criar intimidade com a tristeza
como cultivar um estado de flow num corpo triste
tenho bastante intimidade com a tristeza. por mais que eu me sinta absolutamente viva e expressiva todos os dias, eu vivi triste a maior parte da minha vida.
minha primeira experiência com a vida foi a tristeza. eu era uma criança triste. eu não lembro de momentos onde estive entregue e confiante com a vida. minha família era instável emocionalmente e pobre. meu primeiro dia verdadeiramente alegre e confiante foi após os 18 anos. eu também tenho um transtorno depressivo chamado TDPM, onde a cada duas semanas experiencio meu corpo entrando num mundo frio e cinza.
por isso, sim, eu acho que tenho intimidade com a tristeza, por isso, quero falar como navegar o mundo num corpo triste.
hoje acordei assim, meio triste. mas me sinto viva, aberta, curiosa.
o primeiro problema que nos impede de experimentar a nossa humanidade de forma visceral é achar que sentimentos negativos são inimigos. não, não são. eles são a dualidade da matéria acontecendo. é impossível viver uma vida sem dor, sem tristeza.
o segundo problema é racionalizar demais e começar a hiper intelectualizar as causas da tristeza. faça o básico: durma bem, coma bem, se exponha a luz solar. não precisa intelectualizar mais que isso. pelo menos, não no sentido de encarar a tristeza como um problema lógico a ser resolvido.
o terceiro problema é que você acha que a tristeza te faz menos potente e menos vivo. você não está menos vivo, você só esta experienciando a vida a partir de outro lugar. por causa do meu transtorno depressivo, já trabalhei muito na minha consciência pra que minha mente não julgue experiências humanas vividas a partir de menos ânimo como experiências negativas. são só experiências. antigamente eu queria me isolar do mundo quando estava assim. hoje, quero viver o que há para viver e usar todas as experiências como convites pra explorar minhas sensações.
tudo é um convite. a tristeza é um portal. pessoas tristes conseguem acessar outra esfera da experiência humana, conseguem experimentar seu íntimo com mais visceralidade. pessoas tristes escrevem, são poetas, navegam seu mundo interior. a melancolia favorece concentração e pesquisa. a tristeza é uma oportunidade para conhecer um mundo frio e escuro que é tão vivo e importante quanto qualquer outro.
eu estudo filosofias orientais há um bom tempo. budismo, taoismo, não dualidade (advaita vedanta) etc. essas filosofias te ensinam a não discriminar a realidade. te ensinam a praticar uma aceitação radical daquilo que é.
o estado de flow é uma sensação de vida sutil e potente que surge quando sua mente e corpo estão no mesmo lugar. é ali que o espirito aparece.
quando estou no meu trabalho clt onde atendo clientes, tento sempre estar lá, presente, sem pensar nas horas, sem me sentir vítima (porque oh meu deus eu sou tão criativa, deveria estar em casa escrevendo, gravando videos, expressando, mas estou aqui!). o sentimento de vítima ou de fuga te sequestra do flow. a realidade é essa. fazer o quê? você não é a única pessoa vivendo sob o teto do capitalismo.
quanto mais a pessoa pergunta que horas são e que horas isso acaba, mais infeliz ela é.
quando você diminui a resistência a tristeza (eu faço a mesma prática quando estou doente), seu corpo e mente conseguem estar presentes para aquela realidade. você abre espaço para a vida atravessar teu corpo.
a vida continua sendo viva. nos meus anos tristes, eu lia muito, pensava muito. eu navegava meu mundo interior como poucas pessoas navegavam naquela idade. eu encontrava prazer naquela experiência.
diminuir a resistência é a melhor forma de descobrir vida. sempre.


