.
Incontestável, seguiu titular canarinho no ciclo seguinte. Aos 34 anos, jogando no Japão, fez outro grande mundial em 1998, onde novamente foi decisivo na disputa de pênaltis contra a Holanda na semifinal. Aposentou pouco depois, jogando no Inter e salvando seu amado colorado do descenso.
Escolher a mágoa como motor motivacional pode ter custado a Dunga a simpatia do público e uma relação saudável com a imprensa, mas é injusto resumí-lo a isso.
Trata-se de um cara gentil, acessível e que faz, sem alarde, belos trabalhos de assistência social no Rio Grande do Sul.
Todavia, é preciso contar a história como ela é. A determinação de Dunga em vencer na força do ódio é incontornável, impossível de censurar.
Ninguém tem sangue de barata. Todo mundo já passou pela experiência de ser ferido e querer dar o troco.
Na guerra contra a imprensa, Dunga riu por último. A torcida, riu melhor.
Quando eu penso na minha Seleção Brasileira dos Sonhos, a braçadeira não é de Cafu, Bellini ou de Carlos Alberto.
É daquele cara que, depois de sofrer calado por meia década, ergueu o troféu mais importante de todos e gritou:
"É pra vocês, traíras filhos da puta!"








E como técnico não dá para dizer que o ciclo de 2010 foi horrível, pois a eliminação ocorreu por causa de erros pontuais. Em relação ao comportamento " linha dura" como técnico neste período, era um pouco do que torcedores, gestores e parte da imprensa queriam: apagar a imagem da "farra de 2006"