Amador
Amigos, escrevi o texto abaixo para a turma que acompanha a escola para planejadores financeiros independentes, mas achei que poderia ser uma leitura interessante para vocês, então tomo a liberdade de abrir o email com ele. Coloquei o convite para o evento desse sábado aqui→.
Acabei rabiscando mais na sequência. Sentei com a pretensão de soltar meia dúzia de linhas, mas me faltou concisão.
Parem quando quiserem, não vou levar para o lado pessoal, prometo – me perdi em fotos de viagem e samba e digressões.
Na escola, há coisa de 2 (ou 3) anos, eu e Vivi passamos a trabalhar com algumas folgas. São quatro pra cada. Quatro dias em que ela não dá aula, quatro dias em que eu não dou aula. Nesses dias, o professor presente geralmente convida um profissional (ex-aluno da escola ou não) para duplar. É uma alegria – pra quem descansa (somos filhos de deus também) e pra quem tem a oportunidade de bater palma para outra pessoa.
Na semana passada a Vivi folgou e eu duplei com a Joice Sperandio, planejadora queridíssima da turma de 2022. Muitas coisas passaram pela minha cabeça enquanto eu dividia a lousa com a Joice, não sei bem o porquê.
Mentira, percebi agora que eu sei. Estou com o tema “começos” na cabeça desde que soltamos o convite para que vocês nos acompanhem no problema difícil de 2026 – começamos neste sábado, às 10h, todos mais que convidados→, venham!
Enfim, cá estávamos respondendo as perguntas dos alunos e eu me peguei observando a Joice explicando pontinho por pontinho, toda cuidadosa, tão presente quanto possível. Acho que foi a primeira vez dela dando aula.
Não nos entendam mal: Vivi e eu estamos lá de corpo e alma, entregando tudo o que temos, sem restrições, mas, ainda assim, tem algo de diferente nas primeiras vezes. Um frio na barriga, uma insegurança, uma mão que sua mais do que imaginávamos que fosse possível suar. Terminei a aula tocado com a entrega da minha colega (#orgulho) e fui dormir.
No dia seguinte, minha agenda estava cheia de sessões individuais para entregar. Ofereço sessões individuais→ desde 2010, capaz que eu já tenha oferecido mais de dez mil (pai amado), mas me propus da fazer algo diferente: eu tentaria fingir que estou no comecinho, que são minhas primeiras sessões, que eu ainda não ensinei como se faz uma fotografia financeira inúmeras vezes, que eu não expliquei o método dos quadrantes tantas, tantas vezes, que seria capaz da fazê-lo em francês – eu não falo francês. Absorveria tudo com toda a sede possível.
Comecei meu dia de atendimentos um pouco desmotivado, talvez um pouco influenciado por Sendhil e Mullainathan, pesquisadores da psicologia da escassez, que deixam bem claro que a escassez, se simulada, não produz o mesmo efeito. Mas segui firme. Abaixei a cabeça e fui.
No minuto em que comecei a fazer a fotografia, olhei com atenção nos olhos do rapaz que eu atendia naquele momento e o notei absurdamente atento, desejoso das próximas instruções. Tomei o copo d’água, endireitei minha coluna, arrumei meu tom de voz e redobrei o foco. De repente, num arroubo de lucidez (e, aqui, correndo o risco de soar meio piegas auto-ajuda farofa), me ocorreu que todos os momentos são, de fato, os primeiros. Nunca aconteceram antes e nunca voltarão a acontecer.
Para o rapaz que estava sendo atendido, aquela era de fato uma primeira vez. Para mim, era uma primeira vez fingida. Mas, na minha epifania, nada disso importa. Sendo a primeira vez dele ou não, sendo a minha primeira vez ou não, aquele momento é uma oportunidade maravilhosa de estarmos ali, presentes, oferecendo nosso melhor.
Sinto que terminei a maratona de sessões cansado, mas fresco, sentindo que a mente precisava de descanso, mas energizada mesmo assim. Passei as horas dedicadas ao trabalho naquele dia na melhor postura que podemos estar: a de aprendiz, amador, curioso.
Não sei, exatamente, onde vamos chegar com nossas explorações dos próximos meses, mas tenho certeza absoluta que escolhemos o desafio certo.
Um brinde aos começos, amigos – os literais e o metafóricos.
Daqui pra baixo, fiquem com minha incoesão, carinhosamente construída com vírgulas e conjunções questionáveis. Daqui a pouco começa minha aulinha de padel, esporte que comecei a praticar tem coisa de 1 mês, porque, segundo o fisioterapeuta, “se tem um esporte que sua coluna não gosta, esse esporte é o squash”.
