A arte de dizer não.
#36
Uma vida toda para aprender?
Quanto mais cedo se aprende, melhor se vive.
Mas talvez a gente aprenda bem cedo (já reparou na facilidade com a qual uma criança de 2 anos diz não?) e desaprenda cedo demais também. Eu desaprendi bem cedinho. Aí estou aqui, levando a vida toda, reaprendendo a dizer não.
“A arte de dizer não” é um trabalho muito injusto. Porque ao dizer não para aquilo que precisa ser mesmo recusado, passado aquele estado de contentamento consigo mesmo — aquele ufa, aquele alívio que nos leva a pensar por que raios não fizemos isso antes, já que é tão bom —, logo o trabalho parece se desfazer e novamente aparece outro não a ser dito.
É não atrás de não na frente de não ao lado de não. Porque parece que tem uma magia na vida que faz com que quanto mais fiel sejamos a nós mesmos (e isso implica em dizer um punhado de nãos), mais a vida e as pessoas e as instituições nos cheguem com mais e mais convites e demandas.
Vale dizer, caso você não saiba, leitor/a, que os nãos mais difíceis são aqueles que a gente precisa dizer para nós mesmos. Não o não para o lugar lúcido em nós (leia com atenção, não é uma pegadinha sintática), não o não para o lugar que nos coloca em relação com vitalidades e bonitezas. A dificuldade maior é a de dizer não para o lugar em nós que se identifica ao Jaiminho do Chaves (pegam essa referência ainda?), que quer evitar a fadiga, que se conforma em fazer e refazer caminhos que são mais do mesmo. Que delícia que é aquilo que já conhecemos! Que amedrontador é percorrer caminhos que, por mais que pareçam limpos, não sabemos para onde vão dar. Que trabalheira suportar que apostar na vida é apostar num vazio de certezas! Que complexo nos separarmos das partes de nós que gostam de se acorrentar em repaginações do passado!
Talvez essa dificuldade toda seja efeito do fato de que é preciso dizer não para outros dentro e fora de nós - para dizer sim ao insondável daquilo que é vivo.
Notícias do meu trabalho:
1) Nosso grupo de estudos “Lendo Freud hoje” está estudando “Além do princípio de prazer”, que é o texto onde Freud fundou a noção de pulsão de morte, que revolucionou sua obra. Esse texto, certamente, é efeito desse percurso de estudos que tá rolando ;)
2) Logo mais, provavelmente dia 22 de fevereiro, abriremos as inscrições para o Clube de Palavras, que vai ser sobre o mundo feminino, mais especificamente, se chamará “De menina a mulher”.
3) Recentemente participei de um episódio de podcast com a Lela Brandão, a gente falou sobre... Amor é claro. Dá pra ouvir aqui.
4) Minha collab de camisetas com a Amora livros agora também tem ecobags lindas e você pode adquirir aqui.
5) A entrevista mais recente que fiz na minha temporada no podcast do Alma Talks, que se chama Felicidade Clandestina, foi com a Nathalia Arcuri, tá uma lindeza e você pode assistir aqui.
Um lindo 2026 pra gente e até a próxima!


que coisa incrível isso de a gente querer sempre voltar para o caminho conhecido, mesmo doído, mesmo sendo ruim...
amo o pensamento de que a gente sabe muitas coisas quando somos crianças e que a vida vai fazendo com que a gente esqueça. e aí, depois de algum tempo, a vida é generosa o suficiente pra nos presentear com a presença de uma criança que vai nos relembrar de tudo que esquecemos