Mataram o tédio. E quem morreu? 🦤
Miraram no tédio, mas quem morreu foi o tesão. Exercícios para atrair o pássaro dos sonhos. Notícia: a antologia "El día después del eclipse"
Olá,
Estou há meses tentando escrever sobre o assunto: os perigos do mundo sem tédio.
Como justo neste mês estou com vários trabalhos atrasados, não há nada mais digno do que procrastinar em grande estilo. Joguei tudo para o ar e finalmente dediquei duas manhãs inteiras à morte do tédio.
Convido você a se enrolar comigo, entre hipóteses dúbias e rútilas dúvidas.
Com amor bandido e tempo roubado,
Ana Rüsche
Matamos o tédio. Mas quem morreu foi o tesão.
Num fio de silício
Em leituras públicas, a Katia Marchese, uma amiga minha poeta, entoa as palavras com os olhos marejados de força. Acho que você conhece o fenômeno, não conhece? Alguém pronuncia algo tão imenso que se trai, as palavras surgem molhadas na superfície da retina.
Para grandes audiências ou somente para mim, essa mulher é capaz de pronunciar cada sílaba concatenada ao fio dourado da vida — consigo escutar nitidamente sua voz em minha cabeça ao ler versos de seu Herbário da memória:
“Uma coleção de melancolias
de tudo aquilo que irá nos faltar.”
Trouxe isso para te contar sobre uma experiência bem menos luminosa, quando lembrei da Katia numa malfadada hora matutina, diante de uma plateia completamente entediada.
Em minha defesa, alego: o problema não era comigo. Já chegaram assim. Pingando nas cadeiras. Cansados do quê? Parecem bem nutridos, bem vestidos. Pigarreio, observo, arrumo meus papéis, encaro os semblantes exaustos. Minhas palavras são absorvidas pelas paredes, nada dá certo para levantar ânimos. A pasmaceira geral. De súbito, me lembrei da Katia e isso me salvou, a evoquei imaginariamente, procurando imitar a força de seu olhar dourado, tentando me equilibrar no argumento. Juntando o que posso na voz, procurei costurar, no silêncio do ar-condicionado e poltronas estofadas, ideias sobre as coisas mais importantes do mundo, a grama, os grilos, os rios voadores, os sapos, as caudinhas de girinos, o texto, a chuva.
Olha, falar em público tem algo de transcendental, quando a gente sai imaginariamente da cena para justamente estar em cena. Por uns quatro segundos, deu certo. Consegui imitar a voz da minha amiga e sustentei as frases. Abri um sorriso com o vinco dos olhos e algum douradinho saiu.
Terminei a fala. Tomei um golinho d’água. Recolhi meus papéis. Enquanto isso, ninguém se moveu. Ao sair do palco, aquilo me atingiu. Um cansaço incomum. Meu corpo, de um metal mais pesado que o chumbo.
Ao redor, a paisagem do desânimo. Ninguém estava exatamente vivo. Ou devidamente morto. Solitárias, as bochechas amassadas pelos punhos e as testas escorrendo pelas mãos. Os ombros desmanchados em uma baba transcendental. Olha, creatina nenhuma é capaz de nos salvar da postura antropocênica: todo o centro do corpo, todos os olhos vitrificados, todos os umbigos unidos ao fio de silício.
O fio de silício, enrolado no pequeno aparelho retangular.
Impossível desgrudar os olhos, o coração, a boca semi-aberta do celular, fisgados numa solidão eterna. Os troncos desmilinguidos pelas cadeiras, os pulmões no automático.
(Quando vierem os óculos, será que nós vamos, ao menos, melhorar a postura?)
Águas mortas
O triunfo da Modernidade. Ocupar 100% de nosso tempo de vigília (e devorar nosso tempo de sono) por meio do excesso de conexão. Nunca mais se deixar enervar pela pasmaceira, nunca mais experimentar o não saber o que fazer, nunca mais suportar a espera das coisas inesperáveis. Em qualquer situação, sacamos o aparelho. O fio que nos religa a qualquer sinal de desconforto. A chupeta de silício.
Entretanto, ao observar aquelas faces lisas de emoções no auditório, cunhadas numa imobilidade pesada, só vejo um poço fundo. Um duplo obscuro do tédio, a exaustão por absolutamente nada. A aniquilação do desejo. Águas mortas. Como se aguardassem uma ordem desse cordão umbilical metálico para botarem o sexo, a pele, a boca, a alma em algum movimento. A ordem que nunca vem, o desacordo do mundo.
Na minha pequenez exausta, não tenho a menor chance de despertar nada. As faces, lisas superfícies de um poço profundo, receberam alguma coisa vaga que mencionei sobre a Sexta Extinção, uma citação da Elizabeth Kolbert, “se a extinção é um assunto mórbido, a extinção em massa é um assunto muito mais” — uma gota caiu, reverberou em alguns círculos concêntricos até o espelho escuro se voltar ocupado, impassível, imóvel.
Luas tortas
Diante de todo esse ar mortuário, lembrei da série Dying for Sex (traduzida por Renata Correia como “morrendo de tesão”). A protagonista, uma jovem paciente terminal, traça um plano infalível, um périplo para gozar bem gozadas suas últimas semanas de vida. Recomendo, rir da desgraça é um dom da arte.
Lembrei da série, pois a construção dramática do desejo por desejar, a paixão avassaladora pela paixão, é construída, na narrativa, pela fronteira imposta pela Morte.
Será que precisaríamos disso, desse limite fatal, para acordar do transe e nos lembrar de desejar?
O pássaro dos sonhos e os exercícios de tédio
A partir dessa experiência toda (aprende-se muito com o fracasso diário), decidi fazer um exercício inútil há semanas: procuro me entediar.
Decidi não me deixar esvair como aqueles rostos, a maioria com muito menos rugas do que o meu ou da minha amiga poeta. Deploráveis são as coisas consideradas sem ênfase. Agora dedico alguns instantes do dia à chatice de estar comigo mesma.
Fico imaginando o que não diria o pobre do Walter Benjamin, que cunhou uma expressão linda de morrer sobre o tédio — “o tédio é o pássaro dos sonhos”. Esse Traumvogel pertenceu a uma espécie arisca, mas é quem chocava os ovos da experiência. Se em 1935, segundo o filósofo, já não era possível avistar seus ninhos nas cidades e a espécie estava em franco declínio nos campos; em 2025, imagino que o bichinho esteja incluído na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. A Sexta Extinção não poupa ninguém.
Nos meus exercícios para me entediar, no início, usei o tricô no desmame. O pássaro fez uma única e rara aparição. Agora que já tricotei um gorro em busca de ninhos enovelados, procuro encarar a experiência no concreto. Quando não aguento a quantidade de tédio, rabisco.
Então, em mais uma prática entediante, encontro-me sentada num banco de cimento num entardecer, na parte de fora da universidade. Você já pode imaginar a cena, as universidades públicas brasileiras possuem aquela arquitetura brutal e inóspita do concreto armado. Estou com meu caderninho, numa postura corporal discutível, um pouco torta, o corpo marcado pela espinha dorsal celularesca. Procuro não fazer nada a não ser deixar o imenso céu cair e me inundar de noite.
O vento seco arrasta uma sensação de areia nos meus olhos. Finjo que não ligo, mal pisco, imitando a imobilidade dos répteis e das esfinges.
No escuro, o tédio enfim se instaura.
Sem ter muito o que fazer, a cabeça começa a caçar assunto. Quais as reuniões de amanhã mesmo? Ai, esqueci de preparar uma. Procuro não reagir à premência de abrir a agenda eletrônica. Até que fixo o olhar na silhueta de um moço que fuma. A luzinha do cigarro destaca-se no horizonte, ao lado do carrinho iluminado de pipocas. Penso que até gostaria de fumar. Lembro da falta que me fazem os vaga-lumes. Ainda existem? A mente entediada pirilampeia.
Aos poucos, a noite recém-chegada traça sua mágica nas asas lépidas do pássaro raro. A quantidade de tempo observando o absolutamente desinteressante ao meu redor molda uma rima visual entre o moço fumante e o carrinho de pipocas.
O cor-de-rosa das pipocas, a doçura adolescente
O rubro do cigarro, o gosto de idade adulta
Resisto e não abro meu celular para fotografar, qualquer luz estragaria tudo. Procuro anotar e mal consigo distinguir meus garranchos na noite. O crocante da casquinha. O veludo do alcatrão. Os dois na minha língua, mesmo que não fume, equilíbrio das passagens da vida. Fico com algo na cabeça, desdobro as perguntas de minhas pesquisas sobre plantations, o açúcar e o tabaco, o que une o Sul Global além de uma plantação, uma pergunta, uma forma de dominação? Aquele maldito fio de silício, o cansaço geral?
Rosa, canção da inocência
Rubra, canção da experiência
No começo de noite, quieta, sinto que o tédio avoou por bem, largando um pequeno ovo na escuridão, quando já não resisto e saco o livro da Prisca da bolsa, o Quimera, para visitar a linha de um poema, o qual não leio com os olhos marejados, pois o vento os secaria, mas consigo decifrar na penumbra o “é disso que se trata”:
(...) “ser floresta
apesar da rigidez dos ossos
e verdejar o mundo
nem que seja na linguagem”
Nem que seja na linguagem. Ali abraçada pelo vento seco, me sinto enovelada nos fios de ouro do ninho que se transmutam em vida. O apaixonar-se pelas coisas mais pequenas. Pipocas de uma outra época. Cigarros que só beijei. Os brejos e sapos mortos da minha infância ressurgem em minúsculos lagartos ao meio-dia. A vida pulsa. Fantasmas de vaga-lumes abrem a noite.
Rosa
Rubra
As imensas perguntas apaixonadas do futuro.
O que acontece agora?
Uma cigarra rasga o encanto e me diz que é hora. O ovo desajambrado se abriu. Rasgou o concreto, o médio e o frouxo. Banhada do tédio por tudo, anoitecida desejo o mundo.
Com páginas e enigmas, alçamos voo.
Referências
AGUSTONI, Prisca. Quimera. São Paulo: Círculo de Poemas, 2025.
BENJAMIN, Walter. Der Erzähler [O narrador], várias edições.
KOLBERT, Elizabeth. A sexta extinção: Uma história não natural. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
MARCHESE, Katia. Herbário da memória. São Paulo: Quelônio, 2023.
Dying for Sex, série de Kim Rosenstock e Elizabeth Meriwether, Hulu, 2025; baseada no podcast homônimo de Molly Kochan e Nikki Boyer, Wondery, 2020.
📚 O dia depois do eclipse: a grande notícia!
Em companhia estrelada, tive um conto incluído na antologia El día después del eclipse.
O livro foi publicado pela Minotauro, um selo da editora Planeta na Colômbia, o que garante um alcance generoso ao livro, organizado pela mexicana Gabriela Damián Miravete.
É uma obra de ficção científica representativa, com contos de Paula A. Castillo (Colômbia), Liliana Colanzi (Bolívia), Yasmin Silvia Portales Machado (Cuba), Pabsi Livmar (Porto Rico), Yadira Álvarez Betancourt (Cuba), Soledad Véliz (Chile), Selene Hékate (Uruguai), Karen Andrea Reyes (Colômbia), Yásnaya Elena Aguilar Gil (Ayutla Mixe), Tanya Tynjälä (Peru) e Ana Rüsche (Brasil). Publicado em espanhol. Espero que chegue ao público brasileiro! Torçam comigo.
🤓 Ecologia e literatura da América do Sul
Está no ar mais uma edição do Caderno Seminal, uma revista acadêmica com foco nos Estudos de Língua e nos Estudos de Literatura: “Tendências da ecoficção e da ecocrítica na contemporaneidade”. Participei da organização do dossiê, ao lado de colegas que admiro, André Araújo e Elizabeth Ginway — um trabalho de meses marcado por duas ondas de calor em São Paulo e dois furacões na Flórida.
Destaques:
- Entrevista com a escritora boliviana Giovanna Rivero
- Resenha de Vocês brilham no escuro, da tb boliviana Liliana Colanzi, por George Amaral
- Sobre a literatura brasileira, há um artigo de Virgínia Leal sobre obras de Adriana Lisboa, Alice Ruiz Schneronk, Aline Valek, Ana Martins Marques e Clarice Lispector, entre outros artigos
- Tradução de um artigo de referência de Allison Mackey, trad. Elton Furlanetto e Lucas Brites Leque, sobre obras da uruguaia Fernanda Trías e da argentina Mariana Enríquez
Agradecimentos à paciência imensa do Editor Gerente da Revista, o professor Flavio García, e ao empenho de toda equipe da Revista.
🚀 Festival on-line a partir do Chile
Participarei da convenção oficial da Associação Chilena de Literatura de Ficção Científica e Fantástica, a ALCIFF. Estarei na mesa de domingo, 2/11, 21h30, sobre pós-humanismo sem freios, com meu amigo peruano César Santivañez. É um evento híbrido e ocorre entre 1 a 9 de novembro. Você pode acompanhar no YouTube em TransmisionesAlciffianas
📕 “Elas publicam”: Brasília
Elas publicam é um encontro voltado a mulheres do mercado editorial. Participo numa mesa sobre newsletter no dia 26 de outubro. O evento propõe fazer uma imersão para quem escreve, edita, revisa, traduz, ilustra, lê ou pensa em lidar com livros. Além de Brasília, já foi realizado em outras cidades.
📰 Sincrônicas
“Morrendo de tesão. E mais: Tati Bernardi, Papa Francisco e neanderthais.” Por Renata Corrêa
“Fiz um detox de redes sociais. E agora? Por que ainda estamos aqui? Será que o problema sou eu?” Por Hele Carmona
Beija-flor narigudo
Foi o que consegui fazer na aquarela para ilustrar a edição. O beija-flor, da família Trochilidae, com seu coração batendo a 1.260 batimentos por minuto, consegue ficar parado no ar, de tão rápidas as asas. Esse paradoxo do frenesi imóvel me faz pensar que ele seja um parente do tédio emplumado, o pássaro dos sonhos.
Sobre esta edição
Para produzir essa edição foi muito rascunho, afemaria. Milhões de anotações, exercícios entediantes. Uma pensação infinda na vida. Azucrinei amigos (obrigada pelos olhares, Thiago e Vanessa amados). Inclusive, não consegui decifrar meus garranchos no caderninho e precisei recriar tudo.
Além do tempo dilatado de redação, fiquei ainda pintando o beija-flor narigudo na aquarela — se o Benjamin elogia até aquele estranho anjinho da História, meu beija-flor narigudo não cairia mal, certo?
Enfim, tudo isso para dizer: só pude procrastinar pesadamente por contar com pessoas que apoiam financeiramente a newsletter! Muito obrigada por me permitirem parar e mergulhar no essencial. Se não fossem vocês, não teria jogado os prazos para o ar e me dedicado a algo tão raro e precioso. Agradecidíssima 🧡
Qualquer apoio a partir de 7 reais é valioso!
https://apoia.se/anacronista
Gracias
Obrigada por chegar até aqui, enrolando comigo.
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“Carga viva”: a morte, a vida e a política 📚
Olá, O ano mal começou e já afirmo: essa é uma das mais importantes edições da Anacronista: finalmente venho trazer mais detalhes sobre meu romance novo, o Carga viva.
Timeline: linha do tempo, linha da vida 📚
Olá, Esta é a terceira e última edição do especial A escrita e a máquina. Quanto mais penso sobre o assunto, menos sei.





"chupeta de silício". que expressão perfeita (e triste)!
É no tédio que nossa criatividade renasce, pois a mente precisa esvaziar para criar e ampliar. Belo texto, parabéns.