Nesse ritmo, desconfio que em 10 anos estarei me filiando à federação brasileira de dominó.
Pensei em contar para vocês sobre um projeto antigo que não encontrou lugar na minha vida (ainda) e acabei entrando em um nostalgia moçambicana confusa e percebi que todas as vezes que lembro dessa (longa) viagem, recorro a uma pasta de fotos, registros pouco estruturados que avivam uma vida tão distante da vida de agora que custo crer que ambas foram vividas pela mesma pessoa. Compartilho com vocês três das minhas preferidas.
Na primeira, um senhor que ia todos os dias à biblioteca de Maputo ler o jornal. Sempre se movia o mínimo necessário – longos momentos de fixidez interrompidos por uma virada de página cortante e precisa, que dura o tempo exato que precisa durar. É muito satisfatório ver algo que dura os instantes que precisa durar e nada mais. Gosto de pensar que ele se chama Geraldo. Não perguntei.
Na seguinte, consentida, os quatro "estão a fazer nada”, no pequeno restaurante na beira da praia de Tofo, em Inhambane. Apareço na porta da geladeira, comendo frango piri-piri. Fomos muito felizes nesse dia.
Aqui, Adelia e Gabi. Adelia fazia faxina na casa em que nos hospedamos, em Vilankulu. Lembro de perguntar se ela já havia contraído malária alguma vez e ela me respondeu “Ah, pois sim, muitas vezes". Estranhei a resposta e repeti a pergunta, imaginando que meu português brasileiro não havia se conectado bem com o português moçambicano dela. “Malária mesmo, Adelia? Aquela doença do mosquito?”. E ela respondeu que sim e que a filha dela estava com a primeira malária da vida agora mesmo.
Mas, enfim, entrei no vórtice moçambicano porque há poucos dias comentei com amigos que voltamos para o Brasil na intenção de comprar um carro, pegar Jorginho (nosso cachorro), descer para Buenos Aires e rodar o Brasil entrevistando gente e produzindo o material que daria origem a um novo livro – o vidas possíveis, que seguiria a linha do capítulo homônimo do Dinheiro Sem Medo→.
Gabi entrevistaria as pessoas e eu escreveria um conto sobre suas vidas financeiras. Realidades muito diferentes, insights de planejamento financeiro, texto corrido sem pressa, fotos lindas.
O ano era 2020, coronavirus chegou, Gabi recebeu a proposta de emprego que nos levaria a Brasilia nos meses seguintes e esse projeto nunca aconteceu. Quero acreditar que ele vai acontecer um dia.
Produzo “para a internet” com muito prazer – acabei de soltar o sexto episódio→ dessa nova série sobre investimentos dentro do meu podcast. Me agrada a ideia de fazer parte da lavada de louça de alguém, do trajeto casa-trabalho, da ida autoforçada na academia, mas a efemeridade inevitável do digital comum – ou a superficialidade, ou a concorrência direta com a próxima peça que invadirá o fluxo mental de quem consome – me traz certo desconforto.
Nesses 20 anos escrevendo, percebo que meus momentos mais felizes sempre envolviam a criação menos pretensiosa (o podcast, o texto que publico aqui ou ali) e a concepção de projetos mais perenes, que me deixam com vontade de parar na metade, que me fazem querer comer um pedaço da minha própria perna, que eu às vezes acho ótimo e às vezes acho uma tranqueira e que, em alguma medida, me desconectam de todo o resto.
Fizemos uma roda de samba quando voltamos para o Brasil, semanas antes da pandemia estourar.
Fiquem bem, amigos, nos vemos no sábado→
Um abraço grande.







Que lindeza esse texto. Me deu um quentinho no coração, Amuri. Nessa parte dos começos eu me lembrei do livro "a mente de principiante" do mestre budista zen Shunryu Suzuki. Eu sinto isso que você falou de um começo fingido no trabalho, mas um inteiramente novo para a outra pessoa que está ali.
Poxa, muito legal essa ideia das vidas possíveis. Amo essa parte do livro, pois parece uma troca com outra pessoa, uma oportunidade de conhecer vidas diferentes. :)
Amei esse post, e também me identifiquei com Geraldo lendo na biblioteca. ❤️
Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio...
pois na segunda vez o rio já não é o mesmo,
nem tão pouco o homem!
Heráclito de Éfeso
boa semana, Amuri